O garoto considerou seriamente dar meia-volta e refazer o caminho para casa, mas não o fez. Não havia falado com a Sra. Hummel desde que o enterro de Logan, e sabia que devia ao menos checar como as coisas estavam para a família.
Ele e Logan não eram amigos de infância, embora se conhecessem há uns bons anos. É claro que não poderia se afastar completamente e voltar a se aproximar da família apenas quando tudo estivesse melhor, mas a ideia de lidar com a tristeza de uma mãe o assustava. Ele nunca soube lidar com pessoas chorando, especialmente mulheres, mas a verdade é que considerava ir embora naquele mesmo momento porque não tinha certeza se ele próprio aguentaria a situação.
Sua mão ergueu-se no ar e ele tocou a campainha, sem nem mesmo perceber o que estava fazendo, mas era melhor assim. Agora não teria como escapar. A porta se abriu pouco depois, e ele reconheceu a Sra. Hummel atrás dos olhos tristes e da aparência cansada, que a deixava parecendo mais velha do que realmente era.
— Oh, querido. — Ela murmurou, e ele não pode dizer se o sorriso fraco que se abriu em seu rosto era sincero ou apenas para tentar mascarar a tristeza. — Entre, entre.
A mulher abriu a porta um pouco mais, para que o jovem passasse. Assim que ele o fez, ela o conduziu pelo corredor em direção à sala de estar, murmurando algo sobre ir preparar um café para que ele tomasse, enquanto ele poderia esperar na sala.
Ele não fez qualquer objeção, mas não pode evitar a surpresa ao chegar no cômodo. A casa dos Hummel sempre fora muito organizada, com exceção do quarto de Logan, mas não era a típica limpeza e organização que o aguardava. Em vez disso, a mesa de centro e os sofás estavam tomados por álbuns de fotografias, folhas de papel com o que o garoto reconheceu serem rascunhos do logotipo em que estavam trabalhando para a banda.
Do mesmo jeito que ele havia se assustado com o estado incomum em que o ambiente se encontrava, outra pessoa também parecia um bocado surpresa com a chegada do rapaz. Em um dos únicos lugares do sofá não ocupado pelas coisas que um dia foram de Logan, uma menina estava sentada.
Ela parecia bastante entretida com o álbum de fotos aberto em seu colo, mas levantou o olhar quando o garoto entrou na sala, e enxugou rapidamente uma lágrima solitária que escorria pela sua bochecha.
Ainda que não soubesse diferenciar bem se a surpresa que o tomava era por, de fato, não saber lidar com pessoas chorando ou por reconhecer na garota a sua frente a mesma com quem havia falado no cemitério, cerca de uma semana atrás. Ela agora parecia decidida a evitar o olhar do rapaz, e enrolava o longo cabelo loiro num nó malfeito e enxugava, discretamente, mais uma lágrima.
O jovem se aproximou discretamente, tirando da poltrona uma pilha de camisas que ele sabia que pertenciam ao amigo, para que pudesse se sentar. Esticou a mão até a mesa de centro, puxando para si alguns dos rascunhos de logotipo.
— Ele tinha talento. — A menina quebrou o silêncio, de repente, mas dessa vez ele não se sobressaltou.
— É. Eu e os outros caras opinamos na maioria dos rascunhos, mas a base é toda dele, não mudamos muitos detalhes. — O garoto respondeu, lentamente, antes de acrescentar para si mesmo. — Provavelmente porque éramos muito parecidos, mas não acho que isso signifique muita coisa.
Ela não respondeu, talvez nem mesmo tivesse ouvido. Seu olhar havia voltado para as fotos, e embora não chorasse mais e nem seus olhos estivessem vermelhos, sua aparência era de cansada.
— Você é o Caleb? — Ela perguntou, suavemente, e o rapaz a olhou, interessado.
— Como você sabe?
Era engraçado como eles mal se olhavam, mas, ainda assim, ele podia perceber tantas emoções nos olhos da jovem. Talvez porque fossem de um azul claro como o céu e transparente como água. Talvez porque, no fundo, ele se sentia como ela. Dessa vez, ele não pôde perceber nada em seus olhos, mas o sorriso discreto em seus lábios não passou despercebido.
— Minha tia falou sobre você. E sobre os outros também. — Ela contou, indicando uma das fotos espalhadas na mesa. Só então o garoto reparou que ele próprio estava na foto, junto de Logan e dois outros rapazes. — Ela realmente acha que vocês tinham talento…
Caleb ficou sem palavras. Sabia que Rose Hummel não era contra a banda que Logan decidira montar com os amigos, mas em nenhum momento ela se mostrou a favor, também.
— Está sendo difícil para ela, não é? — Ele perguntou retoricamente, mas ela respondeu.
—E para mim. E para todos os outros. Mas para ela principalmente, sim.
Nenhum dos dois teve tempo de dizer mais nada. Rose entrou na sala pouco depois, carregando uma bandeja com uma xícara de café e um pratinho com biscoitos. A mulher a deixou na mesa, de frente para os jovens, e enxugou as mãos no avental amarrado na cintura.
— Desculpem a demora, eu precisei… — Ela parou de repente, abanando as mãos como se o assunto não fosse importante. Seus olhos ficaram ligeiramente úmidos, mas ela se recompôs rapidamente. — Enfim, não importa. Vejo que já conheceu a Lynn?
— Sim, sim, nos conhecemos há alguns dias. — Ele comentou.
A garota mantinha-se quieta, voltando a atenção ora para a conversa dos outros dois, ora para a fotos de quando o primo era criança. Rose a olhou, ligeiramente surpresa.
— Oh, é mesmo? — Perguntou, embora não tenha esperado resposta. — De qualquer forma… Caleb, querido, você queria alguma coisa?
— Só ver se está tudo bem. — O jovem contou, timidamente.
A expressão da mulher mais velha se suavizou, e ela arriscou um sorriso fraco.
— Está, sim. Bem, é claro que podia estar melhor, mas estamos fazendo o que podemos.
Caleb achou ter visto o sorriso fraquejar por um segundo, mas embora tenha sido rápido demais, ele não duvidava que o lampejo de tristeza havia estado lá. A sala caiu em um silêncio desconfortável, até que a Sra. Hummel voltou a falar.
— Bem, se não se importam, eu preciso subir… Estou separando algumas roupas do Logan, vou doá-las para a caridade. Fiquem à vontade, sim? — Dessa vez, ela nem mesmo tentou esconder o cansaço no olhar e na expressão, apesar de o sorriso fraco continuar nos lábios.
Caleb suspirou, quando a mulher já não podia ser vista do alto da escada. Lynn o olhou de relance, curiosa.
— Não é preciso ser um gênio para saber que não está nada bem, não é?
— Não. — Ela disse, simplesmente. — Ela chora boa parte da noite. As vezes durante o dia também, quando acha que ninguém pode ouvir ou ver. Mas ela está tentando, de verdade.
O garoto concordou com a cabeça, antes de levar as mãos ao rosto, esfregando os olhos. Ele recostou-se na poltrona, suspirando, e tendo todos os movimentos observados cuidadosamente por Lynn.
— Uma hora as coisas vão melhorar. — Ele murmurou, mais para si mesmo do que para a garota.
— Eu sei. — Ela concordou. — Mas não adianta esperar pela luz quando a gente está no escuro. Temos que acender uma vela nós mesmos.
Caleb a olhou, curioso, mas a menina não sustentou o olhar dele por muito tempo.
— O que quer dizer?
— Todos sentimos a falta do Logan. E não tem como superar isso de uma hora pra outra, mas não faz bem ficar revivendo o passado.
A frase pairou no ar por quase um minuto, e ambos os adolescentes pareciam perdidos em pensamentos demais para notar a presença um do outro.
— Um passo de cada vez. — Caleb disse, por fim. Ele se levantou e retirou o álbum de fotos que ainda estava no colo da garota, fechando e colocando-o sobre a mesa.
Ela não o respondeu, e ele abaixou o olhar, sem graça. Antes que o silêncio se instalasse por muito tempo de novo, o garoto pigarreou, atraindo a atenção para si.
— Acho que eu já vou. Não há muito que eu possa fazer, de qualquer forma…
Lynn acenou positivamente, com as mãos nos bolsos do short jeans que usava. Ela o guiou pelo corredor em direção à porta de entrada da casa, e ambos pararam no batente da porta, sem saber como se despedir.
— Se despeça da sua tia por mim. — Ele falou, por fim, antes de se arriscar com um sorriso torto: — E não se esqueça de acender a vela.
— Usarei uma lanterna, se precisar. — Lynn respondeu.
Caleb riu baixo, antes de seguir pelo jardim, em direção à rua. Ainda estava no escuro, mas pelo menos agora tinha uma consciência maior de que não estava sozinho.
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domingo, 11 de maio de 2014
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Lívia Garcia
segunda-feira, 5 de maio de 2014
— É engraçado como as coisas mudam em tão pouco tempo, né, irmão? — O garoto comentou, sozinho, e em voz baixa. — Há alguns meses, tudo era tão diferente. Uma pena que as coisas não deram certo.
Ele parou, esperando uma resposta que não veio. Tudo estava no mais perfeito silêncio, e se não fosse por ele e pelo ritmo constante de sua respiração, tudo estaria como se congelado no tempo. Nem mesmo o vento – no momento inexistente – movia as folhas das várias árvores ali.
O jovem não devia ter mais de 17 anos, mas algo em sua expressão indicava que ele entendesse da vida como um adulto. Talvez ele só tivesse a sorte de parecer mais maduro do que era, ou talvez a vida tivesse o obrigado a ver as coisas de forma mais realista. Uma pena que nem sempre aprendemos a viver no tempo certo. Às vezes, aprendemos mais rápido do que deveríamos.
— Sinto sua falta. — Ele confessou, em voz baixa.
— Eu sinto, também. — A voz feminina ecoou ali perto, tão baixa quanto um sussurro, mas, mesmo assim, ele se sobressaltou.
A menina estava encostada numa das árvores mais altas por ali, perto de onde ele próprio estava. Ele não a viu chegar, e logo entendeu porquê. Ela se moveu em silêncio, provavelmente da mesma forma que havia chegado ali, e se aproximou.
Nenhum dos dois disse mais nada. Ele, num silêncio constrangedor. Ela, num silêncio calmo. Ambos, porém, doloridos. A menina sentou-se ao lado do jovem, abraçando as próprias pernas, e com a cabeça apoiada nos joelhos.
— Era amiga dele, também? — O garoto perguntou, timidamente. Ele a olhou pelo canto dos olhos, mas ela nem mesmo se moveu.
— Prima.
— Sinto muito. — Ele voltou a falar, e permaneceram um momento em silêncio. — Quer que eu a deixe sozinha?
Ela o olhou. Seu rosto não tinha emoção alguma, com exceção de um traço de curiosidade no olhar. Por algum motivo, ele se sentiu incomodado com a avaliação rápida que ela fazia.
— Não é como se ele pudesse responder alguma tentativa de conversa.
Ela não falou mais nada, mas manteve o contato visual. O jovem a olhou ainda mais sem graça do que já estava, e não sustentou o olhar da moça muito tempo. Ele voltou a olhar o túmulo de mármore na frente da qual estavam sentados, e em breve a menina fez o mesmo.
— Foi você quem as trouxe? — Ela perguntou, indicando com a cabeça o buquê de flores do campo pousado ali em cima.
— Sim. Um bocado afeminado, não é? — Ele respondeu, com uma risada anasalada e voz um tanto quanto amarga.
— Não. São bonitas, mas inúteis. — A menina opinou, antes de completar com a voz mais baixa: — Ele não pode mais sentir o perfume que elas exalam.
O jovem considerou por um momento, e o silêncio entre eles voltou a reinar. Reparando bem, ele podia ver a tristeza escondida nos olhos dela, mesmo com a atitude serena. Não a forçaria a falar, apesar de tudo. Sabia como ela estava se sentindo, apesar do fato de que essa era a única coisa que sabia a seu respeito.
— Preciso ir. — Ele comentou ao olhar o relógio de pulso, no fim de longos minutos em que não falaram mais nada. — Se demorar mais um pouco, vou me atrasar para buscar minha irmã mais nova.
A menina não o olhou enquanto o garoto se levantava, apenas acenou positivamente com a cabeça, e ele se sentiu um tanto quanto idiota por dar explicações a uma desconhecida.
— Fique bem. Ou ao menos tente. — Ele se arriscou a dizer. — Não acho que Logan gostaria de ver qualquer um que o conhecesse triste.
A jovem acenou minimamente com a cabeça, e ele deu as costas, em direção aos portões de ferro do cemitério. Achou ter visto os olhos dela ligeiramente úmidos, mas se ela precisasse desabafar de algum modo, o melhor seria que fosse sozinha, e não na presença de um estranho.
— Obrigada.
Ele a ouviu sussurrar enquanto se afastava, mas não voltou. De qualquer forma, não saberia dizer se ela agradecia a ele, ou se estava se dirigindo ao túmulo do primo, jovem demais, e que nem mesmo teve a chance de aprender a viver.
Ele parou, esperando uma resposta que não veio. Tudo estava no mais perfeito silêncio, e se não fosse por ele e pelo ritmo constante de sua respiração, tudo estaria como se congelado no tempo. Nem mesmo o vento – no momento inexistente – movia as folhas das várias árvores ali.
O jovem não devia ter mais de 17 anos, mas algo em sua expressão indicava que ele entendesse da vida como um adulto. Talvez ele só tivesse a sorte de parecer mais maduro do que era, ou talvez a vida tivesse o obrigado a ver as coisas de forma mais realista. Uma pena que nem sempre aprendemos a viver no tempo certo. Às vezes, aprendemos mais rápido do que deveríamos.
— Sinto sua falta. — Ele confessou, em voz baixa.
— Eu sinto, também. — A voz feminina ecoou ali perto, tão baixa quanto um sussurro, mas, mesmo assim, ele se sobressaltou.
A menina estava encostada numa das árvores mais altas por ali, perto de onde ele próprio estava. Ele não a viu chegar, e logo entendeu porquê. Ela se moveu em silêncio, provavelmente da mesma forma que havia chegado ali, e se aproximou.
Nenhum dos dois disse mais nada. Ele, num silêncio constrangedor. Ela, num silêncio calmo. Ambos, porém, doloridos. A menina sentou-se ao lado do jovem, abraçando as próprias pernas, e com a cabeça apoiada nos joelhos.
— Era amiga dele, também? — O garoto perguntou, timidamente. Ele a olhou pelo canto dos olhos, mas ela nem mesmo se moveu.
— Prima.
— Sinto muito. — Ele voltou a falar, e permaneceram um momento em silêncio. — Quer que eu a deixe sozinha?
Ela o olhou. Seu rosto não tinha emoção alguma, com exceção de um traço de curiosidade no olhar. Por algum motivo, ele se sentiu incomodado com a avaliação rápida que ela fazia.
— Não é como se ele pudesse responder alguma tentativa de conversa.
Ela não falou mais nada, mas manteve o contato visual. O jovem a olhou ainda mais sem graça do que já estava, e não sustentou o olhar da moça muito tempo. Ele voltou a olhar o túmulo de mármore na frente da qual estavam sentados, e em breve a menina fez o mesmo.
— Foi você quem as trouxe? — Ela perguntou, indicando com a cabeça o buquê de flores do campo pousado ali em cima.
— Sim. Um bocado afeminado, não é? — Ele respondeu, com uma risada anasalada e voz um tanto quanto amarga.
— Não. São bonitas, mas inúteis. — A menina opinou, antes de completar com a voz mais baixa: — Ele não pode mais sentir o perfume que elas exalam.
O jovem considerou por um momento, e o silêncio entre eles voltou a reinar. Reparando bem, ele podia ver a tristeza escondida nos olhos dela, mesmo com a atitude serena. Não a forçaria a falar, apesar de tudo. Sabia como ela estava se sentindo, apesar do fato de que essa era a única coisa que sabia a seu respeito.
— Preciso ir. — Ele comentou ao olhar o relógio de pulso, no fim de longos minutos em que não falaram mais nada. — Se demorar mais um pouco, vou me atrasar para buscar minha irmã mais nova.
A menina não o olhou enquanto o garoto se levantava, apenas acenou positivamente com a cabeça, e ele se sentiu um tanto quanto idiota por dar explicações a uma desconhecida.
— Fique bem. Ou ao menos tente. — Ele se arriscou a dizer. — Não acho que Logan gostaria de ver qualquer um que o conhecesse triste.
A jovem acenou minimamente com a cabeça, e ele deu as costas, em direção aos portões de ferro do cemitério. Achou ter visto os olhos dela ligeiramente úmidos, mas se ela precisasse desabafar de algum modo, o melhor seria que fosse sozinha, e não na presença de um estranho.
— Obrigada.
Ele a ouviu sussurrar enquanto se afastava, mas não voltou. De qualquer forma, não saberia dizer se ela agradecia a ele, ou se estava se dirigindo ao túmulo do primo, jovem demais, e que nem mesmo teve a chance de aprender a viver.
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sábado, 8 de março de 2014
Ali estava, mais uma criança solitária. São tantas. Gostaria de poder ajudar a todas, mas sei que não posso. Isso mudaria o ciclo natural da vida. Mas uma a mais não faria mal, eu acho… Apenas preciso cuidar para que não me descubram.
Concentrei-me em minha aparência. Aposto que ela gosta de princesas. Esse vestido azul com babados é bonito o suficiente, acho. A janela se abriu ao menor movimento de minhas mãos, e a ondulação que o ar de minha passagem provocou nas cortinas fez a menina virar-se.
Ela me olhou com espanto, mas sabia que não gritaria. Afastou as cobertas e sentou-se na cama.
— Você é um anjo?
A pergunta inocente pegou-me de surpresa. Ri alto, e ela olhou para a porta como se temesse que alguém entrasse a qualquer momento, pedindo silêncio ou mandando-a dormir.
— Fique tranquila. Ninguém pode me ouvir. Apenas você. — Assegurei-lhe, antes de responder a pergunta: — Não. Eu não sou um anjo. Eu sou a Nostalgia.
— Mas você parece tão jovem…
— Ora, querida, e com o que isso tem relação?
— Pra mim nostalgia é saudades. E saudade é o que sentimos do que já passou, do que é antigo. — Ela explicou. Aquilo em sua voz era vergonha?
— Nostalgia é mais do que isso. A Saudade deixa um quê de tristeza por onde passa. Mas eu não, eu não gosto de ver as pessoas tristes. Gosto de fazê-las lembrar de bons momentos também. E como poderia fazer isso tendo uma aparência apenas triste?!
Ela não havia entendido, tenho certeza.
— Veja bem: se você já estivesse bem velhinha, e se lembrasse de alguém que conheceu quando era pequena, como gostaria de pensar nessa pessoa? Como alguém da sua idade, tendo consciência que o tempo passou, ou como uma criança, com a sensação de que o Tempo não tem poder sobre você?
— Oh, entendi! — Um brilho passou por seus olhos, e ela comentou com voz sonhadora: — Deve ser maravilhoso, jamais envelhecer mesmo depois de tanto tempo!
Podia ver a admiração em seu rosto de boneca. Ah, se ela soubesse… Choraria? Sentiria pena? Talvez apenas me olhasse com pesar. Todas as pessoas para quem já apareci fizeram isso. Nem uma palavra. Nem um comentário. Nem mesmo um suspiro. Mas seus olhares diziam tudo. “Coitada! Isso não é viver! Está apenas vendo a vida passar…”.
— Ei! Você ainda pode me ouvir? — Ela perguntou, abanando a mão em frente ao meu rosto. Saí do transe, mas não tive coragem para mentir.
— Sinto muito… O que disse?
— Por que está vestida assim? — Oh não! Não outra vez! Olhei para minhas próprias roupas, confirmando o que já suspeitava: mudei outra vez. Agora já não mais parecia com a princesa que planejei ser para que a pequena não se assustasse tanto. Eu me parecia mais com uma dama dos anos 40.
Eu detestava isso. Detestava não ter controle sobre mim mesma. Mas era tão inevitável… Quando percebia, era tarde demais. Eu já havia mudado, minha antiga aparência tinha mudado tão rápido quanto o tempo ao meu redor. Rápido demais para os outros, devagar demais para mim.
— Porque não tenho controle sobre mim. — Respondi, sem rodeios. Não adiantaria de nada tentar amenizar a situação.
— Como assim?
— Posso aparentar ser jovem, mas já vivi mais do que você poderia acreditar. Quase tão antiga quanto o Tempo, é o que dizem de mim. Depois de tanto tempo, desaprendi a controlar como sou. São lembranças demais, épocas demais para que eu possa me apegar a uma só…
E veja só! Lá está ele! O olhar de pena da qual lhe falei há pouco. Permanecemos um pouco em silêncio. Quis quebrá-lo, mas não tinha coragem. Quem diria, pela primeira vez eu não me sentia envergonhada por revelar quem realmente sou! Na verdade, era um silêncio bom. Quase sereno.
— E como você é? Como você é de verdade?
A pergunta me pegou de surpresa. Acho que nem mesmo parei para pensar sobre isso algum dia.
— Eu não sei. — Respondi com sinceridade.
— Como não?
— Vai ver as pessoas nunca estão satisfeitas com o que estão passando. Vai ver elas sempre querem algo diferente, ao ponto de sonharem com isso. Algumas pensam tanto em uma história melhor que acreditam que a tendência é piorar. Sempre foi assim. Elas sempre acham que o passado é melhor do que o que estão vivendo. Eu sempre existi, mas nunca com uma forma concreta.
— É confuso… — Ri suavemente. Ela nem precisava dizer. As crianças têm os olhos mais expressivos, isso eu sempre soube, e era claro que ela não havia entendido tudo o que eu disse. Ia explicar melhor, quando ela voltou a falar.
— O que está acontecendo?! — O alarme em sua voz me assustou. Olhei para baixo, apenas para perceber que estava sumindo, literalmente. Meu corpo agora estava translúcido o suficiente para que eu conseguisse enxergar o lençol de borboletas da cama.
— Ah, minha querida, eu preciso ir… — Disse, com pesar. Ela pareceu triste por um momento, mas a esperança falou mais alto quando me questionou.
— Você vai voltar? Por favor, volte! Gostei de conversar com você!
O que quer que ela tenha dito depois disso, eu não ouvi. Sua voz se distanciou, e tudo se dissolveu ao meu redor. Por que era sempre assim? Estava tão perto de fazê-la entender porque eu a visitei… Não queria lhe explicar porquê eu existo, só queria que ela soubesse como viver para que nunca mais me sentisse próxima!
De qualquer forma, jamais entenderei as razões do Tempo. Ele mandou-me para longe, e longe ficarei. Não sei quanto tempo mais se passará antes que minha forma mude mais uma vez, ou quem eu visitarei na calada da noite, quando essa pessoa precisar de ajuda. Só espero que essa pessoa entenda; eu não tenho poder sobre o Tempo, e nem ele tem poder sobre você. Não me culpe por um passado bom que teve fim, só viva para que eu nunca precise lhe visitar. Espero que a criança cujo nome não cheguei a descobrir tenha entendido isso, e espero que você entenda também.
Eu sou a Nostalgia, e te juro: não sei quem sou. Nem porque sou. A única coisa que sei é que não sou feita de futuro. Pertenço ao passado, e só. Talvez, se eu me esforçar, não me confundirão com a Saudade, e nem me acharão ruim. Só talvez. Enquanto isso, levarei lembranças boas a quem precisar delas.
Concentrei-me em minha aparência. Aposto que ela gosta de princesas. Esse vestido azul com babados é bonito o suficiente, acho. A janela se abriu ao menor movimento de minhas mãos, e a ondulação que o ar de minha passagem provocou nas cortinas fez a menina virar-se.
Ela me olhou com espanto, mas sabia que não gritaria. Afastou as cobertas e sentou-se na cama.
— Você é um anjo?
A pergunta inocente pegou-me de surpresa. Ri alto, e ela olhou para a porta como se temesse que alguém entrasse a qualquer momento, pedindo silêncio ou mandando-a dormir.
— Fique tranquila. Ninguém pode me ouvir. Apenas você. — Assegurei-lhe, antes de responder a pergunta: — Não. Eu não sou um anjo. Eu sou a Nostalgia.
— Mas você parece tão jovem…
— Ora, querida, e com o que isso tem relação?
— Pra mim nostalgia é saudades. E saudade é o que sentimos do que já passou, do que é antigo. — Ela explicou. Aquilo em sua voz era vergonha?
— Nostalgia é mais do que isso. A Saudade deixa um quê de tristeza por onde passa. Mas eu não, eu não gosto de ver as pessoas tristes. Gosto de fazê-las lembrar de bons momentos também. E como poderia fazer isso tendo uma aparência apenas triste?!
Ela não havia entendido, tenho certeza.
— Veja bem: se você já estivesse bem velhinha, e se lembrasse de alguém que conheceu quando era pequena, como gostaria de pensar nessa pessoa? Como alguém da sua idade, tendo consciência que o tempo passou, ou como uma criança, com a sensação de que o Tempo não tem poder sobre você?
— Oh, entendi! — Um brilho passou por seus olhos, e ela comentou com voz sonhadora: — Deve ser maravilhoso, jamais envelhecer mesmo depois de tanto tempo!
Podia ver a admiração em seu rosto de boneca. Ah, se ela soubesse… Choraria? Sentiria pena? Talvez apenas me olhasse com pesar. Todas as pessoas para quem já apareci fizeram isso. Nem uma palavra. Nem um comentário. Nem mesmo um suspiro. Mas seus olhares diziam tudo. “Coitada! Isso não é viver! Está apenas vendo a vida passar…”.
— Ei! Você ainda pode me ouvir? — Ela perguntou, abanando a mão em frente ao meu rosto. Saí do transe, mas não tive coragem para mentir.
— Sinto muito… O que disse?
— Por que está vestida assim? — Oh não! Não outra vez! Olhei para minhas próprias roupas, confirmando o que já suspeitava: mudei outra vez. Agora já não mais parecia com a princesa que planejei ser para que a pequena não se assustasse tanto. Eu me parecia mais com uma dama dos anos 40.
Eu detestava isso. Detestava não ter controle sobre mim mesma. Mas era tão inevitável… Quando percebia, era tarde demais. Eu já havia mudado, minha antiga aparência tinha mudado tão rápido quanto o tempo ao meu redor. Rápido demais para os outros, devagar demais para mim.
— Porque não tenho controle sobre mim. — Respondi, sem rodeios. Não adiantaria de nada tentar amenizar a situação.
— Como assim?
— Posso aparentar ser jovem, mas já vivi mais do que você poderia acreditar. Quase tão antiga quanto o Tempo, é o que dizem de mim. Depois de tanto tempo, desaprendi a controlar como sou. São lembranças demais, épocas demais para que eu possa me apegar a uma só…
E veja só! Lá está ele! O olhar de pena da qual lhe falei há pouco. Permanecemos um pouco em silêncio. Quis quebrá-lo, mas não tinha coragem. Quem diria, pela primeira vez eu não me sentia envergonhada por revelar quem realmente sou! Na verdade, era um silêncio bom. Quase sereno.
— E como você é? Como você é de verdade?
A pergunta me pegou de surpresa. Acho que nem mesmo parei para pensar sobre isso algum dia.
— Eu não sei. — Respondi com sinceridade.
— Como não?
— Vai ver as pessoas nunca estão satisfeitas com o que estão passando. Vai ver elas sempre querem algo diferente, ao ponto de sonharem com isso. Algumas pensam tanto em uma história melhor que acreditam que a tendência é piorar. Sempre foi assim. Elas sempre acham que o passado é melhor do que o que estão vivendo. Eu sempre existi, mas nunca com uma forma concreta.
— É confuso… — Ri suavemente. Ela nem precisava dizer. As crianças têm os olhos mais expressivos, isso eu sempre soube, e era claro que ela não havia entendido tudo o que eu disse. Ia explicar melhor, quando ela voltou a falar.
— O que está acontecendo?! — O alarme em sua voz me assustou. Olhei para baixo, apenas para perceber que estava sumindo, literalmente. Meu corpo agora estava translúcido o suficiente para que eu conseguisse enxergar o lençol de borboletas da cama.
— Ah, minha querida, eu preciso ir… — Disse, com pesar. Ela pareceu triste por um momento, mas a esperança falou mais alto quando me questionou.
— Você vai voltar? Por favor, volte! Gostei de conversar com você!
O que quer que ela tenha dito depois disso, eu não ouvi. Sua voz se distanciou, e tudo se dissolveu ao meu redor. Por que era sempre assim? Estava tão perto de fazê-la entender porque eu a visitei… Não queria lhe explicar porquê eu existo, só queria que ela soubesse como viver para que nunca mais me sentisse próxima!
De qualquer forma, jamais entenderei as razões do Tempo. Ele mandou-me para longe, e longe ficarei. Não sei quanto tempo mais se passará antes que minha forma mude mais uma vez, ou quem eu visitarei na calada da noite, quando essa pessoa precisar de ajuda. Só espero que essa pessoa entenda; eu não tenho poder sobre o Tempo, e nem ele tem poder sobre você. Não me culpe por um passado bom que teve fim, só viva para que eu nunca precise lhe visitar. Espero que a criança cujo nome não cheguei a descobrir tenha entendido isso, e espero que você entenda também.
Eu sou a Nostalgia, e te juro: não sei quem sou. Nem porque sou. A única coisa que sei é que não sou feita de futuro. Pertenço ao passado, e só. Talvez, se eu me esforçar, não me confundirão com a Saudade, e nem me acharão ruim. Só talvez. Enquanto isso, levarei lembranças boas a quem precisar delas.
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domingo, 2 de março de 2014
Da guerra que agora afrontava meu próprio país, eu não me fazia presente. Guerras jamais me importaram, e como eu poderia me importar com tantas mortes de inocentes, se eu mesma não me encontrava mais viva?
Sei que soa egoísta, e sei que soa exagerado. Mas o quão egoísta não é a ideia de milhares de pessoas arriscarem suas vidas para defender as de outras? Eu não vejo como heroísmo. Suicídio, talvez. Ninguém nunca reparou nisso. Ninguém pensaria nisso quando sua própria vida está correndo perigo.
A maioria não pensa nisso por estar muito ocupada imersa em seu próprio desespero. Mas não eu. Há muito já passei dessa fase. Não me preocupo mais com minha própria vida, mas considero se sou digna de tê-la.
Algumas semanas já haviam se passado desde que novos homens foram convocados para a guerra. Ele inclusive. Algumas semanas haviam se passado, e eu ainda não vira o regresso do navio que nos havia separado. Parte de mim acreditava que eu mesma estava enlouquecendo. A outra parte se mantinha plenamente consciente, de tudo que acontecia a minha volta, das notícias da guerra que parecia não ter fim, e de tudo que falavam de mim.
A essa altura, já me chamavam de louca. Eu passava mais tempo no porto do que em minha própria casa. Não possuía mais lágrimas para chorar, ou notícias que me dessem esperança de que ele estava vivo. Em minha mente, não conseguia mais formular frases coesas para uma oração que fosse. Só um pensamento jamais me abandonava: Por que ele, e não eu? Por que ele foi levado para longe, e não eu?
A saudade era parte de mim, bem como meus olhos ou meu coração. Bem como ele. Mas se ele não estava mais comigo, por que deveria eu conviver com a saudade? O cheiro de água salgada confundia meus pensamentos, e eu não sabia mais qual parte de mim era lúcida e qual tentava me iludir. Eu poderia tentar ir atrás dele. Não poderia? Seria mais fácil decidir se eu soubesse qual parte de mim sugeriu um plano tão louco e tão tentador…
Era aquele o mesmo navio que o havia levado de mim, surgindo outra vez no horizonte? Não… Como poderia, se quando pisquei e abri novamente os olhos, ele havia desaparecido? O desespero voltava a tomar conta de mim, aos poucos e acompanhado da frustração. Minha parte lúcida gritava que meus sentidos estavam se perdendo, mas uma parte maior controlava meus passos.
Primeiro uma caminhada, depois uma corrida. Primeiro o piso de madeira do porto, depois a queda. Primeiro o ar, depois a água. Primeiro a solidão, e depois, mais nada. A guerra o tirou de mim, e eu sabia que ele jamais voltaria. Mas estava tudo bem, agora. Eu jamais voltaria, também.
Sei que soa egoísta, e sei que soa exagerado. Mas o quão egoísta não é a ideia de milhares de pessoas arriscarem suas vidas para defender as de outras? Eu não vejo como heroísmo. Suicídio, talvez. Ninguém nunca reparou nisso. Ninguém pensaria nisso quando sua própria vida está correndo perigo.
A maioria não pensa nisso por estar muito ocupada imersa em seu próprio desespero. Mas não eu. Há muito já passei dessa fase. Não me preocupo mais com minha própria vida, mas considero se sou digna de tê-la.
Algumas semanas já haviam se passado desde que novos homens foram convocados para a guerra. Ele inclusive. Algumas semanas haviam se passado, e eu ainda não vira o regresso do navio que nos havia separado. Parte de mim acreditava que eu mesma estava enlouquecendo. A outra parte se mantinha plenamente consciente, de tudo que acontecia a minha volta, das notícias da guerra que parecia não ter fim, e de tudo que falavam de mim.
A essa altura, já me chamavam de louca. Eu passava mais tempo no porto do que em minha própria casa. Não possuía mais lágrimas para chorar, ou notícias que me dessem esperança de que ele estava vivo. Em minha mente, não conseguia mais formular frases coesas para uma oração que fosse. Só um pensamento jamais me abandonava: Por que ele, e não eu? Por que ele foi levado para longe, e não eu?
A saudade era parte de mim, bem como meus olhos ou meu coração. Bem como ele. Mas se ele não estava mais comigo, por que deveria eu conviver com a saudade? O cheiro de água salgada confundia meus pensamentos, e eu não sabia mais qual parte de mim era lúcida e qual tentava me iludir. Eu poderia tentar ir atrás dele. Não poderia? Seria mais fácil decidir se eu soubesse qual parte de mim sugeriu um plano tão louco e tão tentador…
Era aquele o mesmo navio que o havia levado de mim, surgindo outra vez no horizonte? Não… Como poderia, se quando pisquei e abri novamente os olhos, ele havia desaparecido? O desespero voltava a tomar conta de mim, aos poucos e acompanhado da frustração. Minha parte lúcida gritava que meus sentidos estavam se perdendo, mas uma parte maior controlava meus passos.
Primeiro uma caminhada, depois uma corrida. Primeiro o piso de madeira do porto, depois a queda. Primeiro o ar, depois a água. Primeiro a solidão, e depois, mais nada. A guerra o tirou de mim, e eu sabia que ele jamais voltaria. Mas estava tudo bem, agora. Eu jamais voltaria, também.
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Lívia Garcia
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