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domingo, 11 de maio de 2014

Sobre a dor que nos une

O garoto considerou seriamente dar meia-volta e refazer o caminho para casa, mas não o fez. Não havia falado com a Sra. Hummel desde que o enterro de Logan, e sabia que devia ao menos checar como as coisas estavam para a família.

Ele e Logan não eram amigos de infância, embora se conhecessem há uns bons anos. É claro que não poderia se afastar completamente e voltar a se aproximar da família apenas quando tudo estivesse melhor, mas a ideia de lidar com a tristeza de uma mãe o assustava. Ele nunca soube lidar com pessoas chorando, especialmente mulheres, mas a verdade é que considerava ir embora naquele mesmo momento porque não tinha certeza se ele próprio aguentaria a situação.

Sua mão ergueu-se no ar e ele tocou a campainha, sem nem mesmo perceber o que estava fazendo, mas era melhor assim. Agora não teria como escapar. A porta se abriu pouco depois, e ele reconheceu a Sra. Hummel atrás dos olhos tristes e da aparência cansada, que a deixava parecendo mais velha do que realmente era.

— Oh, querido. — Ela murmurou, e ele não pode dizer se o sorriso fraco que se abriu em seu rosto era sincero ou apenas para tentar mascarar a tristeza. — Entre, entre.

A mulher abriu a porta um pouco mais, para que o jovem passasse. Assim que ele o fez, ela o conduziu pelo corredor em direção à sala de estar, murmurando algo sobre ir preparar um café para que ele tomasse, enquanto ele poderia esperar na sala.

Ele não fez qualquer objeção, mas não pode evitar a surpresa ao chegar no cômodo. A casa dos Hummel sempre fora muito organizada, com exceção do quarto de Logan, mas não era a típica limpeza e organização que o aguardava. Em vez disso, a mesa de centro e os sofás estavam tomados por álbuns de fotografias, folhas de papel com o que o garoto reconheceu serem rascunhos do logotipo em que estavam trabalhando para a banda.

Do mesmo jeito que ele havia se assustado com o estado incomum em que o ambiente se encontrava, outra pessoa também parecia um bocado surpresa com a chegada do rapaz. Em um dos únicos lugares do sofá não ocupado pelas coisas que um dia foram de Logan, uma menina estava sentada.

Ela parecia bastante entretida com o álbum de fotos aberto em seu colo, mas levantou o olhar quando o garoto entrou na sala, e enxugou rapidamente uma lágrima solitária que escorria pela sua bochecha.

Ainda que não soubesse diferenciar bem se a surpresa que o tomava era por, de fato, não saber lidar com pessoas chorando ou por reconhecer na garota a sua frente a mesma com quem havia falado no cemitério, cerca de uma semana atrás. Ela agora parecia decidida a evitar o olhar do rapaz, e enrolava o longo cabelo loiro num nó malfeito e enxugava, discretamente, mais uma lágrima.

O jovem se aproximou discretamente, tirando da poltrona uma pilha de camisas que ele sabia que pertenciam ao amigo, para que pudesse se sentar. Esticou a mão até a mesa de centro, puxando para si alguns dos rascunhos de logotipo.

— Ele tinha talento. — A menina quebrou o silêncio, de repente, mas dessa vez ele não se sobressaltou.
— É. Eu e os outros caras opinamos na maioria dos rascunhos, mas a base é toda dele, não mudamos muitos detalhes. — O garoto respondeu, lentamente, antes de acrescentar para si mesmo. — Provavelmente porque éramos muito parecidos, mas não acho que isso signifique muita coisa.

Ela não respondeu, talvez nem mesmo tivesse ouvido. Seu olhar havia voltado para as fotos, e embora não chorasse mais e nem seus olhos estivessem vermelhos, sua aparência era de cansada.

— Você é o Caleb? — Ela perguntou, suavemente, e o rapaz a olhou, interessado.
— Como você sabe?

Era engraçado como eles mal se olhavam, mas, ainda assim, ele podia perceber tantas emoções nos olhos da jovem. Talvez porque fossem de um azul claro como o céu e transparente como água. Talvez porque, no fundo, ele se sentia como ela. Dessa vez, ele não pôde perceber nada em seus olhos, mas o sorriso discreto em seus lábios não passou despercebido.

— Minha tia falou sobre você. E sobre os outros também. — Ela contou, indicando uma das fotos espalhadas na mesa. Só então o garoto reparou que ele próprio estava na foto, junto de Logan e dois outros rapazes. — Ela realmente acha que vocês tinham talento…

Caleb ficou sem palavras. Sabia que Rose Hummel não era contra a banda que Logan decidira montar com os amigos, mas em nenhum momento ela se mostrou a favor, também.

— Está sendo difícil para ela, não é? — Ele perguntou retoricamente, mas ela respondeu.
 —E para mim. E para todos os outros. Mas para ela principalmente, sim.

Nenhum dos dois teve tempo de dizer mais nada. Rose entrou na sala pouco depois, carregando uma bandeja com uma xícara de café e um pratinho com biscoitos. A mulher a deixou na mesa, de frente para os jovens, e enxugou as mãos no avental amarrado na cintura.

— Desculpem a demora, eu precisei… — Ela parou de repente, abanando as mãos como se o assunto não fosse importante. Seus olhos ficaram ligeiramente úmidos, mas ela se recompôs rapidamente. — Enfim, não importa. Vejo que já conheceu a Lynn?
— Sim, sim, nos conhecemos há alguns dias. — Ele comentou.

A garota mantinha-se quieta, voltando a atenção ora para a conversa dos outros dois, ora para a fotos de quando o primo era criança. Rose a olhou, ligeiramente surpresa.

— Oh, é mesmo? — Perguntou, embora não tenha esperado resposta. — De qualquer forma… Caleb, querido, você queria alguma coisa?
— Só ver se está tudo bem. — O jovem contou, timidamente.

A expressão da mulher mais velha se suavizou, e ela arriscou um sorriso fraco.

— Está, sim. Bem, é claro que podia estar melhor, mas estamos fazendo o que podemos.

Caleb achou ter visto o sorriso fraquejar por um segundo, mas embora tenha sido rápido demais, ele não duvidava que o lampejo de tristeza havia estado lá. A sala caiu em um silêncio desconfortável, até que a Sra. Hummel voltou a falar.

— Bem, se não se importam, eu preciso subir… Estou separando algumas roupas do Logan, vou doá-las para a caridade. Fiquem à vontade, sim? — Dessa vez, ela nem mesmo tentou esconder o cansaço no olhar e na expressão, apesar de o sorriso fraco continuar nos lábios.

 Caleb suspirou, quando a mulher já não podia ser vista do alto da escada. Lynn o olhou de relance, curiosa.

— Não é preciso ser um gênio para saber que não está nada bem, não é?
— Não. — Ela disse, simplesmente. — Ela chora boa parte da noite. As vezes durante o dia também, quando acha que ninguém pode ouvir ou ver. Mas ela está tentando, de verdade.

O garoto concordou com a cabeça, antes de levar as mãos ao rosto, esfregando os olhos. Ele recostou-se na poltrona, suspirando, e tendo todos os movimentos observados cuidadosamente por Lynn.

— Uma hora as coisas vão melhorar. — Ele murmurou, mais para si mesmo do que para a garota.
— Eu sei. — Ela concordou. — Mas não adianta esperar pela luz quando a gente está no escuro. Temos que acender uma vela nós mesmos.

Caleb a olhou, curioso, mas a menina não sustentou o olhar dele por muito tempo.

— O que quer dizer?
— Todos sentimos a falta do Logan. E não tem como superar isso de uma hora pra outra, mas não faz bem ficar revivendo o passado.

A frase pairou no ar por quase um minuto, e ambos os adolescentes pareciam perdidos em pensamentos demais para notar a presença um do outro.

— Um passo de cada vez. — Caleb disse, por fim. Ele se levantou e retirou o álbum de fotos que ainda estava no colo da garota, fechando e colocando-o sobre a mesa.

Ela não o respondeu, e ele abaixou o olhar, sem graça. Antes que o silêncio se instalasse por muito tempo de novo, o garoto pigarreou, atraindo a atenção para si.

— Acho que eu já vou. Não há muito que eu possa fazer, de qualquer forma…

Lynn acenou positivamente, com as mãos nos bolsos do short jeans que usava. Ela o guiou pelo corredor em direção à porta de entrada da casa, e ambos pararam no batente da porta, sem saber como se despedir.

— Se despeça da sua tia por mim. — Ele falou, por fim, antes de se arriscar com um sorriso torto: — E não se esqueça de acender a vela.
— Usarei uma lanterna, se precisar. — Lynn respondeu.

Caleb riu baixo, antes de seguir pelo jardim, em direção à rua. Ainda estava no escuro, mas pelo menos agora tinha uma consciência maior de que não estava sozinho.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre a morte que nos separa

— É engraçado como as coisas mudam em tão pouco tempo, né, irmão? — O garoto comentou, sozinho, e em voz baixa. — Há alguns meses, tudo era tão diferente. Uma pena que as coisas não deram certo.

Ele parou, esperando uma resposta que não veio. Tudo estava no mais perfeito silêncio, e se não fosse por ele e pelo ritmo constante de sua respiração, tudo estaria como se congelado no tempo. Nem mesmo o vento – no momento inexistente – movia as folhas das várias árvores ali.

O jovem não devia ter mais de 17 anos, mas algo em sua expressão indicava que ele entendesse da vida como um adulto. Talvez ele só tivesse a sorte de parecer mais maduro do que era, ou talvez a vida tivesse o obrigado a ver as coisas de forma mais realista. Uma pena que nem sempre aprendemos a viver no tempo certo. Às vezes, aprendemos mais rápido do que deveríamos.

— Sinto sua falta. — Ele confessou, em voz baixa.
— Eu sinto, também. — A voz feminina ecoou ali perto, tão baixa quanto um sussurro, mas, mesmo assim, ele se sobressaltou.

A menina estava encostada numa das árvores mais altas por ali, perto de onde ele próprio estava. Ele não a viu chegar, e logo entendeu porquê. Ela se moveu em silêncio, provavelmente da mesma forma que havia chegado ali, e se aproximou.

Nenhum dos dois disse mais nada. Ele, num silêncio constrangedor. Ela, num silêncio calmo. Ambos, porém, doloridos. A menina sentou-se ao lado do jovem, abraçando as próprias pernas, e com a cabeça apoiada nos joelhos.

— Era amiga dele, também? — O garoto perguntou, timidamente. Ele a olhou pelo canto dos olhos, mas ela nem mesmo se moveu.
— Prima.
— Sinto muito. — Ele voltou a falar, e permaneceram um momento em silêncio. — Quer que eu a deixe sozinha?

Ela o olhou. Seu rosto não tinha emoção alguma, com exceção de um traço de curiosidade no olhar. Por algum motivo, ele se sentiu incomodado com a avaliação rápida que ela fazia.

— Não é como se ele pudesse responder alguma tentativa de conversa.

Ela não falou mais nada, mas manteve o contato visual. O jovem a olhou ainda mais sem graça do que já estava, e não sustentou o olhar da moça muito tempo. Ele voltou a olhar o túmulo de mármore na frente da qual estavam sentados, e em breve a menina fez o mesmo.

— Foi você quem as trouxe? — Ela perguntou, indicando com a cabeça o buquê de flores do campo pousado ali em cima.
— Sim. Um bocado afeminado, não é? — Ele respondeu, com uma risada anasalada e voz um tanto quanto amarga.
— Não. São bonitas, mas inúteis. — A menina opinou, antes de completar com a voz mais baixa: — Ele não pode mais sentir o perfume que elas exalam.

O jovem considerou por um momento, e o silêncio entre eles voltou a reinar. Reparando bem, ele podia ver a tristeza escondida nos olhos dela, mesmo com a atitude serena. Não a forçaria a falar, apesar de tudo. Sabia como ela estava se sentindo, apesar do fato de que essa era a única coisa que sabia a seu respeito.


— Preciso ir. — Ele comentou ao olhar o relógio de pulso, no fim de longos minutos em que não falaram mais nada. — Se demorar mais um pouco, vou me atrasar para buscar minha irmã mais nova.

A menina não o olhou enquanto o garoto se levantava, apenas acenou positivamente com a cabeça, e ele se sentiu um tanto quanto idiota por dar explicações a uma desconhecida.

— Fique bem. Ou ao menos tente. — Ele se arriscou a dizer. — Não acho que Logan gostaria de ver qualquer um que o conhecesse triste.

A jovem acenou minimamente com a cabeça, e ele deu as costas, em direção aos portões de ferro do cemitério. Achou ter visto os olhos dela ligeiramente úmidos, mas se ela precisasse desabafar de algum modo, o melhor seria que fosse sozinha, e não na presença de um estranho.

— Obrigada.

Ele a ouviu sussurrar enquanto se afastava, mas não voltou. De qualquer forma, não saberia dizer se ela agradecia a ele, ou se estava se dirigindo ao túmulo do primo, jovem demais, e que nem mesmo teve a chance de aprender a viver.

sábado, 8 de março de 2014

Incansável nostalgia

Ali estava, mais uma criança solitária. São tantas. Gostaria de poder ajudar a todas, mas sei que não posso. Isso mudaria o ciclo natural da vida. Mas uma a mais não faria mal, eu acho… Apenas preciso cuidar para que não me descubram.

Concentrei-me em minha aparência. Aposto que ela gosta de princesas. Esse vestido azul com babados é bonito o suficiente, acho. A janela se abriu ao menor movimento de minhas mãos, e a ondulação que o ar de minha passagem provocou nas cortinas fez a menina virar-se.

Ela me olhou com espanto, mas sabia que não gritaria. Afastou as cobertas e sentou-se na cama.

— Você é um anjo?

A pergunta inocente pegou-me de surpresa. Ri alto, e ela olhou para a porta como se temesse que alguém entrasse a qualquer momento, pedindo silêncio ou mandando-a dormir.

— Fique tranquila. Ninguém pode me ouvir. Apenas você. — Assegurei-lhe, antes de responder a pergunta: — Não. Eu não sou um anjo. Eu sou a Nostalgia.
— Mas você parece tão jovem…
— Ora, querida, e com o que isso tem relação?
— Pra mim nostalgia é saudades. E saudade é o que sentimos do que já passou, do que é antigo. — Ela explicou. Aquilo em sua voz era vergonha?
— Nostalgia é mais do que isso. A Saudade deixa um quê de tristeza por onde passa. Mas eu não, eu não gosto de ver as pessoas tristes. Gosto de fazê-las lembrar de bons momentos também. E como poderia fazer isso tendo uma aparência apenas triste?!

Ela não havia entendido, tenho certeza.

— Veja bem: se você já estivesse bem velhinha, e se lembrasse de alguém que conheceu quando era pequena, como gostaria de pensar nessa pessoa? Como alguém da sua idade, tendo consciência que o tempo passou, ou como uma criança, com a sensação de que o Tempo não tem poder sobre você?
— Oh, entendi! — Um brilho passou por seus olhos, e ela comentou com voz sonhadora: — Deve ser maravilhoso, jamais envelhecer mesmo depois de tanto tempo!

Podia ver a admiração em seu rosto de boneca. Ah, se ela soubesse… Choraria? Sentiria pena? Talvez apenas me olhasse com pesar. Todas as pessoas para quem já apareci fizeram isso. Nem uma palavra. Nem um comentário. Nem mesmo um suspiro. Mas seus olhares diziam tudo. “Coitada! Isso não é viver! Está apenas vendo a vida passar…”.

— Ei! Você ainda pode me ouvir? — Ela perguntou, abanando a mão em frente ao meu rosto. Saí do transe, mas não tive coragem para mentir.
— Sinto muito… O que disse?
— Por que está vestida assim? — Oh não! Não outra vez! Olhei para minhas próprias roupas, confirmando o que já suspeitava: mudei outra vez. Agora já não mais parecia com a princesa que planejei ser para que a pequena não se assustasse tanto. Eu me parecia mais com uma dama dos anos 40.

Eu detestava isso. Detestava não ter controle sobre mim mesma. Mas era tão inevitável… Quando percebia, era tarde demais. Eu já havia mudado, minha antiga aparência tinha mudado tão rápido quanto o tempo ao meu redor. Rápido demais para os outros, devagar demais para mim.

— Porque não tenho controle sobre mim. — Respondi, sem rodeios. Não adiantaria de nada tentar amenizar a situação.
— Como assim?
— Posso aparentar ser jovem, mas já vivi mais do que você poderia acreditar. Quase tão antiga quanto o Tempo, é o que dizem de mim. Depois de tanto tempo, desaprendi a controlar como sou. São lembranças demais, épocas demais para que eu possa me apegar a uma só…

E veja só! Lá está ele! O olhar de pena da qual lhe falei há pouco. Permanecemos um pouco em silêncio. Quis quebrá-lo, mas não tinha coragem. Quem diria, pela primeira vez eu não me sentia envergonhada por revelar quem realmente sou! Na verdade, era um silêncio bom. Quase sereno.

— E como você é? Como você é de verdade?

A pergunta me pegou de surpresa. Acho que nem mesmo parei para pensar sobre isso algum dia.

— Eu não sei. — Respondi com sinceridade.
— Como não?
— Vai ver as pessoas nunca estão satisfeitas com o que estão passando. Vai ver elas sempre querem algo diferente, ao ponto de sonharem com isso. Algumas pensam tanto em uma história melhor que acreditam que a tendência é piorar. Sempre foi assim. Elas sempre acham que o passado é melhor do que o que estão vivendo. Eu sempre existi, mas nunca com uma forma concreta.
— É confuso… — Ri suavemente. Ela nem precisava dizer. As crianças têm os olhos mais expressivos, isso eu sempre soube, e era claro que ela não havia entendido tudo o que eu disse. Ia explicar melhor, quando ela voltou a falar.
— O que está acontecendo?! — O alarme em sua voz me assustou. Olhei para baixo, apenas para perceber que estava sumindo, literalmente. Meu corpo agora estava translúcido o suficiente para que eu conseguisse enxergar o lençol de borboletas da cama.
— Ah, minha querida, eu preciso ir… — Disse, com pesar. Ela pareceu triste por um momento, mas a esperança falou mais alto quando me questionou.
— Você vai voltar? Por favor, volte! Gostei de conversar com você!

O que quer que ela tenha dito depois disso, eu não ouvi. Sua voz se distanciou, e tudo se dissolveu ao meu redor. Por que era sempre assim? Estava tão perto de fazê-la entender porque eu a visitei… Não queria lhe explicar porquê eu existo, só queria que ela soubesse como viver para que nunca mais me sentisse próxima!

De qualquer forma, jamais entenderei as razões do Tempo. Ele mandou-me para longe, e longe ficarei. Não sei quanto tempo mais se passará antes que minha forma mude mais uma vez, ou quem eu visitarei na calada da noite, quando essa pessoa precisar de ajuda. Só espero que essa pessoa entenda; eu não tenho poder sobre o Tempo, e nem ele tem poder sobre você. Não me culpe por um passado bom que teve fim, só viva para que eu nunca precise lhe visitar. Espero que a criança cujo nome não cheguei a descobrir tenha entendido isso, e espero que você entenda também.

Eu sou a Nostalgia, e te juro: não sei quem sou. Nem porque sou. A única coisa que sei é que não sou feita de futuro. Pertenço ao passado, e só. Talvez, se eu me esforçar, não me confundirão com a Saudade, e nem me acharão ruim. Só talvez. Enquanto isso, levarei lembranças boas a quem precisar delas.

domingo, 2 de março de 2014

Das águas que te levaram

Da guerra que agora afrontava meu próprio país, eu não me fazia presente. Guerras jamais me importaram, e como eu poderia me importar com tantas mortes de inocentes, se eu mesma não me encontrava mais viva?

Sei que soa egoísta, e sei que soa exagerado. Mas o quão egoísta não é a ideia de milhares de pessoas arriscarem suas vidas para defender as de outras? Eu não vejo como heroísmo. Suicídio, talvez. Ninguém nunca reparou nisso. Ninguém pensaria nisso quando sua própria vida está correndo perigo.

A maioria não pensa nisso por estar muito ocupada imersa em seu próprio desespero. Mas não eu. Há muito já passei dessa fase. Não me preocupo mais com minha própria vida, mas considero se sou digna de tê-la.

Algumas semanas já haviam se passado desde que novos homens foram convocados para a guerra. Ele inclusive. Algumas semanas haviam se passado, e eu ainda não vira o regresso do navio que nos havia separado. Parte de mim acreditava que eu mesma estava enlouquecendo. A outra parte se mantinha plenamente consciente, de tudo que acontecia a minha volta, das notícias da guerra que parecia não ter fim, e de tudo que falavam de mim.

A essa altura, já me chamavam de louca. Eu passava mais tempo no porto do que em minha própria casa. Não possuía mais lágrimas para chorar, ou notícias que me dessem esperança de que ele estava vivo. Em minha mente, não conseguia mais formular frases coesas para uma oração que fosse. Só um pensamento jamais me abandonava: Por que ele, e não eu? Por que ele foi levado para longe, e não eu?

A saudade era parte de mim, bem como meus olhos ou meu coração. Bem como ele. Mas se ele não estava mais comigo, por que deveria eu conviver com a saudade? O cheiro de água salgada confundia meus pensamentos, e eu não sabia mais qual parte de mim era lúcida e qual tentava me iludir. Eu poderia tentar ir atrás dele. Não poderia? Seria mais fácil decidir se eu soubesse qual parte de mim sugeriu um plano tão louco e tão tentador…

Era aquele o mesmo navio que o havia levado de mim, surgindo outra vez no horizonte? Não… Como poderia, se quando pisquei e abri novamente os olhos, ele havia desaparecido? O desespero voltava a tomar conta de mim, aos poucos e acompanhado da frustração. Minha parte lúcida gritava que meus sentidos estavam se perdendo, mas uma parte maior controlava meus passos.

Primeiro uma caminhada, depois uma corrida. Primeiro o piso de madeira do porto, depois a queda. Primeiro o ar, depois a água. Primeiro a solidão, e depois, mais nada. A guerra o tirou de mim, e eu sabia que ele jamais voltaria. Mas estava tudo bem, agora. Eu jamais voltaria, também.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

as cinzas



Sentado no chão sujo da rua em que um dia existiu luz, fumava o último cigarro que seus pulmões suportavam. Eram tantos por dia que quase via seu corpo se esfumaçando e indo embora com o vento. Mas não queria ir embora com o vento, tinha de ficar. Mesmo que seus piores demônios o fossem buscar, não se permitia sair daquele lugar que tanto significava para esse alguém já sujo e de humor mordaz. A vida o fizera assim, afinal. Ou melhor, a morte, a morte dela o fizera assim. Ela quando decidira partir de seus braços para viver em algum inferno que não a própria existência. E por mais que uma vez tenham conversado sobre isso, e concordado que não haveria em algum outro lugar sofrimento maior do que na própria vida, ela duvidava. Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista.
                Ele pedia em silêncio aos deuses da carnificina que o olhavam de algum lugar lá entre as nuvens cinzentas, mas os hipócritas filhos-da-puta fechavam os ouvidos, e a única resposta que podia escutar era a risada estrondosa que ecoava no céu. E eles riam tanto do seu sofrimento que caíam, rolavam e choravam. Foi assim que começou a chover na rua onde um dia o sol brilhou. Seu cigarro apagou-se com os pingos d’água que caíam como bombas no chão e praguejou em alto e bom som, mas o barulho dos trovões risonhos abafou a sua voz. Largou o corpo de lado e aproximou-se mais ainda da lata de lixo, tentando se proteger com uma tampa metálica que havia no chão.
                Protegido, voltou a pensar naquilo que o fizera clamar por ajuda divina, e uma torrente de lágrimas ácidas começaram a rolar pela extensão do seu rosto, deixando uma marca brilhosa por onde passava.
                Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista. Mas ela era assim, mesmo, não? Tatuagens sem anestesia, piercings sem curativos, amor sem cuidado, filme sem cor, macarrão sem molho. Ele não entendia nenhuma de suas ideologias dolorosas, mas sabia que a ele não fazia bem algum. Quando compartilhavam a seringa suja e a via rasgar a pele com a ponta metálica, ou quando ela o pedia que ele lhe puxasse o cabelo com força e não parar nem que chorasse. Para de ser assim, Letícia, para de nos suicidar e nos afogar e me sangrar, chorar, morrer... Mas o que acontecia é que ela sempre o domava, sempre o agarrava pelo pescoço para se entorpecerem das formas mais sádicas possíveis. Não, Letícia, não, não posso, isso ‘tá me matando. Não é por que você morreu que eu tenho de fazer o mesmo. Não, não é pra você chorar, não é...
                Mas quem chorava de verdade era ele. Letícia não sabia chorar, só enfeitar o rosto com diamante líquido. As coisas nela não aconteciam como com as outras pessoas: tudo era pouco demais, tudo era rápido demais, tudo era opaco demais. Sangue a fazia bem, gritos a fazia bem, velórios a excitavam e morte poderia ser muito bem servida com molho madeira. Ele não aguentava isso, não conseguia. No começo ela era tão perfeita em sua imoralidade que aquele mundo fantástico chegava a brilhar, mas com o tempo as coisas ficaram tão monocromáticas que teve medo do escuro. E para se livrar da penumbra que começava a se aproximar sorrateira, decidiu falar de sentimentos, e de dores e de perdas.
                Eu não entendo por que diz isso agora. Enjoou de mim, Lucas, enjoou daquele fruto que você se lambuzava tanto? Vai então, some daqui e parte para um mundo perfeito, seu imundo! Vai com eles vai, com esse imbecis cegos e ignorantes! Talvez eu tenha me enganado...
                Você está entendo errado, Letícia. Eu só quero te ajudar, você precisa de ajuda! Deixa de ser orgulhosa e olha para mim! Eu não quero te perder, eu não quero te perder para você mesma. Por favor, por favor...
                Me passa o cigarro...
                Ele agarrou o braço dela.
                Me escuta!
                Me solta! Seu nojento, hipócrita!
                Ela desvencilhou-se dos braços deles, braços já cansados de suportar, e dedos que não eram fortes o suficiente para prender tamanha grandeza. Aquele relacionamento machucava tanto que tinha anestesiado. Agora entrava num estado de letargia que o suspendia, estado que durava enquanto os cachos negros de pontas avermelhadas sumiam pela rua, davam um adeus incerto, sem saber se iam voltar. Só sentiu o estômago inchar-se e retrair-se, o mundo virar de cabeça para baixo e alma mofada abrindo-lhe caminho pela boca. Era vômito, mas serviu de travesseiro para seus temores quando desmaiou.
                Lucas acordou sem sinal de vida, embora em seu pesadelo mais recôndito estava tão vivo quanto qualquer outra pessoa. Letícia não estava ali, e isso descartava a teoria confortante de que tudo aquilo não passava de uma ilusão do crack. Na verdade não se lembrava muita coisa do que acontecera antes de ter desabado sobre si mesmo na calçada. O cheiro pútrido de vômito seco era a única coisa que o trazia de volta à sensação de êxtase ao ver seu demônio amado partir, e de certa forma se sentiu agradecido por isso. Sentou-se com dificuldade e parou para pensar no que fazer a seguir, mas tomou uma decisão sábia e simples: esperar. Se bem conhecia aquela fada de unhas afiadas, ela voltaria. Só estava mordida com as palavras dentuças por ele ditas, e estaria de volta na manhã seguinte, no máximo, pedindo um pouco de heroína. Ela voltaria.
                Mas não voltou. E não voltou nunca mais. O corpo foi encontrado algumas quadras de distância, num terreno isolado de tudo. Haviam marcas profundas na pele, que de princípio julgaram terem sido provocadas por alguma gangue dos arredores – ele sabia que havia sido ela em sua loucura sangrenta, porém –, embora estranhassem o fato de que um estrupo não tivesse acontecido ali. A morte tinha sido provocada não pelos ferimentos, embora eles próprios fossem graves o suficiente para ocasionar uma hemorragia séria. Tinha sido overdose. Era uma palavra tão doente que se encontrava em estado terminal. Letícia não gostava dela. Achava ser uma criação estúpida de uma sociedade estúpida. É que sabe, Lucas, overdose é feio. É a morte mais digna de pena que existe. Quero sim, morrer drogada, mas não de droga, entende? Quero que olhem para o meu corpo pálido e frio e digam: caralho, essa vadia morreu feliz. Eu acho que quero morrer transando. Sim, isso. Transando. Pode ser com você. Nós dois morremos juntos, transando...
                Não, Letícia, nós morremos, mas não transando. Você que nos matou, atirou uma vez e assassinou dois coelhos. Bang! Bang! Era isso que passava por sua cabeça quando tudo acabou. Quando Letícia se consumiu.
                No fim das contas descobriram que ela tinha mesmo se matado e nem deram muito enfoque ao caso. Ninguém se preocupava com uma drogada estúpida, afinal. Era mais uma ratazana de bueiro, nada demais.
                Lucas nunca mais foi o mesmo. Sentia que tinha perdido algo de si, um complemento que nunca esteve ali de fato, mas parecia estar. Letícia nunca tinha sido dele. Ela era dos prazeres, das drogas, das dores e das emoções. Ele era o errado de tudo isso, no fim. Ele quem tinha errado em superestimar uma relação tão frágil. E consumiu daquilo em demasia, apoderou-se de algo que era demais para ele e explodiu. Explodiu e morreu. Seu corpo se mexia naquela rua onde aconteceu a supernova. Na calçada em que dividiam o medo e a angústia de todo dia sagrado.
                Como tinha sido burro, como tinha. Tinha caído numa armadilha por ele mesmo projetada. Volta, Letícia, volta e me faz triste mais uma vez. Vem me mutilar com seus suspiros e me comer com sua língua áspera. Volta...

                E os dias passavam lentos, queimavam devagar. E demorou a perceber tudo, mas percebeu: tinha morrido de overdose. Overdose de Letícia.

domingo, 1 de setembro de 2013

Tag: 10 books

Tag: Book 10
             Hoje pretendia postar um conto, infelizmente não foi possível termina-lo. Sendo assim, decidi postar a resposta de uma tag que eu devia faz tempo, e o comecinho do conto, para dar um gostinho.

         Fomos indicados para responder a tag pelo blog Bulhufas da Nath.

          As regras da tag são: 

          - Falar o blog que lhe escolheu.

          - Citar 10 livros que mais gostou

          - Escolher 10 blogs para responder o selo.

          - Avisar os blogs escolhidos.

          Acabei de terminar "50 anos a mil", biografia do "Lobão". To com preguiça de recuperar minha senha do Skoob, então vou digitar aqui mesmo. Gostei bastante do livro, é bem escrito, em nenhum momento a narrativa se torna pesada e você consegue entender perfeitamente como ele lidou com cada situação que passou ao longo dos seus cinquenta anos.
         Muito interessantes os registros de imprensa colocados ao longo do livro também, imediatamente após a passagem, para evitar perder o momento. O livro contagia, te faz sentir uma criança e te faz 
querer passar por boa parte daquilo. Fora isso, senti falta de mais entrevistas no final do livro.
Não paguei pelo livro, mas não me arrependeria se tivesse pago.

        Terminei de ler "13 porquês" e não vou falar sobre pois pretendo fazer uma resenha de verdade. Aproveitei o dia para abandonar Drácula de vez. E estou quase fazendo o mesmo com A sociedade do anel, pela segunda vez. Ok, Câmara secreta, você é a próxima da lista.

        Acabei a câmara secreta. Muito bom, não sei como vivi tanto tempo sem ler. Só senti falta de falas pros pais da Hermione.

        Acabei de ler Macacos me mordam! - A pedido da minha mãe, que queria saber se é bom - e gostei. Não acho que alguém aqui vá ler, por ser infantil - E portanto devemos engolir coisas como macacos entrando inteiros dentro de uma onça, a onça confundindo o sol como uma brasa - mas ele é muito bom e eu realmente recomendo.
        Para quem sempre ta tentando inserir os mais jovens na leitura, é ótimo. Algumas fabulas são contadas de forma a parecerem capítulos da mesma história, e até mesmo o prefacio é apaixonante.
        Apesar de ser infantil, conta com 47 paginas e bastante texto, me lembrando "As histórias da tia Anastácia", tendo inclusive "O macaco e a viola" como história em comum, mas a do segundo é melhor.

        Hoje, terminei "A bussola de ouro", vulgo bussola dourada e, o que posso dizer? Maravilhoso! Sério, não se se é o efeito pós Tolkien, mas achei o livro extremamente leve, e com uma excelente história. Deixa eu falar, sabe aquela hora que você pega o livro, vai lendo e se imaginando dentro da história, os cenários e tudo? Eu não faço isso. Por isso não me decepciono tanto com cenários, atores de adaptações, simplesmente não espero. Agora, com a bussola foi diferente. Eu realmente me senti lá, vi tudo, e ja me encontro decepcionado com o filme por saber que não chegara aos pés do que eu imaginei. E tudo isso sem ser um pé no saco descritivo, #CHUPATOLKIEN!
        Em resumo é isso. Vale citar que eu ainda não terminei SDA, por pura vagabundice, já que faltam apenas 8 páginas. Verei se pego amanhã. Estou com a lista de prévest embaixo do braço, mas não sei se aguentarei não ler a faca sutil em breve... veremos.Adorei em especial como acaba a história, mas não o final. As ultimas linhas me lembram o final dos episódios de pokemon, embora o final seja foda...Além disso, minha experiencia lendo, em particular, foi melhor, pois a cada vez que eu lia o nome da protagonista (Que eu adorei, ao contrario de Harry Potter, ou Seiya, de coisas que eu amo, mas protagonistas que detesto) eu lembrava da Linda da Lívia Garcia
        Sobre ser melhor que HP, prefiro ler tudo antes de opinar, mas por enquanto parece, mas também prefiro Jogos Vorazes, então não se guie pela minha opinião

       Hoje, acordei e olhei para o suporte da televisão, e adivinhem quem retribuiu meu olhar? O maldito exemplar de Sociedade do anel que eu revirei a casa procurando. Levei pro curso, terminei de ler 
no ônibus e, bom... Adorei as ultimas oito páginas, todo o panorama da terra média que ele da , assim como adorei o livro, o mapa e os personagens e pretendo reler o livro o quanto antes, sem as 
enormes pausas. Depois de lamber as bolas do autor, me sinto na necessidade de dizer que o grande defeito dele é levar 400 páginas para narrar algo que poderia ser narrado em 200 ou ainda menos.
       PS: Não pretendo ler As duas torres tão cedo, tem no minimo 10 livros na frente deste. Ah, não sei se é só meu exemplar, mas achei a sinopse que vem atrás do livro fraquíssima.

      Depois de longo e tenebroso inverno, acabei de ler o "Til" e confesso que nunca odiei tanto um livro na vida. Calma, vamos por partes. Primeiro, se esse livro não estivesse na lista do vestibular,
 certamente seria abandonado, como Crepúsculo e cinquenta tons de cinza, mas também como Drácula e Sociedade do anel. Disse minha professora de literatura que o livro era chato, mas que engrenava 
no meio. Verdade, altos baphos, mas ainda assim é de difícil leitura, e cria raiva, por causa da linguagem arcaica. Culpa do livro, do autor? Claro que não, mas incomoda.
      Como dito, o livro demora muito para engrenar, enche o saco - mas ao contrario e uns e outros cofcofSDAcofcof, engrena - mas, quando engrena, revela uma excelente trama, muito interessante. Acho 
que se eu tivesse lido na época, eu teria gostado bem mais do que eu gostei. Quero ressaltar, principalmente, o titulo, que só pode ser completamente entendido após a ultima página, em sua 
plenitude e perfeição.
     Confesso que, outra coisa que me irritou foi a falta de cronologia, sabe, não é nada legal ficar voltando no tempo durante o livro sem fazer a menor questão de avisar o leitor e acho que o final 
poderia ter sido melhor, um pouco menos corrido, mas até que para um livro deste período, me surpreendeu.
     Apesar de todo o ódio, certamente voltarei a ler, quando tiver um tempo. Espero que a Cris esteja certa e este seja o mais difícil da lista, ainda ta cedo para entrar em parafuso.
     Abraços.

      Faz dois dias que terminei "Memórias de um sargento de milicias" e é impressionante como não encontrei quase nenhum dos problemas que apontei no "Til". A estória corre super tranquilamente, 
deliciosamente, orgasmaticamente a ponto de eu não me questionar momento nenhum sobre a ausência - ou será que não o fiz por mera desatenção? Prefiro a primeira tese - do tal sargento.
      Independente do final, que é bem corrido e mais parece que o livro já acabou e são apenas informações extras, shiparei Leonardo e Vidinha eternamente.
      Aproveitei estes dois dias para dar uma pausa na lista do vestibular - embora eu já tenha começado viagens da minha terra - e hoje li o auto da barca do inferno, que adorei. A linguagem é um 
tantinho complicada - também, pudera, né - mas é apaixonante, nada que um vocabulário não resolva. Anseio por vê-la encenada.

       E ontem, bom... Ontem tinha um maluco rindo de forma pouco controlada e com lágrimas escorrendo dos olhos, no metro, com um livro laranja na mão. Não deve ser segredo para ninguém que o maluco 
era eu, mas o livro em questão era o "Cala a boca, Galvão" e, ainda que eu conhecesse o trabalho do Galvão, do Pablo Peixoto e do Ricardo Gimenes, não esperava algo tão genial. É para chorar de 
rir, seja o livro uma homenagem disfarçada de sátira ou uma sátira disfarçada de homenagem. Apesar de curto - da para ler em umas duas cagadas - o acabamento é impecável, com direito a capa dura, 
e se encontra espalhado por são paulo por "dois reais", muito bom.

      Só isso, flws

     Não vou indicar nenhum blog a responder, mas se você quiser responder a tag finge que eu te indiquei.

~Titulo fixo provisoriamente~

Era um lugar muito belo, principalmente se você gosta do aroma de sangue fresco misturado ao das, pra lá de clichês, rosas reais. O lugar, cenário de sete mortes, continuava sendo romântico, numa das menores dicotomias dessas história.
Para cada garota um canteiro de rosas, menos para o mais recente corpo, mesmo que esse merecesse dois. Preciso ir com calma, afinal, o fim é a morte, e ela já chegou. Não precisamos ter pressa. Uso o plural pois falo de mim, narrador e jardineiro e de Willian, personagem e assassino. Eu só planto as rosas, que devem aparecer apenas no fim e, portanto, deixarei que o assassino inicie a história e seu monologo.
- O portão da escola. Foi lá que eu vi você pela primeira vez. Na época nem sabia que eram vocês. Para mim era apenas a doce Jéssica Firenze. Você era branca, quase no tom que eu gosto, mesmo ainda estando viva. O uniforme bem alinhado e, apesar de em meio a uma roda de amigas, sua timidez era visível. Seus traços tão delicados, contrastavam profundamente com seus olhos negros. Não eram seus olhos, não é? Era Jéssica Cerqueira, escondida. Se o mundo é dividido entre lobos e cordeiros, você também era. E eu sei que esse assunto é maçante para você, Jéss, e só ficará pior, mas a Firenze tem o direito de saber o quantos nos divertimos com o corpinho dela, quando eu ainda achava que você era ela.
- Você saiu da escola e foi para casa, como a Jéss me contou. Você queria dormir, imagino, mas o lobo precisava saber quem eu era e assumiu o controle. Você é agnóstica, não? No seu caso uma palavra mais amena para ateia. Já a outra sempre se assumiu ateia. Meu ponto? Apesar dos diferentes termos, uma coisa tinham em comum: encaravam a vida como uma viagem rumo ao esquecimento. Você com uma visão mais niilista, afinal de que vale lutar por algo se o fim é a morte. Mesmo que estivesse caindo de amores, nada faria. Já a Cerqueira achava que devia correr com o máximo de estilo possível e, se no final do dia não tinha minha ficha, sabia exatamente onde eu estaria no começo da noite,e tinha uma boa ideia de onde eu estaria no fim.
Sim, eu e você sabemos que elas estão mortas, mas para ele não faz muita diferença. É comum encontra-lo no jardim, perdido em suas palavras e supostamente conversando com as flores. Na verdade ele dialoga com as meninas sepultadas por debaixo delas, e por isso, se na minha fala alterno entre singular e plural, na dele se soma a alternância entre pretérito e presente.

Na minha próxima aparição trarei o resto do conto. Palavra de honra ou que eu vire um saco de batatas.