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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Escuro como o breu dos teus olhos.


Abriu os olhos. Escuridão. Foi tudo o que conseguia enxergar. 

Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Mesmo que tivesse apagado as luzes, – algo que jamais faria – as faixas fosforescentes próximas ao rodapé lhe indicariam o caminho. Estranho, nada se destacava em meio à escuridão, exceto o próprio breu. 

É uma sensação horrível reviver seus próprios pesadelos. Uma sensação terrível se apodera do seu corpo. Era assim que se sentia. Sentia como se estivesse despencando. Infinitamente. Em direção a um abismo. 

Engraçado, sentia a escuridão absorver seu corpo. Sentia seus pulmões expandindo-se aos poucos. Sentia a escuridão escorrer-lhe pelos dedos. 

Tempo, espaço, tempo. Todos fluíam distorcidamente. Era tão cômico uma mestra em física se sentir assim. Mas o gatilho psíquico disparado em sua mente a obrigava a mudar sua visão perante sua fobia. Nictofobia: O medo daquilo que não se pode ver no escuro. 

 – Ninguém possui medo do escuro, tem medo de estar nele. – repetia o pequeno mantra, algo que não ajudava muito, enquanto tateava o quarto em busca da saída. Em busca da luz. 

Com muito esforço, conseguiu chegar a porta. Tocou a maçaneta e assim que a girou, apertou os olhos esperando a luz que viria. Em vão. Mais escuridão, foi o que encontrou. Estranho. 

Àquela altura, o ar tão vital lhe faltava aos pulmões. Pânico era tudo que sentia. Um breu, tão escuro quanto os teus olhos...

E nele navegou, remou no tempo-espaço. Destruiu todos os dogmas que tinha do mundo. Viveu em meio à sua própria morte. Sorriu, em meio ao medo, em meio à dor. Chorou. Mas as lágrimas que banhavam-lhe o rosto, fizeram um sorriso brotar. Em meio à morte, estava feliz. Em meio ao breu dos teus olhos. 

 Morrer. Seria assim afinal? Uma distorção dos sentidos, da consciência e da percepção humana? Ou seria simplesmente a forma mais bela de todas: um sono do qual jamais acordaria? Se a morte for tão bela quanto os teus olhos, eis que meu corpo jazerá morto então. 

O que haveria de ser a Morte comparada a eternidade ao seu lado? Por mais sofrido que fosse, valeria a pena. Então libertou-se de tudo que possuía como verdade. Criou o caos e a ordem dentro de si própria. Simplesmente amou a vida que lhe fora concebida em tão poucos e raros segundos. Segundos estes que não lhe fariam a menor diferença nos seus dias. Porém, aquele não era um dia comum.

Em meio àquela escuridão um rosto destacava. Não era sólido ou líquido, tampouco gasoso. Era impalpável. Um sonho, em meio a um pesadelo. 

E seguiu-o. Desapareceu em meio às névoas que se formavam na escuridão. Não sentia mais medo, pois ao seu lado estava. Aquilo era tudo o que mais queria, o que mais almejava. Amava-o de todas as formas possíveis. Do alfa ao ômega. Era só um verbo. E o verbo era amar. 

E ela o amou. Beijou-o e perdeu-se. Delirou, flutuou. Por um curtíssimo espaço de tempo, literalmente voou. E só então percebeu que a vida era vazia. Triste demais se não fosse ao lado dele. Um profundo abismo contra o qual lutava todos os dias. Era como um livro, cujas páginas nada houvesse. 

Porém era tarde demais. Por mais que tentasse detê-lo ali, ele escapava-lhe aos dedos. Como uma criança desesperada tentando agarrar fumaça, fechou a mão em torno das suas vestes. Sem êxito. Escapuliu feito um gás, que lutando pela sua liberdade, escapa das redomas de vidro que lhe contém. Havia tido a vida que sempre desejara e agora a perdera novamente. Enquanto ele se afastava com um sorriso enigmático no rosto, um sopro tímido, porém repleto de ternura, chegou-lhe aos ouvidos: “Eu nunca te deixarei só”. 

Seus olhos brilharam clamando por ele, porém ele foi indiferente, àquele mundo não pertencia. E tudo tornou a ficar escuro. Era como se lhe tivessem dado uma vela acesa por alguns instantes e logo em seguida, decidissem apagar-lhe a chama. Estava ali, novamente, no meio da sala. Cercada pela escuridão que tanto temia. A escuridão tão semelhante ao breu dos teus olhos. Dois túneis sem fim. 

E agora chorava as lágrimas tão quentes quanto à chama que arde pela primeira vez, banharam-lhe o rosto. Enquanto chorava, seu despertador tocou. 

O visor indicava às sete horas da manhã. Voltaria a vida que escolhera. Uma vida sem graça, monótona. Uma vida que era nada mais nada menos que o produto de todas as suas escolhas. Uma vida sem volta, porém repleta de arrependimentos.

Sobre o Autor:
Gilson Santiago Gilson tem 15 anos, ama escrever prosa e narrativas. Tem um gosto por ser clichê e ser irônico boa parte do tempo. Escreve por um mundo melhor, ao menos, em sua mente.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Érica Prado disse...

Aaaaaaaaaaaaaamo esse texto *-*