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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobre o que não somos

Com certa frequencia me ocorre perceber certa estranheza nas pessoas. Não é simples diferença ou peculiaridade, é algo a mais, mais profundo. Anormalidade talvez seja o termo correto. É como se houvesse algo em cada uma delas que não deveria estar ali. Em cada um isso se manifesta de forma distinta. Às vezes fica visível no olhar, outras no modo como sorri ou simplesmente em traços e pequenas ações. São particularidades que me causam desconforto, sinto que ali falta a própria essência humana. É isso que sinto, como se as pessoas fossem menos humanas.

São momentos em que ficam visíveis as superficialidades que escondem o verdadeiro eu de cada um. Acredito que seja essa a questão:  nas relações sociais, por mais próximos que sejam os sujeitos que interagem (familiares ou grandes amigos), existe sempre a tentativa ininterrupta de esconder algo. A anormalidade não é, nesse caso, ser diferente do normal. Pelo contrário, essa superficialidade que fica visível às vezes é exatamente a tentativa de ser normal, no pior sentido da palavra. É o reflexo da constante luta interna por se adaptar ao mundo, por abdicar do que somos para conseguirmos ser aceitos.

A impressão, nessas ocasiões, é de sorrisos contidos, palavras calculadas, simples ações que são pensadas antes de praticadas, e essa retenção, essa tentativa de mecanização,  nos transmite enorme distanciamento da verdadeira identidade da pessoa. Me pego também, é claro, regulando sentimentos, escondendo angústias, programando cada ato, como se ser humano fosse uma fraqueza, quase inaceitável.

Talvez seja por isso que as relações sejam tão inconstantes. Daí, quem sabe, vem essa dificuldade do mundo moderno em estabelecermos ligações concretas e duradouras com outros. Nos preocupamos tanto com o modo como vamos agir que esquecemos de demonstrar quem somos. Falta esse toque de humanidade nas relações.

As artes que valem realmente a pena, como algumas pinturas e músicas, são aquelas que nos transmitem os mais humanos dos sentimentos. São as que desmascaram todo o melindre social, ultrapassam as barreiras que erguemos sobre nossas personalidades verdadeiras e nos tocam no âmago, aquecem o coração.

Já disse uma vez que o homem é um eterno poderia ter sido. E acho que isso se deve ao medo de nos conhecermos a fundo, de olhar no espelho da alma e fazer dela nossa face externa. Transformamos nossos corpos em nossas prisões, e aí há pouca esperança de abraços sinceros, conversas francas e amores verdadeiros. Nos tornamos de plástico, e plástico derrete se queimar demais.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Além de mim, tu.



Eu costumava ter um motivo para sorrir, embora procurasse alegria em outros sóis. A essência da felicidade esteve em minhas mãos, fiz com que fugisse, correndo do que havia me tornado. 

Um dia acordei e ouvi um passarinho cantando ao longe, voando tristemente para o horizonte distante da saudade. Meu sorriso se apagou aos poucos. Procurei em estrelas e em garrafas, mas o havia perdido. 

Não há sonho mais cruel do que aquele que realmente existiu, mas não existe mais. São cinzas que queimam em cada instante de descuido, nos lembrando de que já arderam tão intensamente como os fogos de fim de ano.
Nossos erros não são uma tragédia. A verdadeira tragédia é desejar ter a chance de errar novamente, mas, dessa vez, acertar.

Passei dias esperando que certas lacunas se fechassem, porém não há meios para esquecer o que faz parte do que somos. Acabamos sempre por esbarrar em nós mesmos, e lá vão estar os fantasmas que nunca serão exorcizados, por sua lembrança se conservar sempre doce e límpida como uma manhã de primavera.

É na dor que percebemos o que realmente importa. E é o que importa que nos faz ser o que somos.
Um dia, talvez, em qualquer esquina escura, num dia sem esperança, a vida me seja devolvida com uma lufada do ar de seu perfume. Então as memórias que se fizeram chagas hão de clarear, mostrando-nos que o amor está acima dos erros dos homens. Só o amor é eterno, todo resto passa, efemeridades do viver que são inevitáveis na imperfeição humana.


Elevar-me-ei ao paraíso dos seus olhos chorosos, guiando-me de volta a mim mesmo, iluminando novamente meu rosto num sorriso tímido de reconciliação.

São círculos que se fecham em momentos únicos, fazendo de alguns instantes o infinito da felicidade. Encontrei meu infinito em ti, e mesmo que ele esteja perdido em qualquer recanto nebuloso do universo, a simples lembrança de que existes é o suficiente para despertar em mim a esperança de sorrir novamente. Você e eu escreveremos páginas eternas no livro dos que se amam, dos que de amor sofreram, de amor morreram e pelo amor viveram.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O Mito da Caverna High Tech


Aos telespectadores de Boston (com atraso),

Era uma vez uma terra onde todos viviam felizes. Mas não simplesmente eram felizes. Havia um espelho gigante, no centro da cidade, e dele irradiava a felicidade. As pessoas contemplavam as imagens do espelho e elas eram instantaneamente reproduzidas e glorificadas por todos, em toda parte. Só o que vinha do espelho era real.
Se você pudesse ver os olhos daquelas pessoas nas ruas, veriam que também eram espelhos. Pequenos refletores febris, brilhando não com a própria vida, mas com vidas alheias, felicidades alheias, sonhos alheios.
“Alheios”. Como podem ser de outros se todos são espelhos? Refletem a quem? A si mesmos, pensavam. Uma grande massa uniforme, formando imagens repetidas por toda parte. A terra dos Narcisos.
Impressionavam pela falta de significado nas ações, a vagueza dos gestos, pela indiferença nos tons de vozes. Já repararam como os espelhos são ótimos em lidar com os sentimentos? As imagens são os companheiros perfeitos, correspondem a absolutamente todas as suas expectativas.
Nem sempre as imagens do Grande Espelho eram necessariamente felizes. Haviam cenas horríveis, na verdade. Mas só às vezes, só quando necessário. E as pessoas se desesperavam ao ver tais momentos, tomando pra si toda a dor mostrada naquelas claras imagens. Estranhamente (ou não), até mesmo a dor produzia felicidade. A felicidade do consolo, da comiseração, de uma solidariedade à dor alheia que misteriosamente surgia de repente, mas apenas quando o espelho queria. Além disso, as tragédias costumam despertar um lado humano desprezível, aquele que sorri, em seu íntimo, pela desgraça ser do vizinho. O egoísmo aparentemente era característica do Espelho (ou do homem?).
As imagens eram sempre nítidas, coloridas, vivas. Mortes e sorrisos eram igualmente transmitidos. Aliás, tudo era sempre igual demais.
O espelho foi contemplado por tanto tempo que já não mais se sabia quem refletia quem. Seria ele o reflexo do mundo, ou o mundo o seu reflexo? Quem era a imagem de quem? No fim das contas, era irrelevante. O Deus-Espelho era piamente cultuado, pois nele encontravam a vida pronta.
Criavam um mundo colorido de pessoas incrivelmente translúcidas. É chegado o momento em que a indiferença apaga o homem.
As pessoas não tinham mais dúvidas, ninguém sofria a incerteza e o medo do talvez. Apenas refletiam, sorrindo ou não, aquelas imagens frias.
A caverna do século XXI está em todas as casas, tem sofás e mesas de centro. A fogueira enganosa encontra-se em altares no centro dessas cavernas, transmitindo as sombras de uma vida que jamais viveremos. 


Nota: O conto acima ainda não está verdadeiramente acabado. 

Caros (dois) leitores que acompanham esta coluna, gostaria de lembrar que tenho o objetivo de despertar discussões e reflexões, então sintam-se a vontade para críticas e xingamentos, principalmente os mais raivosos. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ode aos miseráveis




Pólvora! O que segue não é um manifesto que iniciará e guiará esta coluna, o que segue é a pólvora

“Era noite. A lua coberta por escuras nuvens não iluminava aquelas vielas sujas do centro da cidade. Ali, na sarjeta do mundo, animais que outrora foram homens corriam, alucinados, banhados em sangue e cheirando a álcool. 
Longe das corujas vigilantes que atormentam a mente com seus pios acusadores, nos porões da sociedade, onde não penetrava a luz de nenhuma lei, nenhuma ordem, nenhuma cruz; onde o brilho nos olhos era o desejo animal de ser, apenas ser, por alguns instantes, o mais vil de todos os seres sobre a terra. 
A plenitude do Homem em sua falta completa de humanidade é o mais terrível espetáculo, é a beleza em sua forma divina. Com a alma em êxtase, o espírito se esvai por entre os sorrisos maldosos de quem nada mais teme. O uivo gutural das freiras que sentem a pureza de um prazer selvagem e nunca antes estiveram tão próximas de Deus. Era o mesmo grito preso nos pulmões de todos que viveram asfixiados pela fumaça de uma sociedade pútrida.
Nesse fechar de olhos da razão, quando o certo e o errado se fundem numa orgia de morais decaídas ao esgoto, pisadas sob o vômito de todos os padrões, regurgitados por sábios ébrios sem metafísica. Eis que surge o Homem, o Ser de fato é Humano pela primeira vez. Livre de tudo que não é ele, dos venenos sociais, das quinquilharias morais inúteis.
Só a decadência pode nos erguer."
-
Por que temer a natureza? Somos todos bichos e disso devemos nos orgulhar! Mandem ao lixo o bom senso, as burocracias do viver.
Somos tantas coisas que não sobra espaço para sermos nada, engolidos por essa eterna obrigação de ser alguém, esses rótulos vazios que não possuem qualquer significado. É preciso ser. Sem complementos. Façamos do “ser” verbo intransitivo.
Tornamos a vida um peso, nossa existência é nossa cruz, um fardo a se carregar. Morrem mártires aos milhões todos os dias.
Liberdade! Ser e viver. Eis nossa sina, a grande glória do Homem. Não desperdicemos a vida com a cautela, com o medo. Não sufoquemos nossa escura alma com máscaras coloridas. Sejamos, por mais horríveis que formos.
Há qualquer coisa de belo e terrível em nosso âmago. Mostre-se.
Nietzsche filosofou com o martelo. Também com o martelo devemos viver. Destruir para viver. Quebrar esse mundo decrépito, transformar em pó tudo aquilo que é sólido.
Seremos antropófagos de nós mesmos. Modernista nenhum ousou se comer. Cortaremos fora tudo que somos para simplesmente sermos. Conseguem entender? É simples, é elementar.
Perderemos nossas identidades, jamais poderão nos classificar novamente. Estaremos, enfim, livres das prisões rotulares.
Vamos, vamos! Queimem! Ponham abaixo os pilares da vida moderna. Para as latrinas com a sociedade, com a família, com os contratos sociais. Nada nos manterá no chão. Voaremos, livres. Sempre livres. Liberdade. Não temo repetições, quero que se impregnem dessa palavra, cheirem à Liberdade. Matraquearei essa ideia: liberdade, liberdade, liberdade!
Sem obrigações, sem direitos e sem deveres. A pátria dos vagabundos, dos bêbados e das putas. O paraíso.
Desordem e progresso. Não há progresso na ordem, não para o Homem.
Subverteremos os sentidos, a razão, o amor. Adeus aos dicionários, nada poderá ser definido.
Despertem das ilusões! Não sabem quem são. Parem de sonhar os sonhos dos outros.
Estão presos. Presos na própria cegueira. Saramago, o Profeta, nos avisou. Despertem!
Onde estaria agora, se pudesse?  O que faria agora, se pudesse? Quem seria?
Inventaram para vós mentiras. Ensinaram-lhe o que é preciso, o que é necessário. Disseram o certo e o errado. Mentiram. E ainda mentem.
 Não existem regras. Nada do que nos tornamos é o que realmente somos. Crescemos fantasiados, nunca permitiram que contemplássemos o espelho de nossa alma.
Questionem. Não aceitem morais que não ajudaram a erigir. Não se submetam a leis que por vocês não foram aprovadas. Não somos obrigados a nada. Nada!

Espero vocês no topo do mundo.


                                

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Literatura de massa ou sopa de letrinhas publicável?



“- Nossa, eu amo ler! Já li toda a coleção do Nicholas Sparks!
- Sério?! Mais o que você lê? 
- Ah, sabe, Crepúsculo e tal.
- Hm, rsrs, legal...”

Pergunto-me se Gutenberg (que Jeová o tenha), olhando para as publicações de hoje em dia, não se arrependeria amargamente de ter inventado a prensa tipográfica. Seria bom nunca ter coexistido com Cinquenta Tons de Cinza, bibliografia do Justin Bieber, os livros do Paulo Coelho, entre outros. 
Mas o alcance das grandes maravilhas da literatura também seria prejudicado, e não seria fácil sofrer com o jovem Werther ou viajar com Ulisses, então acho que ainda devemos muito ao alemão que inventou a roda dos livros. 


Livros se tornaram negócio, e a literatura foi dominada pelo interesse monetário. O resultado direto disso são enxurradas de livros clichês direcionados a determinado público-alvo, cujo conteúdo é cuidadosamente (e propositalmente) escrito para agradar o leitor. A ausência de um objetivo literário, poético, filosófico, ou o que seja dentro das obras de “literatura de massa” é preocupante pelo efeito que tem nos leitores. O que quero dizer é que muitos, principalmente os jovens, estão formando seus perfis literários embasados unicamente nesse tipo de “literatura”, e esse será, muito provavelmente, seu padrão de escrita, pensamento e, chegando mais longe, de vida. 


Esse é o problema, tomar como ponto de referência os escritos pobres e vazios que são, cada vez mais insistentemente, jogados no mercado, encabeçando as listas dos "Mais Vendidos" e se espalhando como praga. Ou seja, a tendência é piorar e cada vez mais a arte ser substituída pelo valor monetário. O mais preocupante não é a desvalorização da literatura pelos escritores, mas sim a falta de exigência dos leitores, que engolem qualquer sopa de letrinhas que seja fácil ou agradável de digerir. 


É evidente que existem outros fatores a serem considerados. Não podemos chamar ninguém de vazio ou de burro só porque lê Crepúsculo, mas o problema é quando o repertório de leitura é formado SÓ por isso. Além do que, ter essas leituras como passa tempo não é nenhum crime, embora o seu cérebro mereça coisa melhor. 
Não é a toa que Tolstoi e Flaubert foram eternizados pela história da literatura. Eles tinham algo a dizer e o disseram incrivelmente bem.


A diferença básica entre uma obra de peso e um livro comercial é o objetivo com que o autor o escreveu. Os livros de hoje em dia não dizem nada e os autores publicam pensando no dinheiro, e isso é tudo que precisamos saber sobre eles. 


Rick Riordan escreveu, só nos últimos anos (até onde sei), três sagas extremamente parecidas, cheias de clichês pré-adolescentes que fizeram a cabeça do mundo juvenil. São mais ou menos 12 livros em menos de 7 anos. Se isso não é aproveitar o sucesso e encher linguiça lançando o máximo de livros possíveis para ganhar dinheiro, não sei o que é. 
Para comparação, Proust escreveu os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” (clássico da literatura) em aproximadamente 13 anos, sem contar o tempo que o tema do livro já estava se desenvolvendo na sua cabeça. Não estou dizendo que o tempo gasto para escrever uma obra define sua qualidade, apenas explicito a sede de vender do tio Rick, publicando muitos livros (parecidos e clichês) em um curto espaço de tempo.

Termino dizendo que minha crítica não é somente para a obra escrita propriamente dita, mas também para as intenções dos autores e, principalmente, para os efeitos negativos que geram nos ditos leitores de tais obras. E olha que sonhar em achar um sadomasoquista maníaco para casar é um dos menores problemas.

ps: Todas as opiniões contidas nesse artigo são exclusivamente de seu escritor, sem nenhum vínculo com a postura do blog ou dos outros participantes. 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Asas de liberdade



Levantou-se do sofá. Na televisão, familiares choravam a morte de mais um João que ninguém realmente se importava. Olhou em volta, dominado subitamente pela náusea daquele ambiente tão familiar, tão enjoativo para todos seus sentidos. A sala lembrava-lhe preguiça, tinha gosto de cerveja quente e cheiro de suor frio.  

Da mesma forma encarou a própria vida, e a ânsia embrulhou seu estômago novamente. Nada distinguia sua sala de sua vida, ambas exalavam morte. Porém era essa a pior espécie de morte, pois não era o fim do corpo, mas sim do espírito, da mente, dos sonhos. Essa é a verdadeira morte, quando os sonhos são enterrados antes do corpo. 

Já o pânico o dominava ao se deparar com aquela suja realidade. Tinha nojo de si mesmo, do que tinha se tornado, ou melhor, do que não tinha sido. Aparentemente ele mais não era do que era. Vazio, de certa forma foi tudo que encontrou dentro de si, o obscuro vazio em que nada cresce, em que nada existe. 

Percebeu que em tudo estava preso. Passara anos construindo a própria cela, firmando as correntes de barbante que lhe impediam o movimento. 

De súbito, lembrou-se do sorriso de uma criança. Aquilo lhe trouxe de volta à vida. Era uma memória pura, livre. A criança parecia ser tanto, a vida era visível no brilho de seus olhos, na sonoridade gostosa de sua sincera gargalhada. 
O reflexo imediato foi o reacender da chama em seu peito, inflamando-se de vontade.

Sentiu-se como um pássaro, suas assas que por tanto tempo foram cortadas com golpes de comodismo, finalmente se libertaram e puderam, enfim, levá-lo . 

Estava livre, e só assim era pleno. Estava completo na solidão e sozinho na multidão. Nada importava, pois era livre. 

Ao contemplar do alto, viu que seu antigo estado não era exceção para o mundo, mas era a regra. Contemplou um mundo adormecido, contagiado por qualquer doença cujos sintomas eram dois terços de hipocrisia e o restante de conformismo barato, tudo cheirava a mofo. 

Gritou: era o arauto da vida. 

Sua voz foi ouvida como um sussurro, eco baixo vindo de uma realidade distante. Foi o despertar do mundo de Morfeu para que pudessem sonhar acordados e, por fim, viver em seus sonhos. 

Cenas do dia a dia se desfaziam, banais de mais para resistirem aos encantos do renascimento.  

Os que o viram passar com suas asas douradas o tomaram por Anjo. 

Era Prometeu trazendo o fogo. 

Pouco a pouco mais seres alados ascendiam aos céus, asas recém-descobertas batiam com estrondo no teto do universo. Naquele dia, ouviu-se o som da vida, do único modo que vale a pena viver: na mais completa e absoluta liberdade. 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Resenha: O Nome do Vento



Livro indispensável para os fãs de fantasia, O Nome do Vento agrega tudo que uma boa história fantástica pede: um jovem órfão extremamente inteligente, um professor excêntrico, uma bela mulher, vilões sinistros e, é claro, muita magia. Mas não pense que essa é uma história-clichê, muito pelo contrário, ela é empolgante e criativa do início ao fim.

A história se passa em torno do multifacetado protagonista, Kvothe ou “Kote”, que é o personagem mais enigmático já criado nos mundos fantásticos. Você se apaixona por ele simplesmente pela vontade de descobrir quem ele é, o que sente, o que fez e o que fará.
“O Arcano”, “O Matador de Rei”, “Dedo Leve”, “Sete Cordas”, “Sem Sangue”, esse é Kvothe, o herói (ou vilão?) controverso do romance, grande músico, poeta, sedutor e guerreiro. Não há maneiras para descrevê-lo, é necessário ler para tentar entendê-lo, e se conseguirem, me avisem.
"Fui chamado de muitas outras coisas, é claro. Grosseiras, na maioria, embora pouquíssimas não tenham sido merecidas. Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar. Vocês devem ter ouvido falar de mim." 
Patrick Rothfuss criou um mundo que poderia ser a Europa no início da Era Moderna, ou então a Pérsia em tempos remotos, pois apesar de ser uma terra fictícia, nos sentimos tão familiarizados com o ambiente ao ponto de quase acreditar que um dia já existiu.

Outra característica marcante do romance é a forma narrativa. O livro é narrado em dois planos diferentes, alternando entre o “tempo presente” da história e as memórias do protagonista. Ou seja, a história oscila entre o que está acontecendo no momento em que é narrada e os fatos que já aconteceram, que, no fim, irão se encontrar. Os momentos de devaneios de Kote, narrando sua vida para o Cronista, são a essência do livro, pois contam as origens do personagem e fatos de sua vida.
Algo que certamente vai fascinar muitos fãs de Harry Potter é a chamada “Universidade”. O lugar aonde Kvote vai para aprender a ser um Arcano. Sim, Arcano é uma espécie de mago, mas a magia de O Nome do Vento, chamada de “simpatia”, é algo muito mais técnico, depende de capacidades e treinos específicos, algo aberto a qualquer um que queira aprender. Na minha opinião, a passagem de Kvote pela Universidade é o ponto máximo do livro. Ali ele conhece seus amigos, Willem e Simmon, torna-se famoso pela sua inteligência e destreza com o alaúde, e encontra o prepotente e cruel Ambrose, o típico filhinho de papai mimado que quer bater no carinha pobre (Kvothe) porque ele é melhor  em tudo, além de ser mais comedor.  

Dois desejos impulsionam a vida de Kvothe. Quando criança, viu seu primeiro mentor, Ben, chamar o nome do vento. Desde então, sonha em aprender aquilo. Afinal, quem não gostaria de ter o vento nas mãos? O garoto passa de artista de trupe para menino de rua em Tarbean, até finalmente chegar na Universidade e descobrir o nome do vento. Nessa busca, será auxiliado pelo professor louco, Elodin, o Nomeador-Mor da Universidade.
O segundo desejo do personagem, que seria melhor chamado de “fixação” é a busca pelo Chandriano, grupo milenar de assassinos que mataram seus pais quando ele ainda era uma criança. Porém, o grupo é visto como uma lenda e se torna cada vez mais difícil e perigoso encontrá-los.  
A profunda construção tanto dos personagens quanto do mundo em que a história é ambientada, mostra grande capacidade literária do escritor e faz dessa leitura indispensável para todos que gostam de um livro emocionante e profundo.
Lembrando que esse é o primeiro volume de uma provável trilogia, o segundo livro O Temor do Sábio já foi lançado e em breve farei sua resenha.

Agora corram para a Saraiva (ou qualquer outra) e comprem o livro!


Dados técnicos:

Nome do Livro: O Nome do Vento
Autor: Patrik Rothfuss
Série: As Crônicas do Matador do Rei: Primeiro Dia
Número de Páginas: 647
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Memórias de um vencido





 "As dores dos homens seriam menos agudas se eles não... Deus sabe porque eles são feitos assim! Se ocupar com tanta assiduidade da fantasia, chamar de volta a lembrança dos males passados, ao invés de tornar o presente suportável..." - Goethe


O que poderia ter sido uma lágrima transformou-se num tênue sorriso de escárnio. Escárnio de si mesmo, ao recordar as ardilosas tramas do amor, que nos enveredam pelos mais dolorosos e inesperados caminhos. Já não chorava mais. O choro foi seu único companheiro por muito tempo, mas até a essa triste companhia ele havia renunciado.
Recordava-se de quando era jovem, nos tempos em que o coração saltava de amor em amor numa rapidez estonteante. O sorriso ainda era pueril e sincero, o corpo viril exalava vida. Naquela época sua dor teria passado. Bastaria colher uma nova flor no interminável jardim da juventude e o amargor dos sentimentos rasgados seria facilmente esquecido.
Agora, quando o corpo já declinava, quando sua boca só conseguia desenhar o sorriso cansado de quem passou pelas derradeiras desilusões do amor, sua dor se tornava constante. Um problema crônico sem qualquer chance de cura. Tornara-se parte de quem era.
Ainda se lembrava dela. De seus profundos olhos negros, da voluptuosidade de seus seios, na forma provocante de seus contornos. Porém, a memória que ficara gravada de forma mais intensa foi a de suas costas ao partir. Com os longos cabelos tocados pelo vento, sem dizer o último adeus ela se foi. Desde então o tempo se arrastou pelas incontáveis horas de solidão. Solidão à qual seu espírito se entregara quase espontaneamente, como que decidido a sofrer apenas as dores antigas, temendo, provavelmente, encontrar novas no mundo externo.
O escárnio em seu rosto era o reflexo da sombria consciência de suas fraquezas. Não tinha qualquer dúvida de que cada uma de suas ações havia o levado até ali. Não procurava mais consolos, todo sentido que existia em tentar fugir de sua condição se esvaíra junto com seu último sonho.
Encontrou na solidão seu único refúgio. Era como uma cama extremamente dura, cujos lençóis negros bordados de penumbra o envolviam cada vez mais, conforme se afundava nos abismos de sua alma. Assim velaria a própria vida, olhando taciturnamente pela janela, esperando que seu enterro passasse.

sábado, 24 de novembro de 2012

Tudo que não é


Começarei o texto com uma confissão. Ia escrever, agora mesmo, um belo poema de amor. Todo cheio de cores e sons, metáforas e hipérboles apaixonadas. Mas a caneta fugiu da minha mão, rolou pelo papel, recusando-se a escrever tanta mentira. E eu entendo a pobre infeliz. Suas irmãs canetas e bisavós penas passaram vidas inteiras escrevendo as vis besteiras não do amor, mas dos amantes. Sim, sim, são os amantes que estragam o amor.

O amor é bonito, não importam o que digam os céticos. E verdadeiro, um dos poucos sentimentos que realmente existem. Mas os que amam, ah! Os que amam deturpam o amor, amor este tão indefeso contra as falácias egocêntricas dos amantes.

Incrível como todos querem ganhar (e enganar) quando o assunto é amor. Seu caso é sempre o mais profundo, o mais apaixonado e o mais trágico. Até a tristeza decorrente de um amor fracassado é concorrida. Quando mais triste é um término, mais amor houve.

Mas não vou perder-me nas besteiras dos românticos. Devemos perdoá-los, são apenas jovens demais.

Acho que agora sei do que se trata esse texto: de ilusões. O amor está tão cheio delas...

Como são engraçadas as ilusões! No fundo sabemos que não passam de fumaça, do ópio que turva a visão da verdade, mas mesmo assim mergulhamos nelas. Sentimos-nos bem. Vejam só, nos sentimos bem na ilusão!

Sorrimos para o inventado, materializamos os sonhos e nos deitamos neles. Estranho pensar numa vida real. É como tirar as estrelas do céu, deixá-lo puro, cru. E quem dirá que é errado colorir o livro da vida com cores imaginárias?

Talvez a felicidade seja de mentira. E por que não seria? Nunca encontrei sua fórmula matemática. Há vantagens na mentira. Ela é mutável, útil, confortável.

O Homem, em sua arrogante racionalidade, finge viver em completa sanidade, mas entrega-se aos desvarios da ilusão na escuridão de seu quarto. Toda mente é povoada por cenas de sonhos jamais concretizados.

Gosto de fingir. De brincar de faz de conta. Mas não fujo da realidade, simplesmente crio a minha. Não existe alguma que seja verdadeira. Creio que esse seja o segredo da vida, pelo menos é o da minha. Não há qualquer padrão, nenhuma regra. Estamos livres para sonhar e viver sonhando.
Por isso declarei guerra à certeza, destruí toda realidade que existia em mim. Das ilusões existentes, a mais terrível é a verdade.

 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Vítima de si


"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz"

Fernando Pessoa
O mundo era frio. Sombras moviam-se pelas paredes escuras de uma realidade que lhe assombrava.  Espectros vazios, ferozes e estúpidos povoavam esse mundo. Era um local de tristeza, nada de bom florescia ai. O veneno perpetrado por eras de maldades decompostas matava qualquer verde, nublava qualquer luz, destruía toda vida.
E por isso fugia. Durante cada dia de sua breve existência, fugia. Frequentemente sentia que havia perdido, pego pelos fantasmas sádicos que assombravam cada um de seus passos.
Temia o sorriso, o sol, a esperança. Tudo que um dia fora bom e belo despertava-lhe pavor, pois sabia que nada era real, apenas sombras e ilusão.
Criou, então, seu mundo. Existia apenas dentro do emaranhado distorcido que chamava de mente. Fios de pensamentos desconexos formavam um oásis de paz, o último baluarte contra o terror que vinha de fora.
Protegeu-se de tudo que lhe fazia mal. O amor foi o primeiro dos banidos, expulso para longe, para que nunca retornasse. Logo seu coração endureceu, confortável em uma cama de dores esquecidas. A amizade também não entrava em seu pequeno país. Assim como todas as outras relações. Afinal, apenas ele existia. Todos os outros lhe deixavam doente.
Segui-se o Grande Expurgo dos sentimentos: confiança, coragem, tristeza, paixão, todos se foram. Por fim a felicidade era apenas uma lembrança borrada num passado distante. Tornou-se um desprezador, daqueles que torcem a boca para tudo. Pouco a pouco fortaleceu os muros, tornou-se uma criatura selvagem, acostumada apenas ao seu próprio cheiro.
Na tentativa de se salvar do mundo, sufocava-se, aos poucos, no esquife em que prendera o espírito. Mas agora, quando ele se tornara Tudo, encontrou em si os mesmos defeitos do mundo do qual fugira.
Pegou-se reinventando o amor, traindo a si mesmo, rindo e chorando. Louco. Descobriu, com a alma já destruída, que tudo vinha de dentro. As ilusões, os medos, o mal. Era tudo seu, não do mundo.
Ao se deparar com a verdade, verdade que procurara por tanto tempo, não foi capaz de encará-la. A culpa pesou sobre si, e era o peso da Humanidade, o fardo de todo homem.
Viu-se, então, acabado. Restara apenas uma réplica mal feita do que um dia ele fora, mais uma ilusão dentro de um mundo ilusório. Aceitou, por fim, o destino irremediável. Deitou-se. Entregou-se aos frios braços da Morte. Sorriu com sinceridade pela primeira vez. Estava, enfim, livre.

sábado, 27 de outubro de 2012

Delírios

 



Deixe a mente vagar, correr pela imensidão de pensamentos invertidos sob o sangrento sol poente.
Quando a psicose crônica de um mundo doentio tentar engolfa-lo no profundo mar da mesmice, grite! Permita que a insânia se apodere de uma cabeça que já não mais te pertence.
A loucura é o refúgio mais seguro contra a podridão do homem decadente.
Não tente pensar. Eis o maior erro que se pode cometer. Os pensamentos são armadilhas, buracos pelos quais a felicidade escorre para longe de si.
Use seu corpo, sinta as bocas que te cercam, turve sua mente com álcool e prazer. A plenitude está na doçura de um pecado deliciosamente cometido.
A morte é incrivelmente sedutora, dance com ela. Até o fim da noite terá a domado.  
Renasça das cinzas putrefatas, um novo eu pronto para declinar novamente ao nada.
Coloque em seu sorriso as sombras devassas que atormentam sua mente. A insaciável besta do desejo deve ser libertada. Ela irá caçar suas presas, abocanhá-las. 
Eleve-se aos céus dos prazeres, suje o que for puro, estrague o bom, destrua tudo que construíram sobre a falsa racionalidade sórdida dos pensadores. Monte um castelo de incertezas e deixe que ele venha abaixo, sucumbindo nos sonhos subversivos da mente delirante.
Contaram-te que a luxúria é pecado. Mentem! A luxúria é o antídoto contra a morte na vida.
Faça da vida uma brincadeira, sua vontade será o único Deus que adorará. Convide a loucura para entrar, nenhuma festa está completa sem ela. Ria das mentes sãs, são elas as loucas.
Seus amores devem ser como fogo: queimar intensamente e logo se extinguir, mas deixar marcas incandescentes no espírito regozijante.  Esgote o último fôlego de sua sanidade.
E por fim, quando estiver demasiadamente embriagado pelo vazio dos excessos, quando dentro de si não sobrar mais um fio de sua antiga razão tola, verás, enfim, o animal desprezível no qual o homem se reduz. Descobrirá que toda civilização é apenas a desesperada tentativa de ocultar o desejo ardente que existe por trás da alma. O homem é, em sua essência, uma sombra bestial sufocada por seus impulsos perversos.