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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobre o que não somos

Com certa frequencia me ocorre perceber certa estranheza nas pessoas. Não é simples diferença ou peculiaridade, é algo a mais, mais profundo. Anormalidade talvez seja o termo correto. É como se houvesse algo em cada uma delas que não deveria estar ali. Em cada um isso se manifesta de forma distinta. Às vezes fica visível no olhar, outras no modo como sorri ou simplesmente em traços e pequenas ações. São particularidades que me causam desconforto, sinto que ali falta a própria essência humana. É isso que sinto, como se as pessoas fossem menos humanas.

São momentos em que ficam visíveis as superficialidades que escondem o verdadeiro eu de cada um. Acredito que seja essa a questão:  nas relações sociais, por mais próximos que sejam os sujeitos que interagem (familiares ou grandes amigos), existe sempre a tentativa ininterrupta de esconder algo. A anormalidade não é, nesse caso, ser diferente do normal. Pelo contrário, essa superficialidade que fica visível às vezes é exatamente a tentativa de ser normal, no pior sentido da palavra. É o reflexo da constante luta interna por se adaptar ao mundo, por abdicar do que somos para conseguirmos ser aceitos.

A impressão, nessas ocasiões, é de sorrisos contidos, palavras calculadas, simples ações que são pensadas antes de praticadas, e essa retenção, essa tentativa de mecanização,  nos transmite enorme distanciamento da verdadeira identidade da pessoa. Me pego também, é claro, regulando sentimentos, escondendo angústias, programando cada ato, como se ser humano fosse uma fraqueza, quase inaceitável.

Talvez seja por isso que as relações sejam tão inconstantes. Daí, quem sabe, vem essa dificuldade do mundo moderno em estabelecermos ligações concretas e duradouras com outros. Nos preocupamos tanto com o modo como vamos agir que esquecemos de demonstrar quem somos. Falta esse toque de humanidade nas relações.

As artes que valem realmente a pena, como algumas pinturas e músicas, são aquelas que nos transmitem os mais humanos dos sentimentos. São as que desmascaram todo o melindre social, ultrapassam as barreiras que erguemos sobre nossas personalidades verdadeiras e nos tocam no âmago, aquecem o coração.

Já disse uma vez que o homem é um eterno poderia ter sido. E acho que isso se deve ao medo de nos conhecermos a fundo, de olhar no espelho da alma e fazer dela nossa face externa. Transformamos nossos corpos em nossas prisões, e aí há pouca esperança de abraços sinceros, conversas francas e amores verdadeiros. Nos tornamos de plástico, e plástico derrete se queimar demais.

sábado, 26 de julho de 2014

sobre o hoje e o amanhã (talvez)





É engraçado o que venho escrevendo por agora. É como se fosse apenas o reflexo do que era antes.
Minha chama, parece que ela se apagou. Sobraram as fumaças, e essas fumaças são as poesias de hoje. Tudo o que escrevo são anagramas daquilo que já fiz antes.

Minha música, parece que ela se findou. Sobraram só os ecos, e os ecos das palavras que já escrevi outrora parecem ser a única coisa que sei agora escrever.

Meu filme, parece que ele acabou. Sobraram só os créditos, e eles sobem com os nomes de tudo o que já me inspirou um dia.

Agora eu quero alguma coisa pra sentir. Quero humanidade para preencher meus pulmões, insanidade para compor meus versos. Quero sentir as palavras escorrendo novamente, queimando cada célula do meu corpo, me fazendo renascer das minhas próprias cinzas.

Onde estão as minhas canções intermináveis?, onde foram parar? Onde ficaram as lágrimas, as noites sem dormir, os lamentos, os tormentos, os suspiros em meio ao caos universal que se condensava no meu peito? Eu sou o escravo que sente falta de suas algemas; eu sou a alma que corre livre pelos prados a procura de uma nova maldição; eu sou vazio do presente que clama pelo medo e a dor do passado; eu sou aquele curado que anseia novamente a enfermidade; aquele aleijado que deseja retornar à cadeira; aquele... aquele... aquele o quê? Não sei dizer.

Sou poeta sem palavras. Toda a beleza da minha dor se esvaiu. Todo o caos da minha alma se acalmou. Toda poeira da minha memória se assentou. E no retrato de mim mesma eu fecho os olhos com calma e dedilho o teclado como se fosse um piano, só que o que sinto quando escrevo é, hoje, apenas o eco do que fora um dia.

Mas esse é o hoje. Apenas o hoje.

Talvez o amanhã me traga novas palavras.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

sobre a escrita de poesia



Nas minhas confissões eu digo que te quis como queria escrever meu primeiro poema. E era você as minhas primeiras linhas tortas onde deus não escrevia. E minhas linhas se endireitaram a ponto de se entortarem de novo.

E a minha primeira prosa foi você. Proseamos um dia inteiro e o dia pela metade me parecia. Mas o dia estava completo. Repleto da poesia que emana dos teus lábios sem que você perceba. E eu sempre recolho.

Experimentando o sabor que sai deles, percebo que Drummond, Machado de Assis, Rimbaud, Baudelaire e tantos outros não faziam a menor ideia do que era a poesia imaculada, pura e em flor. A poesia em botão que floresce junto ao meu peito. A poesia que atropela pontos e vírgulas e pausas porque é tão apaixonada que não sabe respirar enquanto percorre toda a essência do teu ser e se espalha pelo meu corpo como o perfume mais embriagante e me leva para um canto distante onde eu possa me perder.

Quem se importa com as doses de lirismo das quais me embriaguei antes de te ver naquele começo de ano que agora me soa distante? Não existia poesia antes dos meus lábios conhecerem os teus. Ninguém nunca fará uma epopeia saudando meus tempos de embriaguez. Ninguém se lembrará dos vinhos que bebi e das poesias que foram abortadas por eles. Ninguém.

Mas todos irão lembrar-se da poesia que se fez carne; a carne que é consumida por mim. Todos hão de lembrar, antes que o ocaso falhe a memória: ele tinha uma Poesia!

Sim!, ele tinha uma Poesia com letra inicial maiúscula!, dirão. Tinha ele uma sereia, uma ninfa... ou qualquer nobre atribuição que queiram lhe competir. Aliás... Não. Ela não era sereia, ninfa ou qualquer nobre atribuição que queiram lhe competir... Porque ela transcendia tudo que há e há de haver neste mundo! A poesia foge a qualquer definição e tentar defini-la seria limitar os batimentos cardíacos de uma pessoa.

Ele tinha uma Poesia., digam isso e já basta. Não se lembrem de mim. Não há necessidade; um artista que se preza sabe que quem deve ser conhecida é a obra, não o artista. Basta dizerem que ele tinha uma Poesia. E eu concordarei. Ela é sua magnum opus em suas nuances e matizes.  E eu concordarei. Todo artista que se preza sabe que há uma paixão arrebatadora e inigualável entre artista e obra. Basta dizerem que ele a amava mais que tudo.

E eu concordarei satisfeito, mesmo sabendo da dor dessa Poesia.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma tentativa (inútil) de não pensar nos seus olhos.


Para Amanda Botelho,
cujos olhos cor-de-Violetta carregam um Universo mágico, um Universo fantástico, fadas, dragões e borboletas.
Porque qualquer tentativa de não pensar em seus olhos é inútil, eles emanam magia. 
Assim como você.


Uma tentativa (inútil) de não pensar nos seus olhos.


Existem vários tipos de olhos (e de olhares) no mundo. Tem os olhos cor-de-céu, os olhos cor-de-planta e os olhos cor-de-mar. Mas o melhor de tudo é a forma como cada olho carrega um olhar. Um olhar-de-brilhante, um olhar-de-sonhar. Eu amo todos esses olhares.

Mas com você é diferente. Você carrega o mundo nos olhos. Eu vejo como eles brilham. Sim. Você tem o mundo nos seus olhos cor-de-âmbar. Tem um olhar-de-sonhador que ao mesmo tempo é um olhar-de-magnetismo; atraem os meus olhos.

Logo no início, achei que também tinha o mundo no coração. Hoje em dia já acho que não. A verdade é que você tem o coração no mundo. É por isso que seus olhos brilham. Os seus olhos estão no mundo, mas acima disso, o mundo está nos seus olhos. Você consegue ver no mundo a beleza que eu desisti de tentar ver.

Espero que você entenda. Porque eu achei que você poderia me ensinar, sabe? Achei que você poderia me ensinar a enxergar o mundo assim. Ou melhor, poderia enxergá-lo para mim, míope como sou. Mas não pode. Lembro bem de ver o seu mundo mudar. Agora os seus olhos-de-mundo são olhos-de-Ela. Porque o seu mundo é ela.

De repente, assim do nada, comecei a procurar outros olhos-de-mundo que nem os seus. Só que, juro, não achei nenhum. Foi aí que senti o meu desespero. Acho que como eu não conseguia enxergar o meu mundo acabei me apaixonando pelo seu. Não é justo. Mas nada é justo na vida, é?

Nessa minha procura insana por outro olhar cor-de-âmbar foi que encontrei os olhos dela. Eram grandes, lindos e expressivos. Verdes cor-de-grama. Mas não qualquer grama. Grama de jardim, no meio da primavera, cheios de vida e de cor. Cheios de inocência, saudade, amores e mistérios. Como o Universo. Não pense que te substituí, não é isso. É diferente. Porque você tinha olhos-de-mundo. Ela tem olhos-de-Universo, verdes cor-de-grama, que brilham feito imensas estrelas lá no Céu.

Outro dia estive a conversar com ela que leva o Universo nos olhos. Contei-lhe dessa minha obsessão por “olhar”. E como também contei que às vezes me pego pensando no que dizem os meus próprios olhos, ela me disse que tenho olhar negro-feito-diamante. De cara, já gostei do nome. Sorri. E ela disse que meu riso completa o meu olhar. Eu queria dizer que tudo nela brilhava, porque fazia alusão aos seus olhos-de-Universo, mas não deu tempo. Eu acordei.

Acordei triste, com lágrimas nos olhos. Até hoje não sei dizer se a menina de olhos verdes cor-de-grama era da realidade terrestre ou se era de outra dimensão. Só depois de chorar muito e molhar todo o travesseiro foi que entendi que, na verdade, não fazia diferença de onde ela vinha, mas sim para onde iria. E eu sabia que, onde quer que eu fosse, era onde ela estaria. Dessa forma, eu teria todo o tempo do mundo para dizer-lhe que ela brilhava, feito as estrelas no Céu do Universo em seus próprios olhos brilhantes. Porque, afinal de contas, ela não tem um fim e nem um começo. Ou até tem, mas eu desconheço. Igualzinho ao Universo que ela leva no olhar.


Sobre o Autor:
Lisandra S. Bernardo
    Lisandra S. Bernardo tem 17 anos. Gosta de chocolate, cinema e romance. 
Também curte abraços, fantasias e sorrisos, só não curte não ser feliz.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

as cinzas



Sentado no chão sujo da rua em que um dia existiu luz, fumava o último cigarro que seus pulmões suportavam. Eram tantos por dia que quase via seu corpo se esfumaçando e indo embora com o vento. Mas não queria ir embora com o vento, tinha de ficar. Mesmo que seus piores demônios o fossem buscar, não se permitia sair daquele lugar que tanto significava para esse alguém já sujo e de humor mordaz. A vida o fizera assim, afinal. Ou melhor, a morte, a morte dela o fizera assim. Ela quando decidira partir de seus braços para viver em algum inferno que não a própria existência. E por mais que uma vez tenham conversado sobre isso, e concordado que não haveria em algum outro lugar sofrimento maior do que na própria vida, ela duvidava. Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista.
                Ele pedia em silêncio aos deuses da carnificina que o olhavam de algum lugar lá entre as nuvens cinzentas, mas os hipócritas filhos-da-puta fechavam os ouvidos, e a única resposta que podia escutar era a risada estrondosa que ecoava no céu. E eles riam tanto do seu sofrimento que caíam, rolavam e choravam. Foi assim que começou a chover na rua onde um dia o sol brilhou. Seu cigarro apagou-se com os pingos d’água que caíam como bombas no chão e praguejou em alto e bom som, mas o barulho dos trovões risonhos abafou a sua voz. Largou o corpo de lado e aproximou-se mais ainda da lata de lixo, tentando se proteger com uma tampa metálica que havia no chão.
                Protegido, voltou a pensar naquilo que o fizera clamar por ajuda divina, e uma torrente de lágrimas ácidas começaram a rolar pela extensão do seu rosto, deixando uma marca brilhosa por onde passava.
                Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista. Mas ela era assim, mesmo, não? Tatuagens sem anestesia, piercings sem curativos, amor sem cuidado, filme sem cor, macarrão sem molho. Ele não entendia nenhuma de suas ideologias dolorosas, mas sabia que a ele não fazia bem algum. Quando compartilhavam a seringa suja e a via rasgar a pele com a ponta metálica, ou quando ela o pedia que ele lhe puxasse o cabelo com força e não parar nem que chorasse. Para de ser assim, Letícia, para de nos suicidar e nos afogar e me sangrar, chorar, morrer... Mas o que acontecia é que ela sempre o domava, sempre o agarrava pelo pescoço para se entorpecerem das formas mais sádicas possíveis. Não, Letícia, não, não posso, isso ‘tá me matando. Não é por que você morreu que eu tenho de fazer o mesmo. Não, não é pra você chorar, não é...
                Mas quem chorava de verdade era ele. Letícia não sabia chorar, só enfeitar o rosto com diamante líquido. As coisas nela não aconteciam como com as outras pessoas: tudo era pouco demais, tudo era rápido demais, tudo era opaco demais. Sangue a fazia bem, gritos a fazia bem, velórios a excitavam e morte poderia ser muito bem servida com molho madeira. Ele não aguentava isso, não conseguia. No começo ela era tão perfeita em sua imoralidade que aquele mundo fantástico chegava a brilhar, mas com o tempo as coisas ficaram tão monocromáticas que teve medo do escuro. E para se livrar da penumbra que começava a se aproximar sorrateira, decidiu falar de sentimentos, e de dores e de perdas.
                Eu não entendo por que diz isso agora. Enjoou de mim, Lucas, enjoou daquele fruto que você se lambuzava tanto? Vai então, some daqui e parte para um mundo perfeito, seu imundo! Vai com eles vai, com esse imbecis cegos e ignorantes! Talvez eu tenha me enganado...
                Você está entendo errado, Letícia. Eu só quero te ajudar, você precisa de ajuda! Deixa de ser orgulhosa e olha para mim! Eu não quero te perder, eu não quero te perder para você mesma. Por favor, por favor...
                Me passa o cigarro...
                Ele agarrou o braço dela.
                Me escuta!
                Me solta! Seu nojento, hipócrita!
                Ela desvencilhou-se dos braços deles, braços já cansados de suportar, e dedos que não eram fortes o suficiente para prender tamanha grandeza. Aquele relacionamento machucava tanto que tinha anestesiado. Agora entrava num estado de letargia que o suspendia, estado que durava enquanto os cachos negros de pontas avermelhadas sumiam pela rua, davam um adeus incerto, sem saber se iam voltar. Só sentiu o estômago inchar-se e retrair-se, o mundo virar de cabeça para baixo e alma mofada abrindo-lhe caminho pela boca. Era vômito, mas serviu de travesseiro para seus temores quando desmaiou.
                Lucas acordou sem sinal de vida, embora em seu pesadelo mais recôndito estava tão vivo quanto qualquer outra pessoa. Letícia não estava ali, e isso descartava a teoria confortante de que tudo aquilo não passava de uma ilusão do crack. Na verdade não se lembrava muita coisa do que acontecera antes de ter desabado sobre si mesmo na calçada. O cheiro pútrido de vômito seco era a única coisa que o trazia de volta à sensação de êxtase ao ver seu demônio amado partir, e de certa forma se sentiu agradecido por isso. Sentou-se com dificuldade e parou para pensar no que fazer a seguir, mas tomou uma decisão sábia e simples: esperar. Se bem conhecia aquela fada de unhas afiadas, ela voltaria. Só estava mordida com as palavras dentuças por ele ditas, e estaria de volta na manhã seguinte, no máximo, pedindo um pouco de heroína. Ela voltaria.
                Mas não voltou. E não voltou nunca mais. O corpo foi encontrado algumas quadras de distância, num terreno isolado de tudo. Haviam marcas profundas na pele, que de princípio julgaram terem sido provocadas por alguma gangue dos arredores – ele sabia que havia sido ela em sua loucura sangrenta, porém –, embora estranhassem o fato de que um estrupo não tivesse acontecido ali. A morte tinha sido provocada não pelos ferimentos, embora eles próprios fossem graves o suficiente para ocasionar uma hemorragia séria. Tinha sido overdose. Era uma palavra tão doente que se encontrava em estado terminal. Letícia não gostava dela. Achava ser uma criação estúpida de uma sociedade estúpida. É que sabe, Lucas, overdose é feio. É a morte mais digna de pena que existe. Quero sim, morrer drogada, mas não de droga, entende? Quero que olhem para o meu corpo pálido e frio e digam: caralho, essa vadia morreu feliz. Eu acho que quero morrer transando. Sim, isso. Transando. Pode ser com você. Nós dois morremos juntos, transando...
                Não, Letícia, nós morremos, mas não transando. Você que nos matou, atirou uma vez e assassinou dois coelhos. Bang! Bang! Era isso que passava por sua cabeça quando tudo acabou. Quando Letícia se consumiu.
                No fim das contas descobriram que ela tinha mesmo se matado e nem deram muito enfoque ao caso. Ninguém se preocupava com uma drogada estúpida, afinal. Era mais uma ratazana de bueiro, nada demais.
                Lucas nunca mais foi o mesmo. Sentia que tinha perdido algo de si, um complemento que nunca esteve ali de fato, mas parecia estar. Letícia nunca tinha sido dele. Ela era dos prazeres, das drogas, das dores e das emoções. Ele era o errado de tudo isso, no fim. Ele quem tinha errado em superestimar uma relação tão frágil. E consumiu daquilo em demasia, apoderou-se de algo que era demais para ele e explodiu. Explodiu e morreu. Seu corpo se mexia naquela rua onde aconteceu a supernova. Na calçada em que dividiam o medo e a angústia de todo dia sagrado.
                Como tinha sido burro, como tinha. Tinha caído numa armadilha por ele mesmo projetada. Volta, Letícia, volta e me faz triste mais uma vez. Vem me mutilar com seus suspiros e me comer com sua língua áspera. Volta...

                E os dias passavam lentos, queimavam devagar. E demorou a perceber tudo, mas percebeu: tinha morrido de overdose. Overdose de Letícia.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

sobre o medo dos teus olhos




Você sempre repousa os olhos em mim. Teus olhos, que sempre voam e conhecem o mundo, repousam após mais um voo distante. Anos sem te ver. Foram anos? Nem lembro. Parecem-me que sim... Você pousa os olhos e eu, desacostumado com a turbulência do teu voo, desvio o olhar, com medo de que você me descubra. Eu tenho medo que você me leia, sem comprar meu livro; decifre-me, sem me devorar. Eu tenho medo e fujo. Porque fugir é a reação para quem tem medo. Não é a única, mas a mais viável. Tenho medo desses teus olhos de comer fotografia; desses teus olhos de raios-X; teus olhos que me intimidam mais do que correr nu em plena avenida. Que se fodam todos os olhares contemplativos por ver meu sexo livre desfilar na avenida. Eu preferia mil vezes isso a ter seus olhos sobre os meus e as minhas mãos vazias. Nem fumo mais, mas queria ter um cigarro em mãos... Eu tenho medo dos teus olhos porque eles têm um espaço enorme para eu me perder. É o oceano inteiro, porque o mar nunca é suficiente para essa sede que teus olhos têm. E eu tenho medo. Porque teus olhos sabem me esquadrinhar e me chupar até que não reste mais nada sob os panos. Tenho medo e o medo é gatilho psíquico disparado. É reação aos teus olhos. Sempre teus olhos. Se eu ao menos tivesse mais um cigarro... Tenho medo que tua visão abarque todo meu corpo. Minto, disto não tenho medo, adoraria se teus olhos somente me percorressem o corpo. Ainda que me estraçalhasse a carne, ainda que não restasse mais nada intacto do meu corpo... Eu preferiria, se meu emocional permanecesse incólume. Mas porra!, tenho tanto medo que teus olhos adentrem os meus; que percorram os estímulos luminosos e lá dentro encontrem alguma coisa há muito esquecida. Tenho medo que você encontre tudo aquilo que eu te mostrava e que você teimava em não enxergar. Mas agora esse tempo é passado e o passado só convém para a história. Nós não fomos história. Não fomos nenhum Giuseppe ou Anita Garibaldi. Não fomos nenhum Romeu ou Julieta. Sempre fomos ‘ou’. Sempre fomos a conjunção coordenativa. Sempre fomos a partícula ‘se’. Se eu tenho medo da tua incerteza? Um medo que não caberia nesse texto. Eu tenho tantas dúvidas e você não tem nenhuma das respostas. Pelo contrário, você me enche de dúvida da cabeça aos pés e isso me confunde de um modo tão aterrador que eu tomo por mentira toda e qualquer vaidade. Digo: toda e qualquer verdade. Tua indecisão me corrói; corrobora-me o incerto e me atira ao vazio existencial de uma tarde fria e solitária de domingo. A verdade é que eu não quero ser só. Não quero. E tudo que a tua companhia me traz é solidão. É o grito sufocado enquanto se dilacera a garganta com as unhas para ver se ele escapa. Eu quero a paz que você me rouba sempre que pousa seus olhos sobre os meus, pega uma xícara de café e roça a mão na minha, como quem não quer nada. Mas sempre quer. Teu jogo nunca é sem intenção. Teu crime nunca é culposo. E eu canso. Eu já não tenho fôlego em acompanhar essa tua dança em que sempre mudam os pares e eu, número ímpar, fico fora. Cansei. Cansei dos teus olhos me sugarem como um buraco negro e deixando em mim, somente o vazio. Desvio o olhar do teu porque tenho medo. Atravesso a rua para evitar cruzar contigo por puro medo. Não atendo tuas ligações ou finjo que não estou ou que estou ocupado ou doente ou qualquer outra coisa que me afaste de você, ainda que me cause dor, adivinha por quê? Puro medo. Medo da ilusão breve que teus abraços me trazem. Medo da vida monocórdia sem você. Medo dos teus voos assim que teus olhos me consumirem até a última fagulha. Eu tenho medo que você me roube toda a paz que eu construí na tua ausência... uma vez mais.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Desdecadência

Desdecadência



          É grande a dor do parto, mas tenho de partir. E é com este clichê que declaro minha retirada do blog, meus queridos. 2014 começa com um decadente a menos, que será encontrado com posts literário exclusivamente no pontos de vírgulas, apesar de continuar tocando seu projeto junto ao Céu Literário. Agradeço a todos os comentários e visualizações até agora, e um até breve a todos.

Mais atenciosamente do que nunca, Vitor Vallombroso.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sobre vermelho e preto

Sobre vermelho e preto



           Primeiro a ruiva no bar. Seus lábios banhados em batom vermelho e cerveja. Já deveria ser a décima ou décima primeira lata que ela entornava. Fazia caprichosas pausas, onde nada falava. Ela não precisava falar, nem eu tampouco. Sempre foi assim em nosso relacionamento que nunca foi.

           Então o telefone toca. Estico a mão e a posiciono sobre o telefone prestes a atender, e então entendo. Não é a bebida que me faz incapaz de discernir o real do sonho, é o sono. Não é o bar envolto em mim, é meu quarto. Não é a ruiva tentando contato, é a morena.

            Ao ultimo toque, eu atendo. Minha ultima chance de escapar, e eu deixo escapar. Escapar, sim. A Morena era a criatura mais linda, de sorriso mais perfeito. Talvez não se pudesse dizer que era a mais inteligente, nem tampouco que era a criatura mais fácil de lidar, mas nada disto a fazia menos formidável. A única coisa que a fazia menos formidável era não ser a ruiva.

           Saber que a conversa será longa me faz querer não atender e o dia passa, no telefone. Enquanto suas doces e engraçadas palavras me consomem, e eu me provo mais uma vez mestre na arte de acordar e se arrepender de cada decisão do dia, até por fim me arrepender de ter acordado.

            Ela precisa ir. Enfim, estou livre. Livre para voltar ao bar, na companhia da ruiva. Livre para voltar aos sonhos. Esse era meu maior problema. O que quero não passa de sonhos.  E a realidade não passa de pesadelos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sobre essas coisas todas que não são amor



Era tanta coisa, que não era amor.

Era triste te ver sumir todos os dias e ficar meio vazia e sem saber o que fazer. Era chato toda essa hesitação toda vez que me dava vontade de bater um papo contigo. Era um sufoco enorme que eu queria reprimir, porque eu achava que reprimir era resolver.

Ledo engano!

Era um vai-e-vem de coisas velhas na memória e na falta dela, era uma ânsia ou um vício, o meu próprio modo de suplício, era uma coisa errada que esmagava e eu deixava... e eu deixava... Era silêncio, era choro, era vela, era um pouco de cautela, pra poder tentar lidar com você. Era noite, era dia, era o limbo e o indefinido. Era foda.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era dúvida ou pornografia, era uma nova forma de selvageria.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era o grito nunca gritado, era só pra te deixar irritado, era só fogo no rabo mesmo. Era tudo puro engano, foi um acidente que não fazia parte do meu plano.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era ficar de madrugada fazendo poesia porque não dava pra fazer de dia.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era ouvir a própria voz e não saber de onde vinha, era ter que lidar com tudo isso sozinha.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era cisma, era tormento, era tentar esquivar-me do lamento. Era dispersão a todo momento, era vontade de brigar e de odiar com força.

Era tanta coisa que eu nem sei se ainda é!

Era. Tanta. Coisa.

Era tanta coisa que eu nunca ousei chamar de…

Ninguém entende, ninguém dá nome, ninguém sabe o que fazer ou onde enfiar.

(eu poderia te dizer onde enfiar...)


Acho que é necessário que, pra saber lidar com isso de alguma maneira, criemos termos e definições pra tudo isso. Pra esse monte de coisa que não era amor.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Além de mim, tu.



Eu costumava ter um motivo para sorrir, embora procurasse alegria em outros sóis. A essência da felicidade esteve em minhas mãos, fiz com que fugisse, correndo do que havia me tornado. 

Um dia acordei e ouvi um passarinho cantando ao longe, voando tristemente para o horizonte distante da saudade. Meu sorriso se apagou aos poucos. Procurei em estrelas e em garrafas, mas o havia perdido. 

Não há sonho mais cruel do que aquele que realmente existiu, mas não existe mais. São cinzas que queimam em cada instante de descuido, nos lembrando de que já arderam tão intensamente como os fogos de fim de ano.
Nossos erros não são uma tragédia. A verdadeira tragédia é desejar ter a chance de errar novamente, mas, dessa vez, acertar.

Passei dias esperando que certas lacunas se fechassem, porém não há meios para esquecer o que faz parte do que somos. Acabamos sempre por esbarrar em nós mesmos, e lá vão estar os fantasmas que nunca serão exorcizados, por sua lembrança se conservar sempre doce e límpida como uma manhã de primavera.

É na dor que percebemos o que realmente importa. E é o que importa que nos faz ser o que somos.
Um dia, talvez, em qualquer esquina escura, num dia sem esperança, a vida me seja devolvida com uma lufada do ar de seu perfume. Então as memórias que se fizeram chagas hão de clarear, mostrando-nos que o amor está acima dos erros dos homens. Só o amor é eterno, todo resto passa, efemeridades do viver que são inevitáveis na imperfeição humana.


Elevar-me-ei ao paraíso dos seus olhos chorosos, guiando-me de volta a mim mesmo, iluminando novamente meu rosto num sorriso tímido de reconciliação.

São círculos que se fecham em momentos únicos, fazendo de alguns instantes o infinito da felicidade. Encontrei meu infinito em ti, e mesmo que ele esteja perdido em qualquer recanto nebuloso do universo, a simples lembrança de que existes é o suficiente para despertar em mim a esperança de sorrir novamente. Você e eu escreveremos páginas eternas no livro dos que se amam, dos que de amor sofreram, de amor morreram e pelo amor viveram.