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domingo, 9 de fevereiro de 2014

as cinzas



Sentado no chão sujo da rua em que um dia existiu luz, fumava o último cigarro que seus pulmões suportavam. Eram tantos por dia que quase via seu corpo se esfumaçando e indo embora com o vento. Mas não queria ir embora com o vento, tinha de ficar. Mesmo que seus piores demônios o fossem buscar, não se permitia sair daquele lugar que tanto significava para esse alguém já sujo e de humor mordaz. A vida o fizera assim, afinal. Ou melhor, a morte, a morte dela o fizera assim. Ela quando decidira partir de seus braços para viver em algum inferno que não a própria existência. E por mais que uma vez tenham conversado sobre isso, e concordado que não haveria em algum outro lugar sofrimento maior do que na própria vida, ela duvidava. Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista.
                Ele pedia em silêncio aos deuses da carnificina que o olhavam de algum lugar lá entre as nuvens cinzentas, mas os hipócritas filhos-da-puta fechavam os ouvidos, e a única resposta que podia escutar era a risada estrondosa que ecoava no céu. E eles riam tanto do seu sofrimento que caíam, rolavam e choravam. Foi assim que começou a chover na rua onde um dia o sol brilhou. Seu cigarro apagou-se com os pingos d’água que caíam como bombas no chão e praguejou em alto e bom som, mas o barulho dos trovões risonhos abafou a sua voz. Largou o corpo de lado e aproximou-se mais ainda da lata de lixo, tentando se proteger com uma tampa metálica que havia no chão.
                Protegido, voltou a pensar naquilo que o fizera clamar por ajuda divina, e uma torrente de lágrimas ácidas começaram a rolar pela extensão do seu rosto, deixando uma marca brilhosa por onde passava.
                Letícia fechou os olhos e se entregou ao sonho masoquista. Mas ela era assim, mesmo, não? Tatuagens sem anestesia, piercings sem curativos, amor sem cuidado, filme sem cor, macarrão sem molho. Ele não entendia nenhuma de suas ideologias dolorosas, mas sabia que a ele não fazia bem algum. Quando compartilhavam a seringa suja e a via rasgar a pele com a ponta metálica, ou quando ela o pedia que ele lhe puxasse o cabelo com força e não parar nem que chorasse. Para de ser assim, Letícia, para de nos suicidar e nos afogar e me sangrar, chorar, morrer... Mas o que acontecia é que ela sempre o domava, sempre o agarrava pelo pescoço para se entorpecerem das formas mais sádicas possíveis. Não, Letícia, não, não posso, isso ‘tá me matando. Não é por que você morreu que eu tenho de fazer o mesmo. Não, não é pra você chorar, não é...
                Mas quem chorava de verdade era ele. Letícia não sabia chorar, só enfeitar o rosto com diamante líquido. As coisas nela não aconteciam como com as outras pessoas: tudo era pouco demais, tudo era rápido demais, tudo era opaco demais. Sangue a fazia bem, gritos a fazia bem, velórios a excitavam e morte poderia ser muito bem servida com molho madeira. Ele não aguentava isso, não conseguia. No começo ela era tão perfeita em sua imoralidade que aquele mundo fantástico chegava a brilhar, mas com o tempo as coisas ficaram tão monocromáticas que teve medo do escuro. E para se livrar da penumbra que começava a se aproximar sorrateira, decidiu falar de sentimentos, e de dores e de perdas.
                Eu não entendo por que diz isso agora. Enjoou de mim, Lucas, enjoou daquele fruto que você se lambuzava tanto? Vai então, some daqui e parte para um mundo perfeito, seu imundo! Vai com eles vai, com esse imbecis cegos e ignorantes! Talvez eu tenha me enganado...
                Você está entendo errado, Letícia. Eu só quero te ajudar, você precisa de ajuda! Deixa de ser orgulhosa e olha para mim! Eu não quero te perder, eu não quero te perder para você mesma. Por favor, por favor...
                Me passa o cigarro...
                Ele agarrou o braço dela.
                Me escuta!
                Me solta! Seu nojento, hipócrita!
                Ela desvencilhou-se dos braços deles, braços já cansados de suportar, e dedos que não eram fortes o suficiente para prender tamanha grandeza. Aquele relacionamento machucava tanto que tinha anestesiado. Agora entrava num estado de letargia que o suspendia, estado que durava enquanto os cachos negros de pontas avermelhadas sumiam pela rua, davam um adeus incerto, sem saber se iam voltar. Só sentiu o estômago inchar-se e retrair-se, o mundo virar de cabeça para baixo e alma mofada abrindo-lhe caminho pela boca. Era vômito, mas serviu de travesseiro para seus temores quando desmaiou.
                Lucas acordou sem sinal de vida, embora em seu pesadelo mais recôndito estava tão vivo quanto qualquer outra pessoa. Letícia não estava ali, e isso descartava a teoria confortante de que tudo aquilo não passava de uma ilusão do crack. Na verdade não se lembrava muita coisa do que acontecera antes de ter desabado sobre si mesmo na calçada. O cheiro pútrido de vômito seco era a única coisa que o trazia de volta à sensação de êxtase ao ver seu demônio amado partir, e de certa forma se sentiu agradecido por isso. Sentou-se com dificuldade e parou para pensar no que fazer a seguir, mas tomou uma decisão sábia e simples: esperar. Se bem conhecia aquela fada de unhas afiadas, ela voltaria. Só estava mordida com as palavras dentuças por ele ditas, e estaria de volta na manhã seguinte, no máximo, pedindo um pouco de heroína. Ela voltaria.
                Mas não voltou. E não voltou nunca mais. O corpo foi encontrado algumas quadras de distância, num terreno isolado de tudo. Haviam marcas profundas na pele, que de princípio julgaram terem sido provocadas por alguma gangue dos arredores – ele sabia que havia sido ela em sua loucura sangrenta, porém –, embora estranhassem o fato de que um estrupo não tivesse acontecido ali. A morte tinha sido provocada não pelos ferimentos, embora eles próprios fossem graves o suficiente para ocasionar uma hemorragia séria. Tinha sido overdose. Era uma palavra tão doente que se encontrava em estado terminal. Letícia não gostava dela. Achava ser uma criação estúpida de uma sociedade estúpida. É que sabe, Lucas, overdose é feio. É a morte mais digna de pena que existe. Quero sim, morrer drogada, mas não de droga, entende? Quero que olhem para o meu corpo pálido e frio e digam: caralho, essa vadia morreu feliz. Eu acho que quero morrer transando. Sim, isso. Transando. Pode ser com você. Nós dois morremos juntos, transando...
                Não, Letícia, nós morremos, mas não transando. Você que nos matou, atirou uma vez e assassinou dois coelhos. Bang! Bang! Era isso que passava por sua cabeça quando tudo acabou. Quando Letícia se consumiu.
                No fim das contas descobriram que ela tinha mesmo se matado e nem deram muito enfoque ao caso. Ninguém se preocupava com uma drogada estúpida, afinal. Era mais uma ratazana de bueiro, nada demais.
                Lucas nunca mais foi o mesmo. Sentia que tinha perdido algo de si, um complemento que nunca esteve ali de fato, mas parecia estar. Letícia nunca tinha sido dele. Ela era dos prazeres, das drogas, das dores e das emoções. Ele era o errado de tudo isso, no fim. Ele quem tinha errado em superestimar uma relação tão frágil. E consumiu daquilo em demasia, apoderou-se de algo que era demais para ele e explodiu. Explodiu e morreu. Seu corpo se mexia naquela rua onde aconteceu a supernova. Na calçada em que dividiam o medo e a angústia de todo dia sagrado.
                Como tinha sido burro, como tinha. Tinha caído numa armadilha por ele mesmo projetada. Volta, Letícia, volta e me faz triste mais uma vez. Vem me mutilar com seus suspiros e me comer com sua língua áspera. Volta...

                E os dias passavam lentos, queimavam devagar. E demorou a perceber tudo, mas percebeu: tinha morrido de overdose. Overdose de Letícia.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Alice

Este conto é inspirado e baseado na música Alice, do Kid Abelha.

Alice estava tão furiosa quando me acordou que quase se via a imagem do demônio refletida em seus traços já gastos pelos 30 anos de vida. Sua vida baseada em extremos emotivos a tornava marcada, com rugas que vastavam seu rosto e só tornava cada vez mais insuportável olhá-la diretamente. Sua forma física era só mais um motivo contra qualquer envolvimento: mau-hálito, grosserias e sarcasmos completavam a lista de defeitos infinitos. Em resumo, Alice era, é e provavelmente sempre será (mesmo que seja preciso escrever em letras garrafais em seu túmulo para que isso permaneça intacto para o resto do tempo) a pessoa mais desagradável do mundo. Mas, mesmo com todos aqueles empecilhos que repeliam pessoas todos os dias, mesmo com o jeito dela de me acordar durante a madrugada para ir para o trabalho, eu a amava incondicionalmente, tanto, que chega doer, que chega odiar.
Ela não disse nada após me balançar violentamente, se privou apenas á um movimento brusco de dar as costas e se sentou no lado oposto da cama, encima da mancha amarelada de suor que ela contribuía no aumento todas as noites. Sentada, com sua postura incorreta, Alice escrevia o que deveria ser o vigésimo bilhete de despedidas no último mês. Eu não conseguia enxergar do lugar onde eu me encontrava, mas provavelmente eu leria alguns minutos após a saída dela para o trabalho, as mesmas letras garranchosas compondo aquela frase que parecia ser seu slogan: “Vou viver o mundo que eu mereço. Adeus.”. Não resisti a um suspiro e cocei os olhos inchados, olhos de quem não dorme com a namorada que ronca a noite inteira.
- Alice, você não quer isso de verdade. Digo, não pode ser sério. – Eu sabia que ela me odiaria por aquilo. Alice não suporta ser subestimada. – São dez anos! Dez anos de tanto amor que não sei como coube em mim! Você precisa parar de esquecer-se do amor, do meu amor por você!
Sua reação foi tão previsível que caí para o lado novamente, deitando a cabeça no travesseiro: nenhuma resposta daquela boca fina e torta. Eu estava tão irritantemente cansado daquilo que faltava pouco para deixar escapar um “Até a vista, Alice.”, mas eu ainda não tinha perdido o juízo. Eu jamais arriscaria perder aquele estorvo, aquele problema mal-humorado que puxava todo o edredom e me deixava com frio durante a noite. Dizem que a liberdade é azul, mas todo céu já foi nublado. Ela era as nuvens gordas e negras do meu céu, mas mesmo que me deixasse escuro e morto, trazia chuva pros meus jardins, e me florescia alegria. Era um amor masoquista.
Minha namorada continuava a rabiscar, provavelmente com a intenção de me criar expectativa, formando no papel, algo que eu imaginava serem apenas traços indefinidos com o objetivo de deixar o post-it amarelo ainda mais horrendo. Afinal, era assim que tudo com ela ficava. Um dia ensolarado na praia podia se tornar uma visitinha ao inferno quando se estava do seu lado; uma festa na casa dos amigos (dos meu amigos, já que eram escassos os dela) se desenrolava num desastre sem tamanho. Alice possui uma única regra básica de vida: ser desagradável, não importa o que custar. Só o que eu nunca consegui entender, é a força que me faz, mesmo com todas as brigas e desavenças, não conseguir me separar, ou pior, ter medo quando ela – mesmo que por capricho – ameaça ir embora.
- Você é tão sincera que me assusta. – Divaguei, por um segundo, lutando contra o sono. Aquilo era mais para fazê-la se sentir bem, do que a própria verdade. – Nenhuma outra mulher seria capaz de acordar o namorado trinta e cinco em trinta dias no mês para avisar que ele não passa de um monte de merda. – Ela percebeu a dose de sarcasmo, e quase grunhiu, mixando com seu jeito cavalar de ser. – E olhe só, o monte de merda te adora mesmo assim. Eu arrisco afirmar que o mercado de homens não anda de tão alta qualidade
Dei uma pausa, enquanto o quarto permanecia mudo.
- Ah, qual é, rasga esse post-it e sei á, pede uma folga. Vem dormir mais um pouco comigo, vem. Eu estou cansado, mas quem sabe, se você pedir com carinho. – Minha risada não convenceu nem a mim, nem a ela, e foi o estopim para causar uma saída brusca da minha namorada do quarto. Ela largou o bilhete encima da escrivaninha (longe demais para que eu precisasse levantar para ler) e eu escutei a porta de vidro da frente se bater com força.
Não me levantei para ver o que ela afinal havia escrito, e só me cobri com o edredom. Lá ia-se ela mais um vez, levando tudo consigo: toda ironia, toda falta de carinho e desprezo. O seu poder de atração era tão grande, que o imã carregava até mesmo meus sorrisos, meu afeto. O grande espaço por ela ocupado completava os buracos recortados da minha alma.

E eu só rezava baixinho, esperando saber se eu a veria hoje, amanhã ou nunca mais.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Supernova



As violetas
Algumas guerras são feitas de fogo, outras tantas de palavras, de travesseiros. Mas a que Ele vivia não podia se desenrolar em armas, ou vencer por travesseiros. Sua guerra era profunda, incutida no seu ente, enterrada fundo na parte invisível do corpo. A sua guerra era feita de razão. Uma razão tão peculiar, que podia se virar até mesmo contra o próprio dono. Afinal, não estava Ele lutando o tempo inteiro consigo mesmo?
                Outro fato curioso sobre guerras, é que elas muitas vezes não possuem motivos definidos para sua existência: apenas questões políticas, morais, ou pura diversão (no caso dos travesseiros), tudo junto. Mas essa que Ele havia criado podia ter um nome, de tão claro que era seu motivo: cegueira. E embora a palavra possa remeter a significados subjetivos e mensagens subliminares, não passa de um sentido cruel e literal. Era cego e fraco, e muito provavelmente um ser estranho e feio. Não possuía nenhuma atrativo para conquistar um coração, pelo contrário, parecia sempre suscetível à repelir quem quer que se colocasse em seu caminho. Mas Ele pouco sabia disso, não conseguia entender a palavra “feio”, e “estranho” também não fazia muito sentido. Afinal, para o Garoto, a própria existência é bela.
                Mas o campo de batalha não era menos sangrento só porque não entendia aquelas palavras. Ele lutava internamente pois estava apaixonado. E não podia ver se Ela se encontrava do mesmo jeito. Não ver com os olhos reais, mas com sua própria mente. Sabia tanto sobre Ela, mas não podia estar certo sobre a reciprocidade daquele sentimento. Era desesperador, um convite ao sofrimento. Mas aquele dia na escola, Ele falou com a Menina, com a Cega.
                - Você sabe o que é amor, Camille?
                - Eu posso ser cega, Miguel, mas eu entendo do que sinto. Os anos que meus olhos permaneceram no escuro me fizeram enxergar dentro de mim, eu acho. – Ele reconhecia quando Ela ria.
                - Mas você já amou? Eu digo, para saber o que é isso...
                - Você mesmo pode me responder. Você já amou, Miguel? Já sentiu a ponta dos dedos formigando, ou a sensação de cair do mundo, de parar no tempo? Pois eu estou sentindo agora.
                Seu coração quase saltou pela boca, quase que a alma foi grande demais para a caixa, e mal pode se conter e ficar imóvel. O Garoto não acreditava que a Garota sentia o mesmo que Ele.
                - P-p-p-or que diz isso, Camille?
                - Porque amo a vida, amor viver...
                A luz negra de apagou.
                -... porque amo você, Miguel.

As violetas não murcham
Ver, que nunca fora um problema, tinha se tornado um menor ainda para Ele. O Amante não parecia precisar enxergar nada, seu mundo era Ela, toda sua pele, sorrisos e abraços. Só queria tocá-La conversa-La e sentir que Ela se sentava ao seu lado na grama. Os dois Apaixonados não podia ser mais felizes, não cabia mais prazer naquelas Formas, mais amor poderia explodi-Los. Dois Sonhadores dançando na escuridão, duas sombras voando pela noite, rasgando o dia e trazendo a lua para dentro, tornando os buracos negros do universo, portos completos, faróis que guiavam sonhos.

E assim se arrastou o primeiro mês juntos, de olhos fechados, de sorrisos abertos.

As violetas não murcham, mas queimam
Ele não podia ter escolhido melhor lugar para se encontrarem: onde tinham se entregado ao sentimento, o quarto dEle. O aniversário de um mês de namoro, as bodas negras, já haviam começado uma hora atrás, e toda a comida já estava sendo ingerida. Os dois se encontravam deitados um sobre o outro na cama, escutando o silêncio que zunia, amando cada um a respiração do outro, a presença do outro. Até que a Cega quebrou o silêncio letárgico:
                - Você me acha feia?
                - Ah, qual é, Camille, como eu poderia te achar feia?
                - Sim, porque você é cego.
                - Não, porque eu te conheço o suficiente por dentro, e a sua alma é a mais linda que existe. – enlaçou seu corpo com os braços e permaneceram quietos por um curto tempo. – Onde você quer chegar com isso?
                - Você nunca teve vontade de ver, Miguel?
                - Não. – Sua resposta foi ríspida, feita de uma expressão facial cerrada, de quem gosta de fugir de assuntos específicos.
                - Nunca? – Seu tom de voz, podia-se dizer, era até mesmo sonhador. Cegos também sonham.
                - Não. Eu não tenho vontade de ver, você bem sabe. Existe um mundo cruel fora do véu, e não é algo que eu aprecie sonhar em ver. E meu mundo é você, sabe disso.
                - Mas tudo é tão fantástico, que não se pode não ter curiosidade de desbravar o universo!
                - Bem, eu não tenho. E olhe, estou vivo, mesmo sem nunca ter visto nada. E você também.
                O silêncio desta vez foi doloroso, uma cicatriz que se abria devagar.
                - Ah, Camille, você tem mesmo vontade de enxergar? – Ele disse, um misto de reprovação e ironia.
                - Ah, não, claro que não... – sorriu amarela assim que contou aquela mentira. – Mas, Miguel, preciso te contar uma coisa.
                Ele só fez esperar até que ela dissesse:
                - Eu vou fazer uma cirurgia essa semana... Eu vou começar a ver.

As violetas não murcham, mas queimam e se tornam cinzas
Haviam se passado semanas desde que Ela havia feito a cirurgia, e Ele finalmente poderia vê-La, ou melhor, encontrá-La. Seria ela quem poderia vê-Lo.
                Os pais da Garota abriram a porta com sorrisos e o acompanhou até o quarto dEla. A Namorada estava lá deitada na cama, e embora ele não visse nada, sentia o cheiro de infelicidade. Era um cheiro forte, de pólvora, de mina que vai explodir sobre os seus pés ao próximo passo. Eram lágrimas. Os pais deixaram o cômodo, e permaneceram os Dois, afogados somente no ruído dos carros passando na rua por algo que pareceu levar anos até que acabasse.
                - Você está bem? – Aquela pergunta pareceu apropriada.
                - Não... quer dizer, sim.
                - Então... como é, você sabe, ver?
                - É desesperador, é luminoso e cheio. É confuso e tão... feio... Tão feio que finalmente entendi o que é.
                - Feio? Mas... eu pensei que...
                - Você é feio, Miguel... – Sua voz estava embargada, e Ela já falava mais alto, o choro tornando as palavras, cortinas despedaçadas. O tempo era sugado pela boca da Menina, enquanto ela se enraivecia. - ...tão feio. Eu! Eu sou pior ainda! Tenho esse rosto deformado! Essa barriga gorda! Esse mundo não é belo! O que se tem para ver nessa droga?!
                - Não, Camille, você é... - assim que se aproximou da cama para consolá-La, ela o empurrou.
                - Sai daqui! Sai daqui! Sai daqui...

                Deixou a casa trêmulo, e não havia parado de chorar até chegar em seu próprio quarto. Nem ali as coisas estavam estáveis: tudo desmoronava, quebrava-se, liquefazia-se. Era o inferno, definitivamente, o sofrimento eterno. Deitou na cama para dormir, atormentado ainda, quando teve seu primeiro pesadelo, o de que na verdade nunca fora cego na vida.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

O rastro de uma desconhecida



Sentada no meio do jardim, debaixo de uma árvore graciosa, ela, a mulher sem nome, observava tudo com olhos de quem não quer ver nada. Estava farta das pessoas que caminhavam, do barulho dos carros ao redor, do ruído do silêncio de seus pensamentos ecoando na cabeça, cansada do vazio no coração, na mente. Eram poucas as coisas que não a estressavam ou enjoavam. Estava cheia de tudo, até de nada. Pois, afinal, o nada era o que a fizera perder o controle. O não do amor, o sem da presença e o longe do sentimento. Todas as sensações de falta eram o motivo daquela rebeldia aparentemente infundada. E, para resolver esses problemas que persistiram tanto, resolveu recorrer à um contato com a natureza para encontrar mudança. E se a natureza fosse mesmo remédio, estava no lugar certo: podia sentir o coração da terra vibrando ali.

Mas não esperava que nenhum ser, uma fada da natureza a procurasse para resolver seus problemas com mágica. Não. Esperava entender a independência do natural, e se inspirar nisso. Queria encontrar em si mesma a adenda que faltava. Não suportava mais esperar que outras pessoa fizessem aquele trabalho sujo, até porque elas não o faziam. Nunca. Mas, por mais que se ativesse à textura da grama verde, ao som dos pássaros, à velocidade do vento e ao cheiro de maçã, se prolongou para achar respostas. E não as encontrou mesmo assim. Quase esmurrou-se a si mesma. Era tão frustrante viver daquela forma, apostando as chances em coisas que nunca se sucediam. Não era somente sua culpa, ah isso nunca. Um pensamento de que precisava seguir o padrão (homem + vestido branco + criança de olhos claros = felicidade) haviam se tornado estátua de sal em suas virtudes. Aquilo perpassava tudo o que nela estava contido, e tocava fundo na alma: jamais será feliz sem todos esses sonhos fúteis.

Era o que sua mãe sempre dizia: ninguém se casaria com tamanha incapacidade no trabalho doméstico. Retrucava, tentando acreditar que sua mãe mentia, mas acabava por cair na cama, naquele oceano calmo, porém perturbador, para derramar lágrimas de insegurança. Acabava acreditando, e o vento carregava as folhas, a razão e os sorrisos.

A mulher sem nome socou o peito da terra, e esperou que seu sangue parasse de bombear, que seus pomares não dessem frutos, que seus rios secassem. Socou a natureza mais três vezes e saiu. Inútil. Foi quando tomou o único caminho que sua mente esfarelada enxergava, a última opção. Engoliu em seco e saiu do jardim, para ver aqueles tons vibrante pela última vez. Assim, vagarosa e hesitante, seguiu para sua última chance, para o caminho da plenitude: foi para a fábrica.

Naquele lugar cinza e afastado da vida, aprendeu a cozinhar, passar roupas e se dar ao respeito. Aprendeu que homens e mulheres são coisas completamente diferentes, a ser submissa. E ela, juntamente com outras mulheres, finalmente aprendeu que quanto menos se questiona, mais feliz se é. Não houve melhor solução para a mulher desconhecida, casou em pouco tempo, e logo teve um filho de olhos escuros. A felicidade não era maior que a ponta do dedo mindinho, mas ao menos parecia estar lá em algum lugar do íntimo. A mãe sorriu, o pai também, e ela os acompanhou. Cada dia que acordava e via o homem do seu lado, suspirava de prazer, e dava início à rotina gelada.

Mas um dia, um dia de sol, algo o inquietou, e voltou para o jardim.


O ar tinha cheiro de podridão, a grama era cinza, e o troncos das árvores, sépia. Uma lágrima rasgou a face, ao passo que ela percebia lentamente: a natureza havia morrido. Só restavam cinzas, destroços de um tempo em que a infelicidade era falsa.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Dica da Semana: Beleza Americana (1999)

Faço questão de vos apresentar nesta terça-feira úmida, a mais nova coluna da Decay, cuja a ideia é indicar filmes, seriados, livros, CDs e etc para os nosso leitores.

"Foi quando entendi que havia essa vida toda por trás das coisas, e essa incrível força benevolente, que dizia pra eu não ter medo. As vezes eu sinto que há tanta beleza no mundo, e eu não posso resistir. E meu coração parece que vai sucumbir."


O filme que abrirá com chave de ouro a nossa coluna é Beleza Americana (American Beauty, 1999, direção de Sam Mendes e roteiro de Alan Ball), um filme norte-americano que junta, harmonicamente, tudo de mais delicioso que existe: atuações marcantes, enredo inteligente, milhares de críticas sociais e um personagem fracassado muito divertido. Não tinha como não dar certo, e não demorou muito para que ele se tornasse um dos meus filmes favoritos de todos os tempos.

SINOPSE:
“Lester Burham (Kevin Spacey) não aguenta mais o emprego e se sente impotente perante sua vida. Casado com Carolyn (Annette Bening) e pai da "aborrecente" Jane (Tora Birch), o melhor momento de seu dia quando se masturba no chuveiro. Até que conhece Angela Hayes (Mena Suvari), amiga de Jane. Encantado com sua beleza e disposto a dar a volta por cima, Lester pede demissão e começa a reconstruir sua vida, com a ajuda de seu vizinho Ricky (Wes Bentley).”

A sinopse por si só já parece convidativa, mas não explana nem a metade da história do filme. A fotografia dispensa comentários: além de ter recebido o Oscar em 2000 nesse quesito, é um show a parte. É realmente interessante ver como a parte visual do filme ajuda à construir a mensagem simbólica: muitas pétalas de rosa são observadas durante as 2 horas, consolidado uma marca. A trilha sonora é adorável, mas não é propriamente um destaque.

Não é a minha intenção criar interpretações, mas em Beleza Americana, vários dramas sociais e familiares são abordados: virgindade, sexualidade, drogas e dominação financeira. Enfim, é um prato cheio, com doses cavalares de humor negro, uma pitada de drama para fazer chorar e muita reflexão. Mais do que recomendado.

TRAILER:

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um discurso irracional sobre Esperança, o maior mal do mundo.



Havia tempos que não se sentia minimamente feliz. E não falava de sorrisos e andares alegres, mas depois de tanto tempo na obscuridade do sofrer, qualquer sensação, ou ao menos menção de sensações boas era o suficiente para alimentar seu coração faminto. A expressão fechada, séria, cética do mundo, descentre da bondade e da verdade. E não eram os outros que a magoavam, que a mentiam, nem mesmo era a coersão que sofria por suas roupas monocromáticas e sujas: era a raiva, o amargo gosto da raiva de si própria que a corroía internamente. Estava morta, isso era visível. Morta por fora, se você fosse sensível para analisar, e morta por dentro, como só ela mesmo sabia. Mas havia se suicidado.

Andava em direção ao trabalho naquela calorosa – odeio sol – tarde de domingo - e também os domingo;, dão lugar à uma segunda-feira maçante. Sim, trabalhava nos finais de semana. Possivelmente, fora sua própria escolha, esta. Era o dia que a empresa se encontrava mais vazia, o dia em que as pessoas menos ligavam para reclamar da companhia telefônica. E eu trabalho numa companhia telefônica.


Numa miséria de companhia telefônica. Miserável como seu salário.


Mas, o que ocorre é que o sol parecia mais frio, que o chão se mostrava mole sob a sola dos seus sapatos. Não sabia exatamente a motivação da decorrência de tais fatos, mas a desgraçada da sua vizinha feiticeira poderia dizer que algo estava para acontecer. Nós sempre sentimos quando algo está a um passo de se desenrolar. Ela acrescentaria ainda que seria um acontecimento bom e revigorante. Algo vai acontecer.

E suas palavras douradas escritas em fundo preto não foram em vão. Pela primeira vez, seu otimismo não se esvaiu com o vento, nem mesmo se apagou após o tempo, e ainda no caminho à miserável companhia telefônica de paredes descascadas e salários ordinários, ele... ela... aquilo, passou. Não sabia dizer se era homem ou mulher, tinha problemas em distinguir coisas tão subjetivas. Mas era uma forma, uma bela forma que absorvia em sua pele negra... branca... incolor toda parte boa da radioatividade solar. Era gentil mesmo sem falar, apaixonante até mesmo inerte, e sedutor mesmo que cada centímetro da sua pele estivesse coberta por panos multicolores. E o principal, era que mesmo com toda a exposição, era uma forma misteriosa e também sóbria, um convite à diálogos e aproximações gulosas.


Ela não sentiu nada à princípio, e provavelmente nem depois que ele/ela/aquilo a beijou. Sim, seu beijo era amargo e doce, uma mistura de tudo o que havia de ruim no mundo, um pecado, um desejo, uma direção errada, o caminho mais estreito, a porta do inferno. Por trás desse pano se via a imagem de deus (não podia afirmar qual), que sorria com certa malícia. Mas a textura da sua língua era instigante, e enquanto ele percorria sua extensão vermelha, os lábios dela buscaram por mais.


Abriu os olhos e viu. Enquanto o beijava, sugava-o, bebia-o e comia-o vorazmente. Até que ele se consumiu.


A atendente de telemarketing era morta. Suicidada. Mas acordou na manhã seguinte com uma centelha de esperança.

- - - -

Considerações (ou desculpas esfarrapadas)

Acontece que nem sempre os projetos pessoais se desenrolam de forma fluída. Meu projeto de livro, Letargia, mostrou-se mais um broto que nunca vingou. Espera que esse nunca seja limitado, e que o livro que sonhei por meses, quem sabe anos, se torne uma árvore frutífera daqui a algum tempo.

E foi visando em completar o espaço vazio deixado pelo "fracasso", que pensei em uma nova coluna. "Comportamento", é o seu nome, e não menos poética ou narrativa é do que meu projeto anterior; ao contrário, é visível que se pode espremer muito mais sentimento com esta. Me debruço aqui, toda semana, a tratar de facetas humanas. Não das mais visíveis e gerais, mas do que é escondido, dos desejos carnais mais fortes, dos pensamentos mais cruéis e singulares de cada um. Pois afinal, somos assim, um monte de matéria inconstante.

Com carinho,
aquele escritor desaparecido, mas singelo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Tempo?


O seu nome era André. E esse era um cara bastante introvertido, cheio de vídeo games na cabeça, e altamente viciado em cafeína. Queria um dia ser programador de computadores, mas nunca tinha coragem de levantar da poltrona verde da sala de estar para procurar um emprego. Tomava sorvete 24 horas por dia, e parecia fazer teima para não engordar, pois mesmo com todas as calorias ingeridas, continuava seco, como um bambu, sentado eternamente na poltrona verde, com um controle preto na mão, olhando para aquela televisão de 45 polegadas. E era final de ano, então. E ele continuava lá.



Sentado na poltrona verde, com o controle na mão. E a grande televisão de 45 polegadas. Mas André era como qualquer pessoa e queria um emprego no próximo ano, uma televisão maior, um videogame melhor, e a poltrona azul que tinha visto na internet. Sustentado pelos pais, não tinha dinheiro, evidentemente para tal, mas ainda sim queria. Ele nunca iria sair da poltrona, nunca iria largar o controle, mas esperava a mudança.
— Feliz 2013. — Disse o amigo na internet.
— É, você também. — Respondeu sem o mínimo de emoção nas palavras.
— Vai mudar?
— Quem é que não vai? Todo mundo vai mudar ano que vem. É um ano melhor. Sempre é... Eu acho.
E tudo mudou? Sim, tudo mudou, é claro. André ganhou na loteria. Foi um sortudo, sim. Sempre fazia seu joguinho; era como o evento do ano, o dia em que saía da poltrona verde e fazia algo. Trabalho não era a sua procura.
Mas isso não importava. Tudo mudou.
E havia aquela, a senhora Lena, a mulher trabalhadora, de dois filhos com seus 8 e 10 anos. Solteira, uma mulher com visão. Visão não somente pelo olhar de fogo que tinha, mas pelas ideias que sempre permaneciam fiéis aos seus valores. Bastante feminista, desde que pusera o primeiro pé no mundo, já era certa disso. E não se arrependia. Talvez fosse a novela das sete na verdade, não o seu gene idealista, como dizia seu marido, mas ela não queria pensar assim. Gostava muito de novela, é bastante verdade. Quase com a mesma intensidade de que gostava de leite.
Mas ela também não fazia muito para mudar. Ou pelo menos para mudar a sua vida pessoal. Sempre altruísta, humilde, nunca olhava para si própria, e acabava que seus sonhos de consumo eram sempre deixados de lado para atender ao todo, à massa. Queria uma poltrona nova para a sala, uma televisão mais moderna, e um videogame novo para o filho mais velho. Ela tinha seu emprego, mas nunca deixava um tempinho, ou melhor, um dinheirinho para usar para tais fins. Não era preguiçosa, ao contrário de André, mas sim visionária demais. Esse era o seu problema. (Vamos descartar o fato de que estava começando a se viciar demais em laticínios.)
Disse que tudo iria mudar para a amiga no salão.
E tudo mudou? Não.
Claro que nada ia mudar. Ela queria ganhar na loteria, mas nunca jogava.
E é só então que chego no ponto chave de tudo o que eu queria escrever. A droga dessa data comemorativa que fazem todos buscarem um motivo para mudar. Não precisamos de motivos. Somente de objetivos. De sonhos, de atitude. Esses são os ingredientes para que alguma coisa se faça sensivelmente diferente. Não me apego nem ao fato de as pessoas parecerem impotentes, mesmo com todas as chances jogadas à sua frente, mas sim ao significado dessas datas, que as pessoas tanto se agarram, como se por mágica, algo acontecesse. Algo de grandioso.
O que na verdade é uma virada de ano? Um segundo no qual iniciamos mais uma jornada. Não.
Não é uma jornada, é somente mais um ano! Igualmente o 2012 foi, será o 2013. Pelo menos será se você continuar apenas desejando, sem mover um dedo. Não digo que desejar seja de todo ruim. Mas como eu disse, não quero me apegar àquela velha preguiça, que faz todo mundo se sentar numa poltrona verde e assistir televisão para sempre.
Tudo tem que vir de você, mas não no último segundo do ano que se despede, mas sim desde o início deles. Sabemos como tudo parece demorar à acontecer. Um objetivo leva tempo para ser atingido, e um dia, uma hora, um segundo, não é o suficiente. Você faz o próximo ano, não o próximo ano te faz.
E, talvez mais importante ainda: quem foi o infeliz que ditou que somente em aniversários se presenteia, se faz festas? Gosto de aniversários, mas odeio mensagens que desejam que seu DIA seja ótimo. Então somente o dia do seu aniversário deve ser bom? O resto tem que ser um poço de trevas. Ou pelo menos a pessoa que desejou um feliz aniversário não se importa com o resto do ano.
Margô, uma senhora que fazia torta de limão divinamente, e que tinha acabo de ganhar seu primeiro telefone celular, se espantou, ou talvez se enraiveceu no dia em que completou seus 57 anos. Uma mensagem chegou ao seu celular, e este emitiu um bip.
— Diego! Venha cá! Que droga eu fiz para esta pessoa que eu mal sei quem é, que me manda um feliz aniversário e um ótimo dia?
— Oh, vó. Como mal conhece? Você mesma possui o contato no telefone. A senhora quem o adicionou à sua agenda telefônica.
— Sim, eu o fiz. Mas não fui com a cara do sujeito. Essa tal de Marcos. É amigo da tua mãe, um jovem bastante irônico.
— A mamãe deve ter comentado sobre o seu aniversáario. Ele não quis ser grosseiro e enviou essa mensagem. É bastante barato enviar um torpedo hoje em dia.
E a velha ficou reclamando sobre isso durante um tempo. Embora rabugenta, a senhor Margô estava certa. Se ao menos dessem o devido valor à data... Mas não, simplesmente enviavam torpedos irrelevantes. Quem disse que ela não merecia uma mensagem durante todo o tempo? Ela que tanto tinha feito durante a vida? Aquele era só um dia qualquer, em que completava mas um ano, mais um passo para a cova, como ela gostava de pensar.
O ser humano é mesmo um bicho terrível. Tenta se apegar à ideias fantasiosas, mesmo quando julga de pé firme a inexistência de fantasia alguma. Parece mais um consolo para a alma, que necessita de um apoio, de uma ideia de que algo acontecerá por mágica, naquele dia especial. As pessoas procuram em outras coisas, outros seres, o que podem encontrar em seu próprio âmago, naquele pedacinho escondido, privado, da alma. As datas são como vento, que passa rápido, e mal deixa o seu rastro. Coisas grandiosas acontecem com anos, décadas, séculos. Ninguém nunca viu um aluno conseguir boas ou más notas somente por um único dia do semestre. Ou um presidente conseguir o cargo com somente uma hora de campanha.
Não adianta esperar ganhar na loteria para comprar a poltrona nova, ou a televisão maior. Atitudes precisam ser imediatas. O instante atual é o instante crucial.
Nem é difícil de memorizar.
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cereja


Um dos mistérios da vida deve ser a sensação. Sim, a doce sensação que me vem no peito quando meus olhos, mesmo que de relance visualizam você, ou quando minhas mãos curiosas vasculham o espaço até achar um pedacinho de pele sua. Isso é mistério, é o ponto de interrogação que me vem todos os dias, desde quando abro os meus olhos para a claridade da manhã. É o suspense que faz meu coração bater forte, e meu corpo suar de ansiedade. É aquele, o momento mais esperado do filme, quando todos prendem a respiração. É assim quando te sinto, te pressinto, te vasculho, até me encontrar, e me perco somente para me achar de novo em você.

Mesmo quando não presta atenção, quando está pensando silenciosamente, consegue me despertar amor. Bebendo o leite que te deixa o fino bigode branco sobre os lábios, dormindo, fazendo aquele movimento suave com a boca quando sorri, com malícia. Droga. Exatamente, uma droga você. Entorpece-me, me faz emergir no carmesim, nas sedas brilhantes dos teus abraços, e depois, quando acaba a dose e você vai para casa, eu só posso desejar mais, sonhar com mais um punhado dessa substância alucinógena – pois vivo utopia toda vez que te tenho. Só posso me contentar com o resto do cheiro de rosas que você deixa em meus lençóis, que se faz presente no sofá que você senta, ou no chão que você pisa.

Parece que o fogo te envolveu, te ardeu, te concebeu esses caracóis vermelhos de sangue, e essa boca rubra de cereja. Quero ingerir, possuir, sugar até o último suspiro, e te fazer renascer das chamas, como fênix. Afinal, tão raro ser você é. Toda partida é morte, toda chegada é vida.

O mistério deve ser o medo. Não, não o medo, mas o medo de você. É perigoso, um lobo cauteloso, com seus olhos negros, e presas brancas, atencioso ao mínimo movimento da presa, esperando para atacar. E você me atacou, no fim das contas. Mergulhou seus dentes em minha pele e me fez arfar. O medo é o seu adeus. Não somente o tchau que eu ouço quando sai do portão da minha casa, mas o adeus mudo, que está no simples olhar entristecido, ou na mágoa reprimida, mas claramente perceptível. Eu não viveria sem essa fera. Sem o monstro que me apunhalou no ontem, que me possui no hoje, e que não se decidiu do amanhã.

Faltaria espaço na minha cama, faltaria braço aos meus abraços, a boca colada na minha, o cheiro, o sabor. Você.

O mistério, na verdade sou eu. Que ama incondicionalmente, e deseja cegamente ser teu.

Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vamos falar de: Sexismo

É, sinto que mesmo depois de uma busca incansável contra o uso do polêmico livro Cinquenta Tons de Cinza como um ponto de referência para essa matéria, acaba que ele é mesmo uma boa base para abrir espaço para uma discussão de um assunto desse porte. Vamos falar de sexismo. Sim, eu não suporto mais ter que debater esse assunto e usar o livro da E. L. James para comparar. Eu acho que existe gente que precisa de uma explanação bem detalhada do assunto, uma vez que os termos (machismo, feminismo, sexismo e blá blá blá) acabam se confundindo um pouco, e os debates a cerca disso se tornam no mínimo incoerente. E uma observação válida: não quero dizer, pelo amor de Deus, de R’hllor, de Alá, do caralho a quatro que eu estou julgando quem gosta de Cinquenta Tons de Cinza, ou quem gosta dessa pegada sadomasoquista, mas sim quem é sexista, pois pelo menos do ponto de vista que EU vejo a coisa, não existe prática, ou conjunto de ideias pior do que isso. Ou talvez até tenha. Mas enfim.

Vamos ao ponto chave. Por que diabos, João, você usou esse livro maravilhoso da James, sendo que você nem leu (sim, eu nem li!), e além do mais nem tem nada disso que as pessoas falam? Vou te dizer o motivo: eu li o suficiente, e acho que algumas coisas a gente percebe antes de terminar. E as partes soltas que acabei lendo por indicação foram bem gritantes nesse aspecto. E acho justo - antes de começar a abordagem que realmente importa -, eu dizer que o uso de sexo foi abusivo, os personagens foram mal delineados e a escrita foi terrível, além do ponto chave da matéria que foi o machismo, ou mais abrangente, o sexismo,

Vamos inicialmente ver o significado de cada um dos termos: sexismo, feminismo e machismo.
Sexismo é um grupo de ideias e atos, em que um indivíduo, independente do seu sexo ou orientação sexual, se julga superior somente pelo seu gênero ou sexualidade. Um exemplo bom disso é o fato de um homem se achar no direito de ganhar mais do que uma mulher, mesmo os dois tendo o mesmo emprego, mesmo cargo, etc, usando como pretexto a ideia do sexo frágil e tantas outras que obscurecem a história humana. Logo, esse termo se refere à superioridade de determinado gênero sobre outro. Ou seja, machismo e feminismo são vertentes do sexismo, embora se confundam.
Machismo é basicamente a ideia de que homens são superiores às mulheres. Não só fisicamente, mas social e culturalmente, como se fossem seres criados para dominarem o sexo oposto.
Feminismo, por outro lado, é um movimento de caráter político e social, em que a meta é uma sociedade sem distinção sexual, onde as mulheres e os homens possam desfrutar de todos os direitos igualmente.



Concluída esta etapa, vamos ao que realmente interessa. E vou voltar a falar do livro polêmico. Do que ele trata? Da Ana, que era uma pacata garota que me parece que nunca tinha sido beijada (já vi isso em algum lugar, mas a “garota” era bem velhinha e cantava muito –Q), que conhece o galanteador Grey, um empresário misterioso e muito sedutor. E o que acontece? Ela se apaixona por ele. Pff. Mas nem é necessária um aprofundamento, pois não é isso que me faz querer matar a autora. Depois de se conhecerem melhor, e de umas preliminares bem forçadas, eles vão pra cama. E olha, mesmo com todas as evidências do seu machismo sendo expostas no momento do sexo, nem achei isso o X da questão. Tipo, nem é “errado” esse tipo de coisa no ato sexual, já que as pessoas viram coisas loucas nessas horas, né? Né? –n Pois bem, a pior parte vem depois de um contrato, isso mesmo um CONTRATO, onde a burra da Ana tem que assinar pra poder ficar com ele e blá blá blá. Nesse contrato, ele diz expressamente que ela tem de chama-lo de SENHOR (WTFFFFFFFF?), e outras coisas que me confundem, ou me fazem rir, ou até mesmo tentar queimar o livro, mas enfim.

E finalmente, entrei no grande assunto.

Poxa, mas que droga é essa? A garota fica apaixonada loucamente por um cara que gosta de bater nela, de se achar melhor do que ela, que A FLAGELA QUANDO ELA FAZ OU FALA ALGO QUE NÃO O AGRADE???! Para o mundo, gente. Para.

Em todo canto tem mulher apanhando em casa aí, sofrendo mesmo, tendo que reprimir a raiva, o choro, a mágoa... aí vem uma pessoa que acha isso muito bonito, e escreve um livro onde apesar de tudo, o Grey consegue sempre o amor da Ana, incondicionalmente. Não é que não se deva abordar o assunto; acho que tem muito que se fazer isso, mas não dessa forma, não colocando a dominação sexual como algo bom.

Meio que todas as conquistas femininas são jogadas no lixo quando alguém acha “bonito”, charmoso, sexy um homem ser sexista. Se a gente voltar lá atrás, mulher não podia estudar, nem trabalhar, nem votar, só ficar em casa cuidando de filho e fazendo comida (bitch, please). Aí elas conseguem (AEAEAEAEAEA! FINALMENTE, AS MUIÉ CONSIGUIRO -Q), e vem a James (linda, diva, uma ótima escritora, cof cof) e escreve Cinquenta Tons de Cinza (todo mundo chora =/). Se você gosta um tiquinho de história, sabe a dificuldade que foi para que elas conseguissem isso.



E olhe bem, que mesmo assim, no mundo de hoje mesmo, as coisas não estão nem perto do ideal. Quem é que nunca viu marido dizer que lugar de mulher é na cozinha, que homem é o chefe da casa? Que mãe é mais importante na criação do que o pai (está vendo, mulheres são sexistas também, e algumas, como a autora E. L. James, são machistas), que homem não chora.

E assim, esse tipo de coisa infelizmente está inserido à sociedade, que vai precisar de luta para reverter isso. Um booooom exemplo é a religião. Ok, não me julguem por isso, mas eu sei do que estou falando. Nos registros bíblicos, passagens reforçando a diferença entre mulheres e homens na sociedade da época são bem fáceis de achar, e até mesmo a dominação ser algo bastante correto. E o pior é que tudo é meio que uma reação em cadeia. Os profetas de Cristo eram machistas (nem culpo tanto, já que naquela época, né), escrevem o que eles pensam que é o certo; o pastor vai lá e lê, e, como ele crê em tudo o que está escrito lá no livro, ele involuntariamente cria um pensamento sexista, como se fosse algo correto, divino; e depois, ele vai e passa a mensagem para os fiéis, que acabam por se tornar machistas. Assim fica complicado, né, Brasil? Nem quero falar de religião, pois não suporto mais ninguém jogando pedra, mas é a mais pura verdade. Somos machistas (falo da sociedade no geral), pois as nossas raízes são. Não vamos nos espelhar no passo ruim do mundo, mas nas conquistas que são frequentes na história. Problema chato do ser-humano que só se inspira no que não presta.

E acho que se a gente ficar escrevendo livro, fazendo filme, cantando música (vide funks) em que tudo isso é usado de forma correta, não chegaremos à igualdade que tanta gente gosta de falar, mas praticamente ninguém sabe o que é.

Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Resenha: Um Dia, David Nicholls



“― Bom, Em, o negócio é...
― ‘Em’? Quem é ‘Em’?
― Todo mundo chama você de Em. Eu ouvi.
― É, os meus amigos me chamam de Em.
― Então, posso te chamar de Em?
― Vai nessa, Dex.”

Nome: Um Dia
Autor: David Nicholls
Avaliação: ★★★★★
Páginas: 416
Editora: Intrínseca

“Dexter Mayhew e Emma Morley se conheceram em 1988. Ambos sabem que no dia seguinte, após a formatura na universidade, deverão trilhar caminhos diferentes. Mas, depois de apenas um dia juntos, não conseguem parar de pensar um no outro. Os anos se passam e Dex e Em levam vidas isoladas - vidas muito diferentes daquelas que eles sonhavam ter. Porém, incapazes de esquecer o sentimento muito especial que os arrebatou naquela primeira noite, surge uma extraordinária relação entre os dois. Ao longo dos vinte anos seguintes, flashes do relacionamento deles são narrados, um por ano, todos no mesmo dia: 15 de julho. Dexter e Emma enfrentam disputas e brigas, esperanças e oportunidades perdidas, risos e lágrimas. E, conforme o verdadeiro significado desse dia crucial é desvendado, eles precisam acertar contas com a essência do amor e da própria vida.”

E aqui estou eu escrevendo uma resenha numa madrugada de sexta-feira. O livro da vez é o famoso e muito bem criticado Um Dia, do também roteirista David Nicholls, que se mostrou um romance atemporal muito moderno e sedutor.
Depois de perceber que o livro se encontrava em tantas estantes e que as críticas à cerca dele não poderiam ser melhores, decidi desembolsar uma pequena quantia e comprar o título, e posso dizer que o dinheiro foi bem gasto. Com algumas ressalvas, mas ainda valeu cada centavo. No geral, estou bastante orgulhoso da compra, pois não costumo me interessar tanto por romances “reais” assim. E juro, eu fiquei esperando algum dragão aparecer, ela [Emma] virar uma bruxa, ou ele [Dexter] ter dedos mágicos no lugar dos mamilos, pois me acostumei bastante à fantasia, e isso talvez seja ruim.
A arte da capa por si só já é atraente. Mesmo sendo utilizada uma foto promocional do filme, com a maravilhosa Anne Hathaway e o até então irrelevante Jim Sturgess num beijo sincero, terno e muito envolvente, não deixa de ser chamativo (embora eu prefira a capa original).
Nele, nos vemos dentro da cabeça tão complexa dos dois personagens principais: Dexter Mayhew e Emma Morley, que se conhecem depois da formatura, e passam a partilhar momentos bastante singulares. A partir daí, parece ter acontecido um tipo de ligação mística, inexplicável e abrasadora, que os aproximou de tal forma que é praticamente impossível passar o dia sem pensar um no outro. E em todo dia 15 de julho de cada ano, durante vinte anos, a história deles é contada pelo autor. E não pense que o fato de saltar de ano e ano, pulando várias partes da história dos dois é algo ruim. Na verdade, a criatividade de Nicholls nesse aspecto pode ter sido o grande ponto positivo na leitura.
Emma é uma personagem inteligente, irreverente, um tanto crítica e até sedutora ao seu modo. Dexter por sua vez, é um galã da faculdade, vindo de uma classe alta e bastante confiante de si mesmo, para não dizer metido. Dex e Em, Em e Dex. Um casal que tem muito potencial, e que é capaz de te prender muito durante a leitura. Eles são tão grandiosos, críveis e sinceros em seus sentimentos, que você parece conhecê-los, partilhar de seus sofrimentos, sentir o que sentem e entender o que pensam. É um ponto muito interessante, e difícil de encontrar hoje em dia. Isso somado à narrativa original, moderna, engraçada e que flui bastante bem, já te faz ir correndo comprar um exemplar.
O autor foi inteligente em conseguir mostrar todas as mudanças sentimentais, físicas e na vida pessoal dos personagens durante os anos que se passavam, e poucas lacunas foram encontradas. Eu conseguia visualizar tudo de forma fácil, pois ele foi bastante detalhista em relação a isto.
Um problema grande foi o exagero nas referências musicais, culturais, políticas e históricas que eram comumente encontradas, e que poderiam até mesmo enriquecer o texto, se não fossem usadas com tanta demasia. É preciso estar bastante inteirado de tudo para ter uma noção exata do contexto. Nas ambientações, por exemplo, era complicado, pois ele, algumas vezes, resumia a descrição à somente o nome de uma rua. Outro fator negativo foi a constante mudança de ponto de vista, que em alguns momentos me confundiu.
Achei bastante frustrante, e você deve entender do que eu falo durante a leitura. Todo o livro é bastante cru, embora muito engraçado, triste em muitos momentos, e parece muito a vida real mesmo. Talvez real até demais.
Ele não entra no meu TOP, mas com certeza foi uma boa leitura, bastante leve, com piadas muito bem pensadas, e se você é uma daquelas pessoas de faz lista das “coisas para se fazer antes de morrer”, acrescente “ler Um Dia”, pois vale muito a pena. Creio que farei uma releitura quando tiver com meu 30 ou 40 anos, pois realmente sinto que vai ter uma sensação nostálgica. ^^
Acho que acabei falando demais... ou não. Mas quero que entenda que você provavelmente não irá morrer de amores por Um Dia, mas com certeza ira adorar cada página lida.
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Aquele sobre mudar e blá blá blá




Querida eu...

As palavras pareciam morrer na ponta da pena. Mesmo que se esforçasse, a tinta simplesmente não se derramava sobre a superfície amarelada do papel, para formar mais uma daquelas frases de efeito bastante clichês que todo mundo sempre coloca em cartões de aniversário. Se sentiu mal por um momento, já que aquela tarefa deveria ser fácil por si só, ainda mais quando o destinatário era sua própria esposa, que convivia todos os dias com ele, e que conhecia tão bem quanto qualquer outra pessoa. Colocou a mão na cabeça e fechou os olhos. Era um homem vivido, no auge dos seus 50 anos de idade, na melhor fase da vida, como tantos diziam. Em sua jornada pelo mundo, frases inspiradoras eram frequentes, mas nenhuma parecia apropriada. Talvez a importância da pessoa que receberia aquele pedaço fino de papel amarelado, que logo depois de escrito seria amarrado com uma fita vermelha em um buquê de flores brancas, fosse tamanha, que nada já criado era suficientemente bom.

Suspirou, cansado, afinal o dia havia sido cheio. E cheio de uma forma ruim. Podia ser até aquele um motivo para a sua falta de inspiração, mas não conseguia se convencer. Preferia pensar que era a sua vontade de mudar, de fazer a diferença. Estava farto de receber e enviar mensagens tão comumente usadas. Os famosos “você merece”, “nesse dia tão importante”, “te amo demais” ou “tudo de bom para você”. Aquela mulher que vivera tanto com ele deveria estar cansada daquilo também. Podia apostar que em seu perfil do Facebook não faltavam coisas desse tipo.

Foi então percebeu que queria mudar. Não só mudar num simples cartão de parabéns, mas em tudo. Estava louco para sair do mundo padronizado que era o que vivia, e começar por algo tão relativamente pequeno era um bom ponto de partida. Desde novo estava preso nos padrões do que uma maioria hipócrita pedia. Nasceu assim, cresceu assim, mas não estava nem um pouco disposto a permanecer assim. Morrer assim. E desta forma, rápida e repentina, uma luz vinda de não se sabe onde, iluminou sua cabeça. E as palavras viram como chuva de verão, inundando toda a extensão do papel.

...amanhã vou inscrever você no Teatro. E numa aula de música (porque você canta muito mal mesmo). Afinal, você quer ser atriz de musical, não é mesmo? Mas seus pais nunca deixaram quando nova, e agora a “idade avançada” não permite. Mas me deixe dizer algo: se nós continuarmos a nos prender aos problemas (que são tantos...), nunca vai existir nada para se deixar de “legado”. Não é o que todo mundo quer? Deixar algo para que toda a humanidade no futuro se lembre de você, por algum feito realmente marcante? Estou falando num tom sarcástico. Mas é isso mesmo. Acho que você tem que ir pra Broadway e fazer seu show, para que daqui à uns 200 anos, alguns alienígenas que vierem jogar a Terra fora, depois de nós termos a destruído por completo, ache algum registro do que você fez. E acho que eu, como seu marido (nossa, sempre tive vontade de dizer isso), tenho a responsabilidade de te apoiar nisso. E além do mais, quero te acompanhar em alguma viagem à Paris, para apresentar um de seus shows. 

Você deve se perguntar onde estão os parabéns, e os blábláblá’s de sempre, mas acho que sua cabeça já está dormente de tanto ler isso. Só posso dizer que te amo, e o espaço vazio está acabando. Comprei um cartão pequeno demais...


E terminou o cartão, se sentindo tão completo que era impossível de descrever.
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Resenha: As Vantagens de Ser Invisível, Stephen Chbosky


“― Ele é uma figura, né?
Bob concordou. Patrick depois disse alguma coisa acho que nunca vou esquecer.
― Ele é invisível.”

Nome: As Vantagens de Ser Invisível
Autor: Stephen Chbosky
Avaliação: ★★★★★ ♥
Páginas: 223
Editora: Rocco

“Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe - a não ser pelo que ele conta ao amigo nessas correspondências -, que vive entre a apatia e o entusiasmo, tateando territórios inexplorados, encurralado entre o desejo de viver a própria vida e ao mesmo tempo fugir dela.
As dificuldades do ambiente escolar, muitas vezes ameaçador, as descobertas dos primeiros encontros amorosos, os dramas familiares, as festas alucinantes e a eterna vontade de se sentir "infinito" ao lado dos amigos são temas que enchem de alegria e angústia a cabeça do protagonista em fase de amadurecimento. Stephen Chbosky capta com emoção esse vaivém dos sentidos e dos sentimentos e constrói uma narrativa vigorosa costurada pelas cartas de Charlie endereçadas a um amigo que não se sabe se real ou imaginário.
Íntimas, hilariantes, às vezes devastadoras, as cartas mostram um jovem em confronto com a sua própria história presente e futura, ora como um personagem invisível à espreita por trás das cortinas, ora como o protagonista que tem que assumir seu papel no palco da vida. Um jovem que não se sabe quem é ou onde mora. Mas que poderia ser qualquer um, em qualquer lugar do mundo.”

Ninguém imagina o privilégio que estou tendo em poder resenhar o meu atual livro favorito. Sim, As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky, conseguiu a proeza de desbancar alguns clássicos que permaneciam invictos como meus livros prediletos. Até o presente momento me encontro sem reação diante do fim do livro. Não, livro não, obra-prima.
Toda a história é narrada por meio de cartas de um suposto Charlie, que dá a si mesmo e à todos os personagens do livro nomes falsos, para esconder a sua real identidade. Porém, o mais interessante nessas cartas, além da narrativa cativante, é o destinatário dela: você mesmo. Você é um amigo de Charlie, e acho isso envolvente, porque te trás para a dinâmica do livro, acaba integrando mais o leitor à obra, e é um detalhe crucial, que não pode passar em branco.
Nelas, o drama pessoal do personagem é narrado de forma suave, nua e até mesmo cruel. Charlie é capaz de te fazer, rir, chorar, querer quebrar tudo, e se apaixonar. A caracterização da sua personalidade é de tão forma crível que você parece tocá-lo. Não só ele, mas Stephen foi capaz de delinear de uma forma fantástica todos os outros seres que de alguma forma estavam presentes na vida do protagonista.
É o livro perfeito para qualquer um (embora eu ache, particularmente, que moralistas devam passar longe de As Vantagens de Ser Invisível, pelos temas fortes tratados, e pelos tabus, que podem até mesmo ofender certo tipo de pessoas): rápido, bem escrito, com uma trama real, e recheado de momentos que até mesmo são vividos pelos leitores. Em diversos momentos, detalhes e situações da nossa vida, são vividos por Charlie, e mexe realmente com o nosso emocional, reforçando a veracidade do personagem.
É um livro que parece abrir a sua mente, desvendando todos os pensamentos confusos no emaranhado da cabeça e transformando-os em palavras. O protagonista, mesmo sendo jovem e inocente (embora inocente demais para a idade, talvez pela época em que o livro de passa), possui um lado muito poético e filosófico, e abre espaço para questões polêmicas, com avaliações interessantes. Crítico, sedutor, fofo e emocionante. Adjetivos para As Vantagens de Ser Invisível são infinitos... infinitos como os próprios personagens.
Charlie era um garoto solitário e calouro no segundo grau, e tinha poucos amigos para recorrer nos momentos de dúvida (que não eram poucos), até que um dos únicos que partilhavam seus momentos pessoais acaba morrendo. Aquilo consegue abalá-lo emocionalmente, porém, abre portas para uma série de acontecimentos que o fazem passar de um simples novato, para um ser-humano especial, quando conhece Sam e Patrick, irmãos um tanto singulares, e os responsáveis por mudar as bases de sua vida calma e solitária.
Drogas, sexo, homossexualidade, tudo isso está impresso nas páginas do livro com uma dose à mais de crueza, o que nunca é um ponto negativo. É interessante avaliar o seu comportamento diante daquelas situações tão maduras para a sua idade, e visualizar de uma forma tão próxima os seus planos, medos e desejos, quando tudo é tão atirado em sua frente sem aviso prévio.
O final chega a ser surpreendente e possui uma pitada de dor, que nunca se faz ausente no decorrer da narrativa. Charlie narra de uma forma convincente e muito simples, e aproxima quem lê. Já estou com saudade de ler as suas histórias, de sentir na pele o que Charlie sentia, e chega a ser uma perda dolorosa, chegar ao fim dessa obra. Estou curioso pelo filme que já saiu, mas não tive a oportunidade de ver, e espero de todo o coração que cada sentimento do livro seja tratado no longa com o mesmo cuidado. Quero que as pessoas que saiam da sala de cinema, saiam reavivados, emocionados e maiores, da mesma forma que me senti quando concluí o livro.
Meu único problema foi o tamanho. Tão curto para algo tão grandioso. Podia passar semanas lendos e nunca me cansaria. Lindo!
Sem dúvidas uma leitura obrigatória para quem realmente quer se sentir infinito alguma vez.
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no fim dos seus 14 anos, que sonha em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.