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sábado, 26 de julho de 2014

sobre o hoje e o amanhã (talvez)





É engraçado o que venho escrevendo por agora. É como se fosse apenas o reflexo do que era antes.
Minha chama, parece que ela se apagou. Sobraram as fumaças, e essas fumaças são as poesias de hoje. Tudo o que escrevo são anagramas daquilo que já fiz antes.

Minha música, parece que ela se findou. Sobraram só os ecos, e os ecos das palavras que já escrevi outrora parecem ser a única coisa que sei agora escrever.

Meu filme, parece que ele acabou. Sobraram só os créditos, e eles sobem com os nomes de tudo o que já me inspirou um dia.

Agora eu quero alguma coisa pra sentir. Quero humanidade para preencher meus pulmões, insanidade para compor meus versos. Quero sentir as palavras escorrendo novamente, queimando cada célula do meu corpo, me fazendo renascer das minhas próprias cinzas.

Onde estão as minhas canções intermináveis?, onde foram parar? Onde ficaram as lágrimas, as noites sem dormir, os lamentos, os tormentos, os suspiros em meio ao caos universal que se condensava no meu peito? Eu sou o escravo que sente falta de suas algemas; eu sou a alma que corre livre pelos prados a procura de uma nova maldição; eu sou vazio do presente que clama pelo medo e a dor do passado; eu sou aquele curado que anseia novamente a enfermidade; aquele aleijado que deseja retornar à cadeira; aquele... aquele... aquele o quê? Não sei dizer.

Sou poeta sem palavras. Toda a beleza da minha dor se esvaiu. Todo o caos da minha alma se acalmou. Toda poeira da minha memória se assentou. E no retrato de mim mesma eu fecho os olhos com calma e dedilho o teclado como se fosse um piano, só que o que sinto quando escrevo é, hoje, apenas o eco do que fora um dia.

Mas esse é o hoje. Apenas o hoje.

Talvez o amanhã me traga novas palavras.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

cinzas

 
É... A poeira vai se assentando aos poucos. Cobre os móveis em tonalidade nova, torna a televisão à sua cor original: cinza. Deve ser pra combinar com o céu. Deve ser pra combinar com a tempestade solta dentro de mim. Esse meu dadaísmo interno, surrealismo natural. Sou parnasiano, mas nem ligo para a estética desses meus sonetos descompassados e sem rimas ricas.

Você não vem mais, não é? Acho que eu deveria ter descartado essa hipótese há muito tempo. Você deve ter se perdido, deve ter se deixado levar pela correnteza cheia de pessoas vazias... Você deve ter se deixado levar pela frente de ar, afinal, você sempre foi leve ao ponto de flutuar. Escapava sempre pelos dedos; fluidez natureza dos  líquidos, você dizia, me citando Bauman e eu feito bobo ficava ali, contemplando seus lábios articularem cada palavra com um sorriso de prazer...

Eu sempre tive essa mescla de desejo e amor, não é? Não sabia qual era qual. Não sabia se era o impulso de destruição contido naquele ou a preservação sufocante deste. Nunca soube.

Mas o que é o saber racional nesse mar turbulento que é o sentimentalismo? Eu estou muito sentimental ultimamente, amor, tão sentimental que fico me lembrando de você porque ainda, e só ainda, não tem ninguém mais recente. Eu nem teria visto o tempo passar se não fosse a poeira nos móveis.

De repente tudo estava cinza, como se o tempo deixasse minha vida mais grisalha. Velhice sentimental. Emoções esgotadas. Às vezes elas dão uma martelada, mas é só pra colocar as coisas de volta no lugar. Elas não cabem mais aqui, sabe. Quando aparece, eu fico completamente deslocado, completamente fora de contexto, num sofrimento que não tem absolutamente nada a ver com o que está acontecendo.

Nem me lembro mais de como seus cabelos esvoaçavam ao virar as costas, me convidando a te seguir. Só lembro que gostava disso. Nem me lembro de como o tecido fino fazia minha mão deslizar pela sua cintura macia, como uma metáfora perfeita do quanto você teimava em ser escorregadia. Sério, eu não me lembro.

Eu puxo da memória essas coisas que eu sei que aconteciam, e puxo da memória a sensação, mas parece mais que estou imaginando do que recordando. É difícil até mesmo me manter fiel aos acontecimentos, tipo, será que ela fez isso?, ou será que ela disse aquilo?, quais foram mesmo as palavras?, dá pra repetir, por favor?. Um deslize de alguns milímetros para a direita e já estou com lembranças erradas e confusas. E então tenho que ficar organizando as coisas, pensando: primeiro ela fez isso, depois fez aquilo, que é pra eu imaginar com uma precisão capaz de fazer parecer uma lembrança. É como se você nunca tivesse existido.

Mas você existiu, não é? Eu não creio que tudo aquilo que eu não lembro tenha sido somente invenção, uma peça da minha cabeça. Não, acho que você foi um pouco além disso. Mas eu nem me lembro da tua boca colada a minha. Acho que o tempo só passou para mim, pelo visto. Dizem que a gente esquece. Esquece o que mesmo? Dizem que com o tempo, a gente esquece o tempo, esquece o tempo congelado em memórias, nos esquecemos...

Você, agora, me parece uma ilusão dos sentidos. Se eu arrancasse os meus olhos, te veria ainda? Como você se chama, amor? Por que não pega a minha língua para si? Eu permito. Eu não me lembro quem você é, mas deixo você levar mais um pedaço de mim para a viagem. Deixo me amputar dessas lembranças tatuadas na carne, você preferiria assim? Como você gosta do café? Eu prefiro assim, tudo conservado em um lugar mais afastado, lá no fundo da mente, nas prateleiras mais altas de casas sem escadas. Esqueci. Poesias, sentimentos entranhados em carne, tudo... Tudo que é sólido desmancha no ar, mon amour.

Não adianta ser sólido se está quebrado, meu bem. Não adianta ser vivo se está definhando, minha querida. Não adianta ser doce se está podre, meu anjo. E era isso o nosso amor. Um projeto de algo bonito, tão unilateral, tão quebradiço, escorregadio, doente... eu tentei salvá-lo, mas nunca conseguiria fazer isso sozinho. Eu precisava de você, mas onde estava? Porque estar contigo era passar as noites sozinho sem saber se o amanhã seria seu ou da solidão. Era tentar me agarrar a cada momento como se fosse o último – porque bem que poderia ser. E era. Eram muitos os últimos momentos. Era tanto ponto final que virou reticências. Era o constante sentimento de perda.

Você é perda. Nunca foi achado.

Você é mar bravio. Nunca foi acalmado.

Você é encomenda. Um pacote extraviado...

Você é o amor na sua forma mais desesperadora. Mas até pra esse amor o tempo passa, a memória gasta, e a gente vai deslizando pela fluidez que você mesma criou. E eu, meu bem, que fiquei de coadjuvante na nossa própria história, estou tentando protagonizar minha vida sem você.

Fizemos do nosso amor ou desejo, o que preferir, o nosso monólogo. Que gozado, não? Nunca entendi essa tua natureza líquida. Não me adaptei. Não fui globalizado. Não via esperanças nisso e olha só quem se adaptou melhor às feras! Mas a tua fluidez evapora rápido e eu não sei mais se você sequer existiu (vou insistir que sim, para efeitos lógicos).

Você quebrou todas as pontes, até mesmo as pontes bambas das minhas sinapses, para não precisar voltar. Meus pensamentos rompidos, interrompidos e interpelados. Tememos tanto o fim que não percebemos os créditos que subiam e atropelavam tudo que estava no caminho. Agora restam cinzas para o carnaval; talvez eu deixe isso até a próxima quarta. Talvez espere apenas a segunda, para que tudo volte a me assolar a mente.

Um dia esqueço mesmo., deixa as cinzas assentarem nos móveis para combinar com o céu atípico para manhã de carnaval. Deixe-me recolher os fragmentos de lembranças e o pouco que restou. Vou atropelar a avenida em samba puxando o bloco do eu sozinho; me embebedar no bar cheio de pessoas vazias; me corromper nas ruas... Farei algo., e num outro dia de porre, num bar qualquer te escrevo algo, até perder o costume. Até encontrar outro destinatário. Até me encontrar...

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sobre essas coisas todas que não são amor



Era tanta coisa, que não era amor.

Era triste te ver sumir todos os dias e ficar meio vazia e sem saber o que fazer. Era chato toda essa hesitação toda vez que me dava vontade de bater um papo contigo. Era um sufoco enorme que eu queria reprimir, porque eu achava que reprimir era resolver.

Ledo engano!

Era um vai-e-vem de coisas velhas na memória e na falta dela, era uma ânsia ou um vício, o meu próprio modo de suplício, era uma coisa errada que esmagava e eu deixava... e eu deixava... Era silêncio, era choro, era vela, era um pouco de cautela, pra poder tentar lidar com você. Era noite, era dia, era o limbo e o indefinido. Era foda.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era dúvida ou pornografia, era uma nova forma de selvageria.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era o grito nunca gritado, era só pra te deixar irritado, era só fogo no rabo mesmo. Era tudo puro engano, foi um acidente que não fazia parte do meu plano.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era ficar de madrugada fazendo poesia porque não dava pra fazer de dia.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era ouvir a própria voz e não saber de onde vinha, era ter que lidar com tudo isso sozinha.

Era tanta coisa, que não era amor.

Era cisma, era tormento, era tentar esquivar-me do lamento. Era dispersão a todo momento, era vontade de brigar e de odiar com força.

Era tanta coisa que eu nem sei se ainda é!

Era. Tanta. Coisa.

Era tanta coisa que eu nunca ousei chamar de…

Ninguém entende, ninguém dá nome, ninguém sabe o que fazer ou onde enfiar.

(eu poderia te dizer onde enfiar...)


Acho que é necessário que, pra saber lidar com isso de alguma maneira, criemos termos e definições pra tudo isso. Pra esse monte de coisa que não era amor.

domingo, 24 de novembro de 2013

Fuga

Fuga


         Declaro hoje oficialmente encerradas as tentativas vãs de ser um clichê. Não nasci para ser criatura mágica, para estar preso em contos. Não nasci para viver nas milhares de interpretações de mentes alheias a verdade. Nasci de carne osso, nem trapos nem terno.
E
          Na besteira de crer ter asas até tentei ser trapos de terno, deixando-me emendar com os termos desconexos que bem entenderam, os quais jamais fizeram sentido algum, mas agradavam a quem olhasse. PECADO CONTRA MIM!
E
          Não apenas eles pecam contra quem sou como peco contra o que eles acreditam. Peco ao engana-los, ao fingir me misturar, peco ao não cultuar suas verdades, únicos deuses sobre terra, única coisa questionável.
E
          Continuarei pecando! Continuarei porque me recuso deixar de ser alguém, mesmo que esse alguém não seja eu. Pecarei, pois mais me vale uma vida pela metade que vida nenhuma, que outros poderiam apelidar de inteira.
E
         Pecarei porque prefiro vielas, desprezo, moedas, ruas e trapos metafóricos que reais. Declaro hoje, oficialmente, mais um dia de hipocrisia.Viva(o) minha felicidade!  Viva(o) minha tristeza! E, principalmente, viva(o) minha tristeza por ser um hipócrita feliz .

sábado, 23 de novembro de 2013

Se eu pudesse te amar...

"Todos esses meses de autocontrole, de recusa do amor, 
resultaram exatamente no oposto:
 deixar-me levar pela primeira pessoa que me deu uma atenção diferente."
(Paulo Coelho)


Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse devagarinho, mas seria urgente, porque é urgente a falta de ti ao meu lado. Seria urgente como a saudade que não me permite esquecer-te nem mesmo durante as aulas de Geografia, quando me perco no mundo ao tentar me encontrar no mapa do teu corpo e imaginar-me a aventurar-te.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse “de mentirinha”, só para poder esquecer com mais facilidade depois de te ver partir. Mas seria de verdade, pois não aprendi a amar pela metade. Meu amor é inteiro e exato, porque eu sempre gostei de Matemática e de me afundar nos números como me afundo em você.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse por querer, mas seria sem querer, porque do teu lado perco o controle de mim com a mesma facilidade com que perderia o controle da TV, se eu a assistisse. Mas não assisto, em vez disso assisto a ti, a (des)amar-me e desarmar-me, para desespero do meu coração.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse constantemente, só pra não ter que sentir a saudade que hoje me dói o peito. Mas seria inconstante, porque és de Tão, Tão Distante, e não tem dó do meu amor, que há muito tempo já levou, surripiando-o como um ladrão.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse todo dia, mas seria só quase sempre, porque meu amor é contraditório e também quer te odiar. Então quase sempre eu te amo e quase nunca eu te odeio; quase nunca eu odeio a forma como você me machuca e quase nunca eu odeio a forma como você me corrói.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse correspondido. Só para evitar tanta dor. Mas não seria, seria amor de um só gume – porque amores possuem gumes –, e meu amor é egoísta. Não pensa em você, só pensa em mim. E se todos os amores do mundo forem egoístas, mesmo assim eu não teria chance, porque o Universo não conspira a meu favor e nem gira em torno de nós dois.

Se eu pudesse te amar, gostaria que fosse simples, mas seria complexo.  Porque não existe raiz de número negativo, e eu sou negativa, você é a raiz e o nosso amor é imaginário.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

o jeito dos pássaros que não sabem dizer eu te amo



por érica prado & gilson santiago


Se ela me amarra e a única coisa que posso sentir é uma mescla de prazer. E depois a dor. Sou aquele cão que te espera todos os dias, mesmo que você não dê a mínima pra ele. Ela me amarra e eu não me liberto. Me enforco cada vez mais na corda com a qual ela me prende. Sim, porque quando não está usando, ela pendura a corda no cabide e ficamos pendurados pelo pescoço.

Se ela me guarda no armário, se ela só passa os olhos em mim e me arrasta para sua tempestade, o que posso fazer? Ela nunca me atou as mãos. Mas o nó da garganta já me serve como amarras. Ela me prende.

Eu ensinei a libertar.

E enquanto isso ela voa, porque nasceu livre. Porque querer prendê-la é burrice. Ela voa, vai longe, depois volta pra se alimentar no meu ninho. Ela voa e eu nem sei se sou passarinho.

Oh, mas eu não voo. Exceto quando penso em me atirar da janela. Quando o chão me abraça forte. Às vezes, tolo que sou, não sinto as amarras e acho que sou livre. Às vezes, acho que ela deixa as cordas tão frouxas que eu escaparia fácil. Mas para onde iria? Poderia vagar por aí, em busca de outros copos, de outros corpos. Mas qual frio me aqueceria e me esqueceria em seguida? Sei que sinto as amarras frouxas, mas não me atrevo a fugir. Gosto de me prender.

As amarras fui eu mesmo que atei... Pra ter algo que me liga a você. Você não pode me deixar só... não pode. Eu sempre espero que venha, pro teu próximo (re)pouso em meu seio. Me faz teu ninho e me aninha em você.

Acho que sou árvore. Frondosa árvore, quando você pousa, que me atei a esse solo. Fixei raízes prometendo nunca mais partir. A vontade assola a porta, às vezes. Mas penso no passarinho que você é e deixo-me preso aqui. Gosto de ser assim, embora saiba dos riscos de ser árvore quando a tua chuva me falta ou quando você me faz falta, me permito ser assim. Me permito, mesmo sabendo que tu voas por outras árvores.

Sempre se abrigando em outros ninhos. Só voltando quando sente falta do teu ninho. E eu, com todo carinho, te aninho em meu peito e deixo que faça morada. Um dia talvez canse de procurar os ventos do sul e se aquiete. Talvez, por acidente, machuques tua asa e eu tenha de cuidar até que tu mais uma vez partas sem me dar a mínima explicação. É esse o jeito dos pássaros que não sabem dizer eu te amo.

Mas você ama? Você me ama, passarinho? Eu não sei. Posso ser teu refúgio, teu abrigo enquanto chove. Enquanto vivo. Posso ser abrigo. Posso ser proteção, posso ser tudo. Posso ser tudo, menos pássaro. Só não posso te prender. Eu sempre te ensinei a libertar...

Passarinho, não voa agora, que agora chove. Passarinho, não se demora, não vai embora, que ainda não é hora de me fazer chover de lágrimas. Passarinho, não me abandona, aqui já tem o que você precisa. Passarinho, não voe tanto, quero o seu canto pra adormecer. Passarinho, não voe tanto, que eu sem seu canto sou medo e pranto e a ausência tua faz a dor nascer. Passarinho, você me ama? Só um pouquinho já vai bastar. Passarinho, diz que me ama,
de
va
ga
ri
nho,
pra dor passar.

Devagarinho, passarinho. Não voa. Acalenta teu calor que eu te aqueço. Não voa, porque eu não te esqueço. Não voa, porque sem você, os fantasmas me assolam. Passarinho, não quero te prender, mas não voa. Fica perto. Lá fora chove, faz teu ninho pra eu não ficar sozinho. Me canta uma história que eu ouço, só por gostar desse teu piar baixinho. Pia bem pianinho até eu adormecer.

Te deixo cultivar o que quiser em mim. Te deixo o ninho. Mas não me deixa sozinho. Eu esqueci como é ficar só e não quero lembrar. Ah, passarinho! Voa perto e lentamente. Não vá pra longe. Eu que te ensinei a libertar, me prendi em você. Você é livre, mas fica. Não sei o que fazer sem tua música pra me acordar. Ah, passarinho, se tu me amas, ainda que um pouquinho, ama-me baixinho.

Ama-me lentamente, sob o céu que tanto amas. Sou teu céu, passarinho. Voa em mim. Leve, me leve contigo, porque bebi dor durante a sua ausência e essa abstinência não me consola. Mata-me passarinho, com esse teu voo baixinho, desinteressado em meu sofrimento. Meu sofrimento que sempre transforma em canção no teu bico.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

manual do abandono



Se for abandonar, abandone. Mas não é assim que se deve ir embora. Se afastar aos poucos só vai prolongar sua partida. Se for, que vá de vez; grite, brigue, bata a porta e não volte nunca mais. Não tente se afastar aos poucos. Mate-me de fome, mas não me alimente com migalhas.

Se for abandonar, vá de vez. Não existe uma maneira de fazer isso sem me machucar. Você não vai conseguir me proteger. Se não quer me ver chorar, me fala, que eu não faço isso na sua frente. Mas não prolonga, não insiste, não me faz pensar que a gente ainda existe.

Se for abandonar, avise. Não saia na calada da noite após me dar um beijo pra depois voltar de manhã. Não arranje desculpas quando o que eu quero é uma explicação. Não me deixe esperando, não me prometa nada, se é isso que quer basta dizer. Basta dizer...

Se for abandonar, abandone. Abandone, mas não fuja. Fugir pra quê? Te deixo livre pra ir embora na hora que quiser. E se a ideia é fingir que está aqui pra poder voltar sempre que quiser, também não tem problema. Se você não sabe se vai ou se fica, eu sugiro ficar. Mas é ficar mesmo, ficar de verdade, não ficar como alguém que não quer se levantar da cadeira pra não perder o lugar caso saia.

Se for abandonar, vá correndo. Não me mate aos poucos de veneno fraco. Apunhale, maltrate, despeje seu abandono de forma torrencial, me esmague, me dilacere, mas olhe na minha cara enquanto faz isso. Olha bem pra mim e me diz o que foram todos esses meses. Tédio?

Se for abandonar, tenha a coragem de abandonar de frente. Você não vai conseguir ir embora sem ser notado. Não dá pra sair à francesa, eu estou olhando pra você.

Mas se for abandonar, meu bem...


Se for abandonar, mude de ideia.

sábado, 12 de outubro de 2013

Você não merece este texto.



Queria uma poesia pra você que fosse assim, do tipo que você não merece. Floreada de tantos garranchos que por um acaso se borram por não saber nadar num mar salgado que escorre do olhar. Poesia líquida que goteja em papel também é poesia. Se eu chorasse seria melhor? Se eu chorasse seria pior? E se eu chamasse você na sexta feira pra gente se repetir, que tal? Fazer letras navegarem de leve depois de você derreter a neve do meu olhar. Vamos competir pra ver quem é mais inconstante e eu aposto com Lula o meu dedo mindinho que é você.
Mas você não merece. Será que é por isso que eu não choro? Não faz sentido chorar. Não faz sentido nada disso. Faz chuva, faz sol, faz com que eu derreta em solidez; faz nó na cabeça, faz doer, faz sangrar, faz eu pirar de vez; faz sexo, faz de conta, faz eu ser mais sua, faz tudo!
Só sentido é que não faz.
E enquanto eu piro e pioro me vem menos coisa à cabeça e mais ao papel. Mas a inspiração que você me traz já quase se finda. Por que tenho de escolher entre você e poesias? Quantas poesias você pode ainda me render?
Agora vejo – fiz tantas perguntas neste texto e nenhuma delas teve resposta. E nenhuma delas quer resposta. Elas pairam, como nós, que ficamos assim sem esclarecimentos para os acontecimentos soltos e irracionais. É isso que somos, irracionais! Agimos com todo o impulso dos nossos momentos, programados, calculados e agendados, mas, ainda assim, impulsos. E todas as nossas possibilidades são consequências. Não temos planos, não temos enganos nem ilusões. Só a infindável corda bamba que é o futuro mudando de direção a todo momento.
Eu não sei todas as suas verdades, nem você sabe todas as minhas. Talvez a gente pudesse marcar um dia pra se ajustar e deixar tudo mais claro. Tirar nossas névoas, sanar nossas dúvidas, pagar nossas dívidas, e então seguir como planejávamos antes. Voltar a ser o que éramos parece um desejo tão ingenuamente utópico quanto possível.
Será que morremos ou só estamos confusos? Você passa tanto tempo tentando se encontrar que a gente desencontra. Você passa tanto tempo tentando fingir tudo o que não é que acabo sem saber em qual ponto foi que começou a atuar pra mim também. Sinto falta da sua sinceridade que junto com a minha só nos trouxe problemas. Sinto falta da ilusão de que te entendia um pouquinho, porque agora o nada me faz velejar no vazio.
Você mudou tanto... Não ligaria se me contasse mais uma vez os seus desejos e os seus podres e os seus medos e os seus dias, como foram? Me deixe atualizada. Mas você mudou tanto...

Eu não conheço mais você.

sábado, 21 de setembro de 2013

sobre (res)sentimentos oblíquos e dissimulados



Não posso querer muito. Dom Casmurro foi quem me ensinou a ter certeza; Cinderela me ensinou a fazer durar; Wherter me ensinou a ser feliz; Humbert me ensinou a escolher quem amar; vivo sob a cartilha de Dorian Gray: Castro Alves escreveu minha liberdade...
Cadê meu Escobar? Ele está com Capitu agora?
Oh, Bentinho, me coloque pra dormir. Quanto tempo falta pra eu perder ele de vez? Me faz que nem o Jorge que é Amado. Não quero ser aquele trapiche abandonado onde só mora quem é sem lar. Não quero ser assim sempre de lado esperando ele vir me procurar...
Quem é meu Escobar? Um silêncio, um receio talvez. É difícil um sentimento por vez. Talvez ninguém traiu ninguém. Talvez, talvez, talvez!
Oh, Bentinho, me dê uma certeza que em troca rezo três ave-marias!
Quanto tempo pode durar uma história? Quanto tempo falta até meia noite? Me diz, Cinderela, em quantos pés cabe esse sapato!
Alguém me diz...

Quem é você, Escobar, pra quem olham esses olhos tão oblíquos? Que os Outros o levem!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Alice

Este conto é inspirado e baseado na música Alice, do Kid Abelha.

Alice estava tão furiosa quando me acordou que quase se via a imagem do demônio refletida em seus traços já gastos pelos 30 anos de vida. Sua vida baseada em extremos emotivos a tornava marcada, com rugas que vastavam seu rosto e só tornava cada vez mais insuportável olhá-la diretamente. Sua forma física era só mais um motivo contra qualquer envolvimento: mau-hálito, grosserias e sarcasmos completavam a lista de defeitos infinitos. Em resumo, Alice era, é e provavelmente sempre será (mesmo que seja preciso escrever em letras garrafais em seu túmulo para que isso permaneça intacto para o resto do tempo) a pessoa mais desagradável do mundo. Mas, mesmo com todos aqueles empecilhos que repeliam pessoas todos os dias, mesmo com o jeito dela de me acordar durante a madrugada para ir para o trabalho, eu a amava incondicionalmente, tanto, que chega doer, que chega odiar.
Ela não disse nada após me balançar violentamente, se privou apenas á um movimento brusco de dar as costas e se sentou no lado oposto da cama, encima da mancha amarelada de suor que ela contribuía no aumento todas as noites. Sentada, com sua postura incorreta, Alice escrevia o que deveria ser o vigésimo bilhete de despedidas no último mês. Eu não conseguia enxergar do lugar onde eu me encontrava, mas provavelmente eu leria alguns minutos após a saída dela para o trabalho, as mesmas letras garranchosas compondo aquela frase que parecia ser seu slogan: “Vou viver o mundo que eu mereço. Adeus.”. Não resisti a um suspiro e cocei os olhos inchados, olhos de quem não dorme com a namorada que ronca a noite inteira.
- Alice, você não quer isso de verdade. Digo, não pode ser sério. – Eu sabia que ela me odiaria por aquilo. Alice não suporta ser subestimada. – São dez anos! Dez anos de tanto amor que não sei como coube em mim! Você precisa parar de esquecer-se do amor, do meu amor por você!
Sua reação foi tão previsível que caí para o lado novamente, deitando a cabeça no travesseiro: nenhuma resposta daquela boca fina e torta. Eu estava tão irritantemente cansado daquilo que faltava pouco para deixar escapar um “Até a vista, Alice.”, mas eu ainda não tinha perdido o juízo. Eu jamais arriscaria perder aquele estorvo, aquele problema mal-humorado que puxava todo o edredom e me deixava com frio durante a noite. Dizem que a liberdade é azul, mas todo céu já foi nublado. Ela era as nuvens gordas e negras do meu céu, mas mesmo que me deixasse escuro e morto, trazia chuva pros meus jardins, e me florescia alegria. Era um amor masoquista.
Minha namorada continuava a rabiscar, provavelmente com a intenção de me criar expectativa, formando no papel, algo que eu imaginava serem apenas traços indefinidos com o objetivo de deixar o post-it amarelo ainda mais horrendo. Afinal, era assim que tudo com ela ficava. Um dia ensolarado na praia podia se tornar uma visitinha ao inferno quando se estava do seu lado; uma festa na casa dos amigos (dos meu amigos, já que eram escassos os dela) se desenrolava num desastre sem tamanho. Alice possui uma única regra básica de vida: ser desagradável, não importa o que custar. Só o que eu nunca consegui entender, é a força que me faz, mesmo com todas as brigas e desavenças, não conseguir me separar, ou pior, ter medo quando ela – mesmo que por capricho – ameaça ir embora.
- Você é tão sincera que me assusta. – Divaguei, por um segundo, lutando contra o sono. Aquilo era mais para fazê-la se sentir bem, do que a própria verdade. – Nenhuma outra mulher seria capaz de acordar o namorado trinta e cinco em trinta dias no mês para avisar que ele não passa de um monte de merda. – Ela percebeu a dose de sarcasmo, e quase grunhiu, mixando com seu jeito cavalar de ser. – E olhe só, o monte de merda te adora mesmo assim. Eu arrisco afirmar que o mercado de homens não anda de tão alta qualidade
Dei uma pausa, enquanto o quarto permanecia mudo.
- Ah, qual é, rasga esse post-it e sei á, pede uma folga. Vem dormir mais um pouco comigo, vem. Eu estou cansado, mas quem sabe, se você pedir com carinho. – Minha risada não convenceu nem a mim, nem a ela, e foi o estopim para causar uma saída brusca da minha namorada do quarto. Ela largou o bilhete encima da escrivaninha (longe demais para que eu precisasse levantar para ler) e eu escutei a porta de vidro da frente se bater com força.
Não me levantei para ver o que ela afinal havia escrito, e só me cobri com o edredom. Lá ia-se ela mais um vez, levando tudo consigo: toda ironia, toda falta de carinho e desprezo. O seu poder de atração era tão grande, que o imã carregava até mesmo meus sorrisos, meu afeto. O grande espaço por ela ocupado completava os buracos recortados da minha alma.

E eu só rezava baixinho, esperando saber se eu a veria hoje, amanhã ou nunca mais.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Supernova



As violetas
Algumas guerras são feitas de fogo, outras tantas de palavras, de travesseiros. Mas a que Ele vivia não podia se desenrolar em armas, ou vencer por travesseiros. Sua guerra era profunda, incutida no seu ente, enterrada fundo na parte invisível do corpo. A sua guerra era feita de razão. Uma razão tão peculiar, que podia se virar até mesmo contra o próprio dono. Afinal, não estava Ele lutando o tempo inteiro consigo mesmo?
                Outro fato curioso sobre guerras, é que elas muitas vezes não possuem motivos definidos para sua existência: apenas questões políticas, morais, ou pura diversão (no caso dos travesseiros), tudo junto. Mas essa que Ele havia criado podia ter um nome, de tão claro que era seu motivo: cegueira. E embora a palavra possa remeter a significados subjetivos e mensagens subliminares, não passa de um sentido cruel e literal. Era cego e fraco, e muito provavelmente um ser estranho e feio. Não possuía nenhuma atrativo para conquistar um coração, pelo contrário, parecia sempre suscetível à repelir quem quer que se colocasse em seu caminho. Mas Ele pouco sabia disso, não conseguia entender a palavra “feio”, e “estranho” também não fazia muito sentido. Afinal, para o Garoto, a própria existência é bela.
                Mas o campo de batalha não era menos sangrento só porque não entendia aquelas palavras. Ele lutava internamente pois estava apaixonado. E não podia ver se Ela se encontrava do mesmo jeito. Não ver com os olhos reais, mas com sua própria mente. Sabia tanto sobre Ela, mas não podia estar certo sobre a reciprocidade daquele sentimento. Era desesperador, um convite ao sofrimento. Mas aquele dia na escola, Ele falou com a Menina, com a Cega.
                - Você sabe o que é amor, Camille?
                - Eu posso ser cega, Miguel, mas eu entendo do que sinto. Os anos que meus olhos permaneceram no escuro me fizeram enxergar dentro de mim, eu acho. – Ele reconhecia quando Ela ria.
                - Mas você já amou? Eu digo, para saber o que é isso...
                - Você mesmo pode me responder. Você já amou, Miguel? Já sentiu a ponta dos dedos formigando, ou a sensação de cair do mundo, de parar no tempo? Pois eu estou sentindo agora.
                Seu coração quase saltou pela boca, quase que a alma foi grande demais para a caixa, e mal pode se conter e ficar imóvel. O Garoto não acreditava que a Garota sentia o mesmo que Ele.
                - P-p-p-or que diz isso, Camille?
                - Porque amo a vida, amor viver...
                A luz negra de apagou.
                -... porque amo você, Miguel.

As violetas não murcham
Ver, que nunca fora um problema, tinha se tornado um menor ainda para Ele. O Amante não parecia precisar enxergar nada, seu mundo era Ela, toda sua pele, sorrisos e abraços. Só queria tocá-La conversa-La e sentir que Ela se sentava ao seu lado na grama. Os dois Apaixonados não podia ser mais felizes, não cabia mais prazer naquelas Formas, mais amor poderia explodi-Los. Dois Sonhadores dançando na escuridão, duas sombras voando pela noite, rasgando o dia e trazendo a lua para dentro, tornando os buracos negros do universo, portos completos, faróis que guiavam sonhos.

E assim se arrastou o primeiro mês juntos, de olhos fechados, de sorrisos abertos.

As violetas não murcham, mas queimam
Ele não podia ter escolhido melhor lugar para se encontrarem: onde tinham se entregado ao sentimento, o quarto dEle. O aniversário de um mês de namoro, as bodas negras, já haviam começado uma hora atrás, e toda a comida já estava sendo ingerida. Os dois se encontravam deitados um sobre o outro na cama, escutando o silêncio que zunia, amando cada um a respiração do outro, a presença do outro. Até que a Cega quebrou o silêncio letárgico:
                - Você me acha feia?
                - Ah, qual é, Camille, como eu poderia te achar feia?
                - Sim, porque você é cego.
                - Não, porque eu te conheço o suficiente por dentro, e a sua alma é a mais linda que existe. – enlaçou seu corpo com os braços e permaneceram quietos por um curto tempo. – Onde você quer chegar com isso?
                - Você nunca teve vontade de ver, Miguel?
                - Não. – Sua resposta foi ríspida, feita de uma expressão facial cerrada, de quem gosta de fugir de assuntos específicos.
                - Nunca? – Seu tom de voz, podia-se dizer, era até mesmo sonhador. Cegos também sonham.
                - Não. Eu não tenho vontade de ver, você bem sabe. Existe um mundo cruel fora do véu, e não é algo que eu aprecie sonhar em ver. E meu mundo é você, sabe disso.
                - Mas tudo é tão fantástico, que não se pode não ter curiosidade de desbravar o universo!
                - Bem, eu não tenho. E olhe, estou vivo, mesmo sem nunca ter visto nada. E você também.
                O silêncio desta vez foi doloroso, uma cicatriz que se abria devagar.
                - Ah, Camille, você tem mesmo vontade de enxergar? – Ele disse, um misto de reprovação e ironia.
                - Ah, não, claro que não... – sorriu amarela assim que contou aquela mentira. – Mas, Miguel, preciso te contar uma coisa.
                Ele só fez esperar até que ela dissesse:
                - Eu vou fazer uma cirurgia essa semana... Eu vou começar a ver.

As violetas não murcham, mas queimam e se tornam cinzas
Haviam se passado semanas desde que Ela havia feito a cirurgia, e Ele finalmente poderia vê-La, ou melhor, encontrá-La. Seria ela quem poderia vê-Lo.
                Os pais da Garota abriram a porta com sorrisos e o acompanhou até o quarto dEla. A Namorada estava lá deitada na cama, e embora ele não visse nada, sentia o cheiro de infelicidade. Era um cheiro forte, de pólvora, de mina que vai explodir sobre os seus pés ao próximo passo. Eram lágrimas. Os pais deixaram o cômodo, e permaneceram os Dois, afogados somente no ruído dos carros passando na rua por algo que pareceu levar anos até que acabasse.
                - Você está bem? – Aquela pergunta pareceu apropriada.
                - Não... quer dizer, sim.
                - Então... como é, você sabe, ver?
                - É desesperador, é luminoso e cheio. É confuso e tão... feio... Tão feio que finalmente entendi o que é.
                - Feio? Mas... eu pensei que...
                - Você é feio, Miguel... – Sua voz estava embargada, e Ela já falava mais alto, o choro tornando as palavras, cortinas despedaçadas. O tempo era sugado pela boca da Menina, enquanto ela se enraivecia. - ...tão feio. Eu! Eu sou pior ainda! Tenho esse rosto deformado! Essa barriga gorda! Esse mundo não é belo! O que se tem para ver nessa droga?!
                - Não, Camille, você é... - assim que se aproximou da cama para consolá-La, ela o empurrou.
                - Sai daqui! Sai daqui! Sai daqui...

                Deixou a casa trêmulo, e não havia parado de chorar até chegar em seu próprio quarto. Nem ali as coisas estavam estáveis: tudo desmoronava, quebrava-se, liquefazia-se. Era o inferno, definitivamente, o sofrimento eterno. Deitou na cama para dormir, atormentado ainda, quando teve seu primeiro pesadelo, o de que na verdade nunca fora cego na vida.