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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Alice

Este conto é inspirado e baseado na música Alice, do Kid Abelha.

Alice estava tão furiosa quando me acordou que quase se via a imagem do demônio refletida em seus traços já gastos pelos 30 anos de vida. Sua vida baseada em extremos emotivos a tornava marcada, com rugas que vastavam seu rosto e só tornava cada vez mais insuportável olhá-la diretamente. Sua forma física era só mais um motivo contra qualquer envolvimento: mau-hálito, grosserias e sarcasmos completavam a lista de defeitos infinitos. Em resumo, Alice era, é e provavelmente sempre será (mesmo que seja preciso escrever em letras garrafais em seu túmulo para que isso permaneça intacto para o resto do tempo) a pessoa mais desagradável do mundo. Mas, mesmo com todos aqueles empecilhos que repeliam pessoas todos os dias, mesmo com o jeito dela de me acordar durante a madrugada para ir para o trabalho, eu a amava incondicionalmente, tanto, que chega doer, que chega odiar.
Ela não disse nada após me balançar violentamente, se privou apenas á um movimento brusco de dar as costas e se sentou no lado oposto da cama, encima da mancha amarelada de suor que ela contribuía no aumento todas as noites. Sentada, com sua postura incorreta, Alice escrevia o que deveria ser o vigésimo bilhete de despedidas no último mês. Eu não conseguia enxergar do lugar onde eu me encontrava, mas provavelmente eu leria alguns minutos após a saída dela para o trabalho, as mesmas letras garranchosas compondo aquela frase que parecia ser seu slogan: “Vou viver o mundo que eu mereço. Adeus.”. Não resisti a um suspiro e cocei os olhos inchados, olhos de quem não dorme com a namorada que ronca a noite inteira.
- Alice, você não quer isso de verdade. Digo, não pode ser sério. – Eu sabia que ela me odiaria por aquilo. Alice não suporta ser subestimada. – São dez anos! Dez anos de tanto amor que não sei como coube em mim! Você precisa parar de esquecer-se do amor, do meu amor por você!
Sua reação foi tão previsível que caí para o lado novamente, deitando a cabeça no travesseiro: nenhuma resposta daquela boca fina e torta. Eu estava tão irritantemente cansado daquilo que faltava pouco para deixar escapar um “Até a vista, Alice.”, mas eu ainda não tinha perdido o juízo. Eu jamais arriscaria perder aquele estorvo, aquele problema mal-humorado que puxava todo o edredom e me deixava com frio durante a noite. Dizem que a liberdade é azul, mas todo céu já foi nublado. Ela era as nuvens gordas e negras do meu céu, mas mesmo que me deixasse escuro e morto, trazia chuva pros meus jardins, e me florescia alegria. Era um amor masoquista.
Minha namorada continuava a rabiscar, provavelmente com a intenção de me criar expectativa, formando no papel, algo que eu imaginava serem apenas traços indefinidos com o objetivo de deixar o post-it amarelo ainda mais horrendo. Afinal, era assim que tudo com ela ficava. Um dia ensolarado na praia podia se tornar uma visitinha ao inferno quando se estava do seu lado; uma festa na casa dos amigos (dos meu amigos, já que eram escassos os dela) se desenrolava num desastre sem tamanho. Alice possui uma única regra básica de vida: ser desagradável, não importa o que custar. Só o que eu nunca consegui entender, é a força que me faz, mesmo com todas as brigas e desavenças, não conseguir me separar, ou pior, ter medo quando ela – mesmo que por capricho – ameaça ir embora.
- Você é tão sincera que me assusta. – Divaguei, por um segundo, lutando contra o sono. Aquilo era mais para fazê-la se sentir bem, do que a própria verdade. – Nenhuma outra mulher seria capaz de acordar o namorado trinta e cinco em trinta dias no mês para avisar que ele não passa de um monte de merda. – Ela percebeu a dose de sarcasmo, e quase grunhiu, mixando com seu jeito cavalar de ser. – E olhe só, o monte de merda te adora mesmo assim. Eu arrisco afirmar que o mercado de homens não anda de tão alta qualidade
Dei uma pausa, enquanto o quarto permanecia mudo.
- Ah, qual é, rasga esse post-it e sei á, pede uma folga. Vem dormir mais um pouco comigo, vem. Eu estou cansado, mas quem sabe, se você pedir com carinho. – Minha risada não convenceu nem a mim, nem a ela, e foi o estopim para causar uma saída brusca da minha namorada do quarto. Ela largou o bilhete encima da escrivaninha (longe demais para que eu precisasse levantar para ler) e eu escutei a porta de vidro da frente se bater com força.
Não me levantei para ver o que ela afinal havia escrito, e só me cobri com o edredom. Lá ia-se ela mais um vez, levando tudo consigo: toda ironia, toda falta de carinho e desprezo. O seu poder de atração era tão grande, que o imã carregava até mesmo meus sorrisos, meu afeto. O grande espaço por ela ocupado completava os buracos recortados da minha alma.

E eu só rezava baixinho, esperando saber se eu a veria hoje, amanhã ou nunca mais.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Tempo?


O seu nome era André. E esse era um cara bastante introvertido, cheio de vídeo games na cabeça, e altamente viciado em cafeína. Queria um dia ser programador de computadores, mas nunca tinha coragem de levantar da poltrona verde da sala de estar para procurar um emprego. Tomava sorvete 24 horas por dia, e parecia fazer teima para não engordar, pois mesmo com todas as calorias ingeridas, continuava seco, como um bambu, sentado eternamente na poltrona verde, com um controle preto na mão, olhando para aquela televisão de 45 polegadas. E era final de ano, então. E ele continuava lá.



Sentado na poltrona verde, com o controle na mão. E a grande televisão de 45 polegadas. Mas André era como qualquer pessoa e queria um emprego no próximo ano, uma televisão maior, um videogame melhor, e a poltrona azul que tinha visto na internet. Sustentado pelos pais, não tinha dinheiro, evidentemente para tal, mas ainda sim queria. Ele nunca iria sair da poltrona, nunca iria largar o controle, mas esperava a mudança.
— Feliz 2013. — Disse o amigo na internet.
— É, você também. — Respondeu sem o mínimo de emoção nas palavras.
— Vai mudar?
— Quem é que não vai? Todo mundo vai mudar ano que vem. É um ano melhor. Sempre é... Eu acho.
E tudo mudou? Sim, tudo mudou, é claro. André ganhou na loteria. Foi um sortudo, sim. Sempre fazia seu joguinho; era como o evento do ano, o dia em que saía da poltrona verde e fazia algo. Trabalho não era a sua procura.
Mas isso não importava. Tudo mudou.
E havia aquela, a senhora Lena, a mulher trabalhadora, de dois filhos com seus 8 e 10 anos. Solteira, uma mulher com visão. Visão não somente pelo olhar de fogo que tinha, mas pelas ideias que sempre permaneciam fiéis aos seus valores. Bastante feminista, desde que pusera o primeiro pé no mundo, já era certa disso. E não se arrependia. Talvez fosse a novela das sete na verdade, não o seu gene idealista, como dizia seu marido, mas ela não queria pensar assim. Gostava muito de novela, é bastante verdade. Quase com a mesma intensidade de que gostava de leite.
Mas ela também não fazia muito para mudar. Ou pelo menos para mudar a sua vida pessoal. Sempre altruísta, humilde, nunca olhava para si própria, e acabava que seus sonhos de consumo eram sempre deixados de lado para atender ao todo, à massa. Queria uma poltrona nova para a sala, uma televisão mais moderna, e um videogame novo para o filho mais velho. Ela tinha seu emprego, mas nunca deixava um tempinho, ou melhor, um dinheirinho para usar para tais fins. Não era preguiçosa, ao contrário de André, mas sim visionária demais. Esse era o seu problema. (Vamos descartar o fato de que estava começando a se viciar demais em laticínios.)
Disse que tudo iria mudar para a amiga no salão.
E tudo mudou? Não.
Claro que nada ia mudar. Ela queria ganhar na loteria, mas nunca jogava.
E é só então que chego no ponto chave de tudo o que eu queria escrever. A droga dessa data comemorativa que fazem todos buscarem um motivo para mudar. Não precisamos de motivos. Somente de objetivos. De sonhos, de atitude. Esses são os ingredientes para que alguma coisa se faça sensivelmente diferente. Não me apego nem ao fato de as pessoas parecerem impotentes, mesmo com todas as chances jogadas à sua frente, mas sim ao significado dessas datas, que as pessoas tanto se agarram, como se por mágica, algo acontecesse. Algo de grandioso.
O que na verdade é uma virada de ano? Um segundo no qual iniciamos mais uma jornada. Não.
Não é uma jornada, é somente mais um ano! Igualmente o 2012 foi, será o 2013. Pelo menos será se você continuar apenas desejando, sem mover um dedo. Não digo que desejar seja de todo ruim. Mas como eu disse, não quero me apegar àquela velha preguiça, que faz todo mundo se sentar numa poltrona verde e assistir televisão para sempre.
Tudo tem que vir de você, mas não no último segundo do ano que se despede, mas sim desde o início deles. Sabemos como tudo parece demorar à acontecer. Um objetivo leva tempo para ser atingido, e um dia, uma hora, um segundo, não é o suficiente. Você faz o próximo ano, não o próximo ano te faz.
E, talvez mais importante ainda: quem foi o infeliz que ditou que somente em aniversários se presenteia, se faz festas? Gosto de aniversários, mas odeio mensagens que desejam que seu DIA seja ótimo. Então somente o dia do seu aniversário deve ser bom? O resto tem que ser um poço de trevas. Ou pelo menos a pessoa que desejou um feliz aniversário não se importa com o resto do ano.
Margô, uma senhora que fazia torta de limão divinamente, e que tinha acabo de ganhar seu primeiro telefone celular, se espantou, ou talvez se enraiveceu no dia em que completou seus 57 anos. Uma mensagem chegou ao seu celular, e este emitiu um bip.
— Diego! Venha cá! Que droga eu fiz para esta pessoa que eu mal sei quem é, que me manda um feliz aniversário e um ótimo dia?
— Oh, vó. Como mal conhece? Você mesma possui o contato no telefone. A senhora quem o adicionou à sua agenda telefônica.
— Sim, eu o fiz. Mas não fui com a cara do sujeito. Essa tal de Marcos. É amigo da tua mãe, um jovem bastante irônico.
— A mamãe deve ter comentado sobre o seu aniversáario. Ele não quis ser grosseiro e enviou essa mensagem. É bastante barato enviar um torpedo hoje em dia.
E a velha ficou reclamando sobre isso durante um tempo. Embora rabugenta, a senhor Margô estava certa. Se ao menos dessem o devido valor à data... Mas não, simplesmente enviavam torpedos irrelevantes. Quem disse que ela não merecia uma mensagem durante todo o tempo? Ela que tanto tinha feito durante a vida? Aquele era só um dia qualquer, em que completava mas um ano, mais um passo para a cova, como ela gostava de pensar.
O ser humano é mesmo um bicho terrível. Tenta se apegar à ideias fantasiosas, mesmo quando julga de pé firme a inexistência de fantasia alguma. Parece mais um consolo para a alma, que necessita de um apoio, de uma ideia de que algo acontecerá por mágica, naquele dia especial. As pessoas procuram em outras coisas, outros seres, o que podem encontrar em seu próprio âmago, naquele pedacinho escondido, privado, da alma. As datas são como vento, que passa rápido, e mal deixa o seu rastro. Coisas grandiosas acontecem com anos, décadas, séculos. Ninguém nunca viu um aluno conseguir boas ou más notas somente por um único dia do semestre. Ou um presidente conseguir o cargo com somente uma hora de campanha.
Não adianta esperar ganhar na loteria para comprar a poltrona nova, ou a televisão maior. Atitudes precisam ser imediatas. O instante atual é o instante crucial.
Nem é difícil de memorizar.
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no começo de seus 15 anos, que só pensa em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Querido Humbert



Este é um trecho do livro que estou escrevendo no projeto NaNoWriMo. Achei que fosse interessante compartilhar aqui.



Querido Humbert,

Lembra-se de que falei que queria falar sobre Benjamin? Pois bem, você ficará feliz em saber que mudei de ideia e que agora quero falar sobre Johnny. Isso foi porque fui tomar um café e ele estava particularmente desagradável. Acho que exagerei na mão, ficou extremamente forte e doce.

Lembra-se de como o café de Johnny era ruim? Fraco e amargo demais, bem o contrário. Eu já não tomava, apenas usava-o para esquentar as mãos enquanto assistíamos algum filme sobre poesia. Aposto que você não sabia que ele gostava de filmes de poesia, Humbert.

E às vezes eu dormia assistindo, com a cabeça no colo dele, porque estava muito cansada, mas ele não me acordava para poder levantar. Ficava lá, sentado no sofá com a cabeça jogada para o lado e o controle ainda na mão. Então eu acordava e o levava para o quarto. Ele ia andando mesmo que estivesse dormindo, bastava eu guiar. Era muito engraçado, mas eu nunca filmei.

Não sei qual estrela do meu céu era Johnny. Talvez ele fosse uma constelação do cinturão de Órion, ou talvez fosse uma estrelinha que ninguém planejou existir, mas que estava lá fazendo a diferença no céu.
E você, Humbert, quer saber que estrela seria? Você seria uma daquelas que a gente olha para o céu e vê pequenininha, mas que na realidade é bem grande só que está tão longe que é até surpreendente que seu brilho chegue até Paris.

Mas já estou mudando de assunto. É sobre Johnny que tencionei falar, não é?  Ele chegou aqui ontem de manhã com várias tintas e pinceis e fomos pintar a parede do quarto. A da sala eu já tinha pintado até onde eu alcançava, e onde eu não conseguia Johnny pintou. Partimos então para o quarto, penduramos um prisma na janela e tentamos imitar os desenhos que o prisma fazia na parede. Eram bonitos, mas na hora de reproduzi-los eles ficaram meio estranhos. Então deu minha hora de ir trabalhar e ele ficou lá pintando.
Ah, ouso dizer que agora você não é mais o único que tentou fazer de mim uma arte. Quando cheguei, ele tinha pintado meu rosto na parede, assim, bem grande, e preenchido com os desenhos do prisma. Até meus olhos são coloridos na pintura, meus cabelos parecem fumaça azul e cor de chocolate e você não se sentiria frustrado em saber que saía fumaça da minha boca também e ela podia ser de frio, mas era de cigarro. Mas Johnny já não estava lá, então fiquei sentada na cama sozinha, contemplando seu desenho. O sol já não batia mais no prisma, mas no dia seguinte, quando abri a janela, o espetáculo de cores era fascinante! Parecia que as cores saltavam e brilhavam...

E é por isso que sou abstrata.

Não sei quando Johnny volta aqui, mas tinha um bilhete no travesseiro escrito: não mexa, ainda não está acabado., e então não mexi. Juro que mandarei uma foto junto com a carta.

Au revoir, Humbert.

De sua Juliet.


Sobre a Autora:
Érica Prado Érica Prado tem 16 anos, gosta de coisas fáceis tipo miojo e, portanto, não gosta da vida. Não, você não pode simplesmente gostar dos dois.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[ESPECIAL DE DIA DAS BRUXAS] Dance for your daddy




Dance pequena, na ponta dos pés. Dance sobre o mundo que desmoronou ao seu deleite. Dance, porque dançando você é completa - na ponta dos pés é quase minha. Dance minha pequena criação.

Dance sobre a morte que lhe habita. Dance para escurecer ainda mais o breu do seu olhar de menina malvada. Dance com suas facas grudadas em minha pele. Dance em minha pele.

Dance filha minha.

Baile assim do seu jeito, com seu corpo moldando-se ao meu, fazendo de mim sua ideal morada antes do amanhecer. Encontre-me de braços abertos a esperá-la em um beco escuro enquanto ainda não é dia. E junto adiemos os dias! Dance comigo por todas as noites da nossa vida (des)vivida, embala-me, usa-me. 

Despedace-me. E morra por esse bailar que a mantém viva.

Curve os lábios me um fio de voz frouxo e rouco: não mais que uma confissão. “Amo”. Ama o que menina? Ama a quem? Ama seu pai, amante e amigo? Ou ama aquele que a ensinou a matar? Mate em meu nome três vezes se preciso for! Suje as calçadas com sangue tão imundo quanto o nosso!

Mas permaneça viva para que na noite seguinte eu possa contemplar o seu bailar.

Quando romper o dia separe seus brotados seios desnudos de minhas costas e desenlace-nos. Faça da normalidade o fato anormal, você longe de mim, daquele que a fez menina e mulher. Aquele que fez da sua dança nosso acoite, crueldade mórbida nas noites quentes.

E quente também é o seu sangue, afinal não é ele também o meu? Esquente-me com seus pés a roçar o sexo meu enquanto ri com seus olhos de ressaca marítima. Oh! No mar dos seus olhos eu mergulho e juro que se soubesse morrer morreria por eles! Morreria neles! Afogado e enganado pela menininha que espicha pelas meias quatro oitavos – minha menina dançante.

Dance para mim bailarina da morte.

Faça das poças de sangue seu ideal tablado. Dance em carmesim! Em vermelho vinho que bebo do corpo seu. Faça-me ébrio do néctar do seu corpo – do sexo que é somente meu. Dance e viva, pequena. Viva porque a morte é sua fiel amiga, afinal são pelos passos dela que você segue o seu bailar; seu bailado tem aroma de término.

Dance para o seu pai filha.

E grite e corra para meus braços. Injete-se em minhas veias saltada como a heroína da minha vida, mas também seja meu torniquete, enquanto a mim cabe ser a sua salvação. Mas nunca a salvarei de mim, porque eu também sou você. Somos almas unas no mesmo desespero de não saberem morrer, mas que vivem pelas doses homeopáticas de suicídio. Transforma-me em música e deixe que eu seja sua escala dissonante. Morra por mim mais três vezes, mesmo que eu não morra nenhuma por você.

Em meu nome torne-se Jesus, enquanto para você serei somente Judas. Talvez você possa ser Madalena: mas falta santidade em você? Então seja somente minha Maria, minha Virgem Desvirginada, de pés descalços e sorriso jocoso, aquele que se deleita com a dor de um tapa em carne já trêmula. Seu sorriso mais bonito! O que faz-me o ser mais extasiado do Universo é esse seu sorrir que pede por mais dor, por mais chagas em pele já dolorida. Peça mais, querida. Peça minha bailarina, faça dos seus gritos sua música: torne-me seu maestro!

Dance em nome do Espírito Santo, mas nunca proclame o amém. Baile sobre seu próprio corpo morto – no fim é isso que restará. Você morta e eu a desvirginar-te três vezes mais e mais.

Mas não dance mais, pequena: dê início à contradança.
Sobre o Autor:
Lucas Rodrigues Nascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

[ESPECIAL DE DIA DAS BRUXAS] Sleep well, my little prince





Em homenagem ao Halloween, nós da Decadência resolvemos desafiar nós mesmos preparar um especial para vocês. A proposta foi escrever, em dois dias, um conto macabro para homenagear a data. E o que esses contos possuem em comum? Todos os titulos são canções de ninar. Lucas, eu e João Victor aceitamos o desafio e fizemos os contos. Particularmente, é meu primeiro conto de terror. 
Espero que gostem.





Parte 1 – silent night (noite silenciosa)

Tac. Tac.
Federico cochilava sentado em sua cama quando o barulho de cacos atingindo a janela de seu quarto fez com que abrisse os olhos. Seus óculos estavam tortos no rosto e o livro que estava lendo pendia amassado ao seu lado na cama. Ele concertou os óculos e tentou desamassar o livro da melhor forma possível, enquanto o som de cacos batendo na janela retornava:
Tac. Tac. Tac.
Geralmente, quando ouvia esse som, era sua namorada, Christine, que lhe fazia uma visita noturna. Federico tinha noção do quanto estava desarrumado. Tentou ajeitar os cabelos na frente do espelho e tirar a expressão de cansaço do rosto antes de abrir a janela.
Mas não havia ninguém lá.
Ele se inclinou sobre o parapeito, tentando enxergar melhor o chão ao longe, mas ela não estava parada esperando, como deveria; olhou para os lados, porém a rua parecia deserta.
– Chris? – disse ele para a noite.
E um sussurro fraco, quase inaudível na noite, respondeu:
– Estou aqui.
Federico sorriu e passou a perna sobre o parapeito, pulando da janela para a sacada. O vento frio agitava seus cabelos, desfazendo a precária arrumação anterior, e ele olhava para o chão quatro metros abaixo de si, procurando uma maneira de descer. Talvez pudesse alcançar a janela do térreo se ficasse pendurado na sacada.
Ele se virou de frente para a janela do quarto, se posicionando para descer, e deparou-se com o rosto de Christine a centímetros do seu.
– Federico! – ela o segurou pelo colarinho da blusa bem a tempo, porque o susto o havia desestabilizado e Federico quase perdeu o equilíbrio.
– Como você... – balbuciou, enquanto voltava a se endireitar.
Ela riu.
– Você é tão previsível...
Federico acariciou os longos cabelos ondulados da namorada, enquanto o vento forte fazia alguns fios grudarem em seus lábios cor de vinho. Quando ela ergueu a mão para acariciá-lo também, ele viu.
– Que marcas são essas? – perguntou, apontando para o pulso dela. Horríveis cicatrizes vermelhas brilhavam, circulando seu antebraço como pulseiras.
– Não estou vendo marca nenhuma – alegou ela, segurando-o pelo queixo e virando seu rosto para que ele olhasse nos olhos dela. Foi nesse momento que ele notou que o vento forte não vinha da rua, mas de dentro do quarto, jogando os cabelos de Christine para frente,sobre seu rosto.
– O que está acontecendo, Christine? O que você veio fazer aqui, me assustar?
Ela pareceu não se alterar com o tom grosseiro do namorado.
– Vim te colocar para dormir, meu amor. – E então beijou-o. Seus lábios pareciam ácidos, líquidos. Era como se Federico estivesse tomando um copo de vinho. – Durma bem, meu principezinho.
E suas mãos macias em seu colarinho o empurraram para a noite gelada e para o chão distante.






Parte 2 - nighttime blessing (noite abençoada)

Tac. Tac.
Federico acordou sobressaltado de seu cochilo, o peito arfando, os óculos tortos no rosto, o livro que estava lendo pendia miseravelmente amassado. Ele tentou desamassar o livro da melhor maneira que pode, enquanto ouvia novamente o barulho de cascalho atingindo a janela.
Tac. Tac. Tac.
Ele permaneceu na cama.
Foi só um sonho. Um sonho. Apenas um sonho. Ele ficava repetindo para si mesmo, mas ainda assim não conseguia levantar os pés da cama para abrir a janela.
– Christine? – sussurrou, certo de que se estivesse fazendo papel de otário ninguém presenciaria. – Você está aqui? Está no quarto?
Toc. Toc. Toc.
Agora o som vinha da porta fechada. Alguém batia. Talvez fossem apenas seus pais, ou talvez fosse Christine, mas como ela teria conseguido chegar até lá?
Federico ponderou se deveria ficar em silêncio, fingindo dormir, antes de perguntar:
– Quem é?
– Christine – sussurrou uma macia voz feminina do outro lado da porta. – Me deixe entrar antes que alguém acorde e me veja aqui.
Federico levantou-se trêmulo da cama. Foi só um sonho.
– Como você chegou aqui? – perguntou através da porta, segurando a maçaneta.
– Depois eu te explico, me deixa entrar!
Ele permaneceu em silêncio, respirando fundo e tentando perder o medo. Ela não poderia atirá-lo da janela dali, poderia? Ele só teve um sonho ruim.
– Federico, o que está acontecendo, por que você não me deixa entrar? Se seus pais me pegam aqui...
Ele não teve coragem de abrir a porta.
– Vá embora, Christine – respondeu. – Eu vejo você amanhã, vai pra casa agora.
Houve um breve silêncio do outro lado, e um suspiro.
– Eu não posso ir embora – ela revelou.
– E por que não?
– Porque eu estou amarrada e muito machucada. Eu não consigo andar, Nem me mexer.
– O quê? – Lembrando-se das marcas dos pulsos, Federico abriu a porta imediatamente, mas ela não estava no corredor. – Christine? – chamou, encarando o breu à sua frente, repleto de pânico.
­– Estou aqui – disse uma voz vinda de dentro do quarto.
Ele se virou tão bruscamente quanto bateu a porta.
Christine estava sentada na sua cadeira do computador, girando e girando, com os pulsos amarrados para trás e o corpo coberto de sangue. Ele podia ver os machucados das algemas em seus pulsos, tal qual os do sonho. Cortes profundos haviam retalhado sua testa e bochechas e a cabeça dela pendia para trás, com os cabelos jogados sobre o espaldar, com olhos e boca muito abertos.
Federico cobriu a boca com a mão para não gritar.
Sangue escorria pelo chão, manchava de vermelho o tapete azul e ameaçava chegar até seus pés. Ele recuou até encostar na porta atrás de si. E Christine girava e girava...
No espelho do guarda roupa encarava-o o reflexo dela, com o rosto arrancado, as órbitas podres... No monitor do computador, outro reflexo tinha a boca cordada de orelha a orelha, com o nariz e os olhos enfiados nela... No reflexo do brilhante sangue do chão, ela tinha as mãos costuradas no rosto... E no copo d’água do criado mudo ela se afogava...
Mordendo as costas da mão com toda a força para não gritar, ele se virou para fugir, mas, ao abrir a porta, Christine o esperava sorridente no corredor. Ele não sabia se fechava a porta, se preferia a Christine sorridente ante à garota amarrada em sua cadeira.
– O que você quer? – perguntou com a voz abafada, porque a própria mão tapava a boca. Sangrava, de tanto ele morder.
– Te colocar pra dormir.
Federico a deixou entrar temendo que, se fechasse a porta novamente para ela, a figura agonizante na cadeira voltasse a aparecer.
Ela sorriu.
– Não se preocupe, você vai acordar.
Trêmulo, ele tirou a mão da boca e se caminhou para as mãos estendidas dela. Christine o guiou para a cama e ele se deitou em seus braços, quase se esquecendo do terror que causara, sentindo o cheiro que ela emanava, cheiro de rosas, morangos e sangue... sangue...



parte 3 - sleep well, my little prince (durma bem, meu principezinho)

Como prometido, Federico acordou. Um cheiro forte invadia suas narinas, mas não era mais sangue: era cheiro de podridão.
Foi só um sonho, repetiu para si mesmo, mas não quis abrir os olhos. Tateou ao seu redor. Estivera deitado no chão.
– Christine? – chamou. E então mais alto. – Christine!
Mas não houve resposta.
Inevitavelmente, seus olhos se abriram. Mas foi como se não o tivessem feito: a escuridão engolia o local. Tateou novamente pelo chão, e suas mãos encontraram uma substância viscosa. Elas tremeram no caminho até o seu nariz, mas Federico não saberia dizer se aquilo fedia miseravelmente porque todo o resto fedia, ou se a substância fazia parte da fonte do odor.
– Christine! – tentou ele novamente. – Christine!
E desmaiou.
Despertou com o som de uma porta abrindo e a claridade que vinha por trás dela quase o cegou. Demorou alguns segundos para seus olhos se acostumarem e virem uma silhueta cortada contra a luz.
– Christine? – sussurrou. E foi tudo o que conseguiu dizer.
A figura entrou e fechou a porta atrás de si, trazendo a escuridão de volta.
– Por que não ligou a luz, bobinho? – perguntou a voz dela, vinda de algum canto à sua frente. Em seguida, alguns passos e o clique de um interruptor sendo ligado.
Federico teve que proteger os olhos contra a luz insuportável que atingiu o local. Demorou alguns minutos até que pudesse se acostumar com a claridade e abrir os olhos devagar.
Christine estava lá, de pé à sua frente, com seu jeans e sua camiseta. Olhava-o de cima, mas com ternura.
Ele olhou ao redor. Uma dezenas de corpos estava jogada na sala branca. O sangue, a carne podre, os olhares que ela sequer teve a decência de fechar e que agora decompunham-se sem dignidade. Havia cadáveres de onde os rostos haviam sido arrancados, outros onde as mãos foram costuradas  aos rostos. Um deles tinha a boca cortada de orelha a orelha e nariz e olhos enfiados nela; outro estava amarrado numa cadeira da mesma forma que Christine estivera em sua visão.
– Onde eu estou? – perguntou a ela.
– No meu circo.
Ela puxou sua cabeça para trás, pelo cabelo, pegou um pequeno canivete no bolso de traz do jeans e o enfiou no ouvido de Federico, girando e girando como uma broca. O fedor o deixava tonto e a dor ia chegando ao seu cérebro. Ele tentou empurrar a mão dela, mas só conseguia tremer de dor.
Grite, disse ele a si mesmo. Grite, essa dor é insuportável.
Grite, grite...
E um sussurro chegou ao seu ouvido ainda bom antes que ele apagasse:
– Shhh... Durma bem, meu principezinho.



parte 4 - all day, all night (todo o dia, toda a noite)


Tac. Tac. Tac.
Federico acordou com o som de cascalho batendo na janela do quarto. Seu óculos estava torto dobre o rosto, o livro que lia pendia amassado ao seu lado...




Sobre a Autora:
Érica Prado Érica Prado tem 16 anos, pretende cursar história, ouve metal e reclamações o tempo todo. Gosta de coisas fáceis tipo miojo e, portanto, não gosta da vida. Não, você não pode simplesmente gostar dos dois.
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[ESPECIAL DE DIA DAS BRUXAS] - Sleep, Baby, Sleep


Para comemorar o famoso (não tanto aqui no Brasil, infelizmente) Dia das Bruxas, a Decadência (mais especificamente eu - João Victor -, Erica e Lucas) decidimos fazer um "especial", para comemorar a data. Afinal, o que mais poderia fazer A Decadência pelo seus leitores no Halloween, se não alertar sobre os perigos da data? Hahaha Divirtam-se!


A hora mais odiada e mais necessária do dia havia chegado tão rapidamente que quando viu que já era tempo de descer do seu pequeno e precário apartamento para ir para o trabalho, assustou-se. Vestiu o vestido vermelho com aberturas nas costas e um decote grande na região dos seios, que deixava suas pernas bem à mostra e apertava bastante nos quadris, aumentando ainda mais o volume que tinha. Era naquele momento que dava adeus à sua real identidade e passava a se chamar Suzy, uma das mais famosas prostitutas da Avenida Madalena.  Vamos dar, por que viver está complicado, pensou, rindo da piada sem-graça e cruel que tinha de aturar todos os dias desde que completara os seus 10 anos de idade.

Penteou os cabelos negros e lisos e passou um batom de uma cor aproximada à do vestido, e saiu com seu salto alto, para uma caminhada de vinte minutos até lá. A noite já caía, e o céu estava com uma tonalidade roxa, com pequenos pontinhos luminosos e uma lua cheia e azulada pendendo no céu. A noite era tranquila e fria, e o único som que escutou era o de carros passando ao longe, na Avenida para onde seguia naquele exato momento. A brisa parecia trazer consigo um mar de maus presságios, e toda vez que dava um passo, um calafrio congelava o seu corpo e eriçava a camada fina de pelos em seus braços. Não se sentia assim indo para o ponto desde que começara a vida como prostituta, e a sensação lhe trazia à mente momentos cruéis, brutais e dolorosos que sofrera naquela época. Tentou afastar aquilo, e seguiu o resto do caminho fazendo de tudo para se focar em coisas positivas.

A Avenida estava movimentada, como sempre, e as outras quengas estavam espalhadas por toda a sua extensão, numa distância razoável de uma para a outra, embora algumas delas preferissem fazer pequenos grupos e revezarem. Elas costumavam se dividir por preço. No começo da rua, as mais baratas, até chegar ao seu fim, onde Suzy se encontrava. Seu trabalho era bom, e como todos os clientes gostavam de dizer, valia muito a pena o preço pago. A situação em sua vida pessoal era complicada, e usar desse pretexto de fazer o serviço direito uma forma de ganhar mais foi interessante para ela. Os homens e até mesmo algumas mulheres preferiam à ela na maioria dos casos. Talvez achassem que o seu aspecto mais limpo se comparado às outras valesse a pena o preço alto. Ela não sabia ao certo, mas dificilmente o seu espaço estava vazio, sem nenhum carro estacionado com um cliente louco por sexo fácil.

Logo que chegou, esperou poucos minutos até que um veículo amarelo parasse em sua frente com o vidro aberto, perguntando quanto era o programa. Em pouco tempo estava dentro do seu carro, do seu quarto, sobre a sua cama, com ele dentro de si, e mesmo que os calafrios persistissem, ela fez tudo como mandava o figurino, e assim passou a noite, entre programas e mais programas e notas de dinheiro. E só ás duas da manhã pareceu ter um folga para se sentar no meio fio e descansar um pouco. Tragou um cigarro e ficou olhando as poucas nuvens caminharem pelo céu, desaparecendo por detrás dos prédios.

Um carro parou na sua frente, e ela, distraída, só prestou atenção quando a buzina atacou seus ouvidos. Levantou-se apressada e jogou o cigarro no chão, ajeitando o vestido. Encostou na janela que se abria devagar. Lá dentro, duas figuras estranhas estavam sentadas. Um tinha uma máscara de lobo, enquanto o outro usava um gato para esconder as verdadeiras feições. Estava tão acostumada com todo o tipo de louco por aquelas bandas, que só fez o mesmo de sempre.

― Os gostosões querem uma noitada gostosa, é? ― E mordeu os lábios vermelhos. Eles, por sua vez, continuaram observando-a sem alguma expressão. Despois de alguns segundos, quando Suzy arqueou as sobrancelhas, o com cara de gato sacou do bolso duas notas de cem reais e uma de cinquenta, entregado em suas mãos. Era mais do que ela cobrava, mas aceitou de bom grado. Sem esperar algum convite, entrou no banco traseiro e acomodou-se. O carro acelerou-se, e durante todo o caminho as duas figuras permaneceram quietas.

Ela não pode evitar, e esteve receosa durante todo o tempo, mas não fez nada além de permanecer sentada e observar atentamente o caminho que seguiam. Com o passar do tempo, ela foi percebendo que as máscaras cobriam toda a parte acima do pescoço deles e que eram bastante benfeitas, trazendo um ar bem realista a fantasia deles.

O carro estacionou num local mal iluminado e deserto, em frente a uma casa com uma aparência de abandonada. Eles saltaram do carro e Suzy os imitou, consertando o vestido que insistia em descobrir mais e mais suas pernas. Não que se importasse, mas com aquele frio que fazia, qualquer lugar que se pudesse cobrir era lucro. Ficou esperando enquanto os dois se entreolhavam. O com cara de lobo enfiou a mão no bolso e a segurou pelo braço, levando-a até um muro ao lado da porta da casa. Ela sorria, maliciosa, esperando por algum sexo selvagem, e usou a mão livre para acariciar o volume entra as penas do homem, porém este afastou a sua mão. Jogou-a contra a parede com uma força desnecessária e tapou a sua boca com a mão. Suzy permaneceu parada, esperando pela ação do homem-lobo, sem demonstrar pânico. Aquele trabalho requeria calma. Eles eram mais um daqueles loucos sadomasoquistas, somente isso.

Mas o que ela não esperava, era ver que na mão que ele tirava cuidadosamente do bolso, estava um agulha grande e fina, com um líquido de aparência espessa dentro. Arregalou os olhos, e seu grito foi abafado pela mão que apertava os seus lábios. Tentou afastar a agulha que se aproximava com as mãos, mas ele logo a controlou. Em poucos segundos, ele injetava aquele líquido em suas veias, e ela caía num sono profundo.

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Acordou, e estava sentada numa cadeira dura e fria de madeira, com as mãos amarradas ás costas e as pernas presas aos pés da cadeira. Levantou a cabeça, e percebeu que estava sozinha num cômodo escuro, iluminado apenas pela luz fantasmagórica da lua. Gritou, mas se estivesse dentro da casa na qual havia parado junto com os dois homens estranhos, seria inútil. Não parecia que haviam vizinhos. Seu rosto parecia inchado, e as bochechas doíam, como se tivesse levado um soco no local. A boca tinha cortes profundos que dificultava o chamado de socorro, e os pulsos doíam. Parecia que o sangue não circulava por suas mãos haviam horas, e sentia a ponta dos dedos começando a adormecer.

― Alguém? Tem alguém aí? ― Disse, olhando para os lados, procurando pelo menos uma sombra dos homens com cara de animal que havia a levado até ali, mas nada parecia se mover, e ela tinha tudo para ser o único ser presente ali. O desespero só fez aumentar com o passar do tempo, e seu coração parecia estar se debatendo violentamente em seu peito, numa busca para fugir dali. Tentou de todas as maneiras se levantar, mas o fato de seus pés estarem presos nas pernas da cadeira dificultava o processo.

Até que, do além, uma voz aguda e estranha veio, aumentando a cada segundo, até tomar todo o espaço num barulho ensurdecedor. As janelas vibravam com a música estrangeira suave, desconhecida para Suzy. Ela não sabia como, mas podia jurar que era uma canção de ninar. As notas calmas, e a melodia devagar...

Olhou para trás, procurando a origem do som, mas a única coisa que viu foi uma sombra passando rápida por uma das janelas e a fez pular de susto.

― Quem é? Quem é? ― Começou um choro agonizante e tentou mais uma vez soltar as mãos, mas o seu desespero de nada adiantava. Ninguém a respondia, e começou a duvidar se alguém realmente a escutava. Poderia ser uma ilusão da sua cabeça? Podia estar sonhando? Será que aquele lugar sombrio e aquela música doentia não era na verdade um estado de torpor da sua mente? Um efeito da droga que o homem com cara de lobo havia injetado no seu braço direito, talvez. Mas a dor, o som, tudo era tão tocável, doloroso que não podia ser coisa da sua cabeça. O suor logo começou a escorrer por sua testa, e em pouco tempo seus seios, quadril, braços e pernas estavam encharcados pela camada pegajosa de suor.

Abaixou a cabeça, e ficou naquela posição, chorando por um tempo que não sabia dizer. Só foi chamada a atenção quando um corpo se projetou na sua frente, olhando-a furtivamente, com aquela máscara perfeita de gato que parecia tão real. Sua mão se aproximava do seu rosto e ela tentou se afastar, mas o assento da cadeira tornava impossível. Ele tocou suas bochechas fortemente, e logo prendia seu rosto com força. Tentou gritar, mas ele era forte demais. Na outra mão ele trazia um faca afiada que brilhava sob a luz azul da lua.

― NÃO! POR FAVOR... ― Mas foi inútil, logo a lâmina estava se aproximando das suas pernas, e entrava pela carne das suas coxas, fazendo seu corpo de contrair de dor. Não se lembrava de sentir algo tão horrível como aquilo antes. Não conseguiu parar de gritar, e no meio de lágrimas e suor escorrendo, sentiu que ele retirava a faca de sua perna, e observava sem expressão o sangue que escorria e pingava no chão. Não demorou muito e logo ele estava delineando o seu rosto com a ponta afiada da lâmina. Ofegou, e por um momento a dor na perna não era mais nada, pois um corte profundo nascia lentamente em suas têmporas e fazia um líquido grosso e rubro escorrer.

Gritou e gritou, mas enquanto o homem fazia o caminho em seu rosto nada o fez parar. Ela sabia qual seria o seu destino, e tentou de todas as formas acelerar a sua morte, mas ele gostava do seu sofrimento. Alguns minutos se passaram e ela já não tinha mais um dos polegares, e um corte sangrava na lateral do seu pescoço. Estava tonta, praticamente não sentia mais nada, e um bolo estranho se formava em seu estômago. Vomitou, e junto com o vômito, veio também sangue, dor e sofrimento. Não entendia nada daquilo e preferia não entender. Sua cabeça estava um tanto conturbada para raciocinar.

Já sentia que as forças estavam lhe escapando quando escutou pela primeira vez aquela noite a voz do homem estranho.

― Agora é a hora da princesinha dormir...

E a faca perfurou seu estômago. Antes do amanhecer Suzy já se encontrava morta, e junto com ela, mais outras sete prostitutas que haviam experimentado o mesmo fim trágico. 
Sobre o Autor:
João Victor Ferraz Não que alguém se importe, mas João é um sonhador, no fim dos seus 14 anos, que sonha em fazer Jornalismo e ter livros em todas as estantes do mundo. Isso mesmo, do MUNDO.