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sábado, 29 de dezembro de 2012

Asas de liberdade



Levantou-se do sofá. Na televisão, familiares choravam a morte de mais um João que ninguém realmente se importava. Olhou em volta, dominado subitamente pela náusea daquele ambiente tão familiar, tão enjoativo para todos seus sentidos. A sala lembrava-lhe preguiça, tinha gosto de cerveja quente e cheiro de suor frio.  

Da mesma forma encarou a própria vida, e a ânsia embrulhou seu estômago novamente. Nada distinguia sua sala de sua vida, ambas exalavam morte. Porém era essa a pior espécie de morte, pois não era o fim do corpo, mas sim do espírito, da mente, dos sonhos. Essa é a verdadeira morte, quando os sonhos são enterrados antes do corpo. 

Já o pânico o dominava ao se deparar com aquela suja realidade. Tinha nojo de si mesmo, do que tinha se tornado, ou melhor, do que não tinha sido. Aparentemente ele mais não era do que era. Vazio, de certa forma foi tudo que encontrou dentro de si, o obscuro vazio em que nada cresce, em que nada existe. 

Percebeu que em tudo estava preso. Passara anos construindo a própria cela, firmando as correntes de barbante que lhe impediam o movimento. 

De súbito, lembrou-se do sorriso de uma criança. Aquilo lhe trouxe de volta à vida. Era uma memória pura, livre. A criança parecia ser tanto, a vida era visível no brilho de seus olhos, na sonoridade gostosa de sua sincera gargalhada. 
O reflexo imediato foi o reacender da chama em seu peito, inflamando-se de vontade.

Sentiu-se como um pássaro, suas assas que por tanto tempo foram cortadas com golpes de comodismo, finalmente se libertaram e puderam, enfim, levá-lo . 

Estava livre, e só assim era pleno. Estava completo na solidão e sozinho na multidão. Nada importava, pois era livre. 

Ao contemplar do alto, viu que seu antigo estado não era exceção para o mundo, mas era a regra. Contemplou um mundo adormecido, contagiado por qualquer doença cujos sintomas eram dois terços de hipocrisia e o restante de conformismo barato, tudo cheirava a mofo. 

Gritou: era o arauto da vida. 

Sua voz foi ouvida como um sussurro, eco baixo vindo de uma realidade distante. Foi o despertar do mundo de Morfeu para que pudessem sonhar acordados e, por fim, viver em seus sonhos. 

Cenas do dia a dia se desfaziam, banais de mais para resistirem aos encantos do renascimento.  

Os que o viram passar com suas asas douradas o tomaram por Anjo. 

Era Prometeu trazendo o fogo. 

Pouco a pouco mais seres alados ascendiam aos céus, asas recém-descobertas batiam com estrondo no teto do universo. Naquele dia, ouviu-se o som da vida, do único modo que vale a pena viver: na mais completa e absoluta liberdade. 

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