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sábado, 20 de abril de 2013

Carta ao Vento


(26 de novembro de 1987)
(para o afetuoso vento)
Um tanto corrida, um pouco evasiva e talvez dinâmica. Talvez isso resuma essa semana, querido frescor. O domingo, por incrível que pareça, surpreendeu-me. Nada de ficar encarando a lareira seca por horas, nem aquecer o café ou descascar as unhas feitas no dia anterior. Nada tedioso o suficiente. Fui visitar as montanhas! Consegue crer? Fui para além do que já tinha ido da última vez, alguns anos atrás, onde o Sol se pôs de forma a parecer mais fenomenal do que os outros artifícios. Recorda-se dessa carta? Não tenho certeza se a enderecei a ti. Domingo senti o cheiro de salinização da forma mais poética que pude. O ar adentrava em minhas narinas recém curadas da gripe que me atingira semana passada, e o Sol fazia cócegas em minhas bochechas. As imagens que tirei para recordar estão anexadas no envelope, elas são tão... notórias, fazem-me querer voltar ao local todos os dias. Ou talvez, só talvez, permanecer fixada àquele dia. Nesse domingo, porém, não pude ficar o suficiente para ver o Sol se pôr. À controvérsia, não o considero a imagem mais surpreendente do local. Eu sempre preso as coisas mais simples desse lugar. A demasiada clorofila, os grãos de areia, os pedregulhos dos acostamentos... O cheiro de passado.
Segunda-feira tomou-me tão rápido quanto desapareceu. Minha memória a classificou tão desnecessária que para ser sincera, nem me recordo de algo surpreendente que tenha ocorrido. Ao oposto disso, terça-feira fora muito singular. Começara com um Sol daqueles enganosos, de verão, que nos fazem ter certeza que devemos levar um casaco na bolsa. O mais interessante dessa terça, porém, é algo que não tenho resposta, mas não pretendo procurar a explicação. O bairro inteiro, desde as montanhas ao asfalto quente, estava tomado por pétalas de dentes-de-leão. Milhares delas. Era como se um conjunto de aviões tivesse sobrevoado o bairro e soprado milhares dessas coisinhas para baixo. Dentro da sala de aula, na avenida engarrafada, no meu quarto desarrumado. Em qualquer lugar existiam essas minuciosas pétalas. Algo encantador de vivenciar. Conforme a noite fora se aconchegando, elas foram esvaecendo. E junta à noite, enquanto eu me preparava para banhar, uma chuva leve começara a cair. Leve, rápida e gelada. Somente de roupas de baixo, corri para varanda de casa para apreciar. Não me molhei o suficiente, pois o telefone começara a tocar. No fim da ligação, a chuva já havia acabado. Chuva rápida de verão.
Quarta-feira eu descobri que minha vizinha tem aquele filme em fita do qual gosto tanto. Ela emprestou-me por uma semana! Passei a tarde inteira revendo e revendo. As lágrimas foram tantas que poderiam encher um balde. Hipérboles de lado, ao menos davam para encher um copo. Quinta-feira os estudos tomaram-me de tanta responsabilidade que o resto do dia passei descansando. Pela sexta, a monótona infelicidade viera me visitar. Sim, também concordo que ela estava em atraso. Ela me fez brigar com o porteiro do prédio e desmarcar uma saída com minhas amigas. Fez-me chorar até dormir e dormir mesmo que sem sono. Fez-me cansar-me de mim mesma. Como sempre. Hoje, sábado, ela está aqui ao meu lado, desencorajando-me de escrever-te. Encorajando-me a me afastar de tudo e de todos, de infiltrar-me nessa repreensão que ela criou dentro de mim mesma. Ela é objetiva nisso e, digamos, ela consegue o que quer. Bem, querido vento, envio-lhe essa carta para agradecer-te de tua presença em minha vida essa semana. Eu sei que, no fim dela, você estará para levar todas as lembranças embora. As boas e ruins. Ajudo-te, unindo-as nessa carta.
Cumprimentos.
(Rursus)


Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Erica Prado disse...

Só posso dizer que essa carta me fez sentir tudo o que o eu lirico sentiu. Foi como conversar com o vento... linda *-*