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domingo, 2 de junho de 2013

Querida Annie,
Rasurei infinitos papeis até chegar à conclusão de que esta carta não devia ser para os fantasmas de minha vida, mas sim para você. Não que você seja algum deles, pelo contrário, você sabe bem ser meu grande apoio. Sabe também que ando em atraso para escrever para você, e mesmo escrevendo agora acho que ainda não é a hora. Sabe Annie, a vida anda tão conturbada aqui que já não sei mais para onde fugir. E quando digo aqui, falo não só do meio externo quanto do interno também, minha mente não para quieta de preocupações. Mas esta carta não é para falar de mim, e sim de você.
A questão é que acho que você precisa começar a parar de sentir medo de amarelo. Mandei essa carta num envelope dessa cor só pra ver se você teria a coragem de abri-lo e ler a carta mesmo assim. Agora que está lendo, declaro oficial seu término de relacionamento com o medo de amarelo. Que tal partir para outro?
Esse é o ponto: quero que você perca seu medo de amar. Você diz que não é medo, mas eu sei que nutre bastante receio quanto a isso. Sei também que isso tem ligação com esses tais fantasmas que te perseguem e te deixam deprimida de vez em quando. Annie, não sei se você lembra, mas antes de eu me apaixonar e te encher os ouvidos com detalhes sobre isso, eu não me permitia afirmar que estava apaixonada. E você repetia imensas vezes que eu estava, estava, estava. E eu dizia que não, não, e não, que era apenas uma quedinha. Meses se passaram até que eu me declarasse finalmente apaixonada, e por que raios eu relutava tanto em declarar o óbvio? Porque eu também tinha receios.
Sei lá, a gente tem esse medo da vida, medo de arriscar, medo de encontrar a felicidade em alguém e medo de perder essa felicidade também. Medo dos fantasmas, fantasmas da dependência de algo ou alguém que se foi, que já não vive a sua rotina, alguém ou alguma coisa da qual você dependia muito e a perca disso acarretou-lhe uma extrema falta. Quem é que não tem receio de sentir saudade?
Você diria que é algo automático, natural, você não se permite amar simplesmente por não se permitir, é mais forte que você e etc. e tal. Não é verdade! Vai dizer que você não me ama, que eu não sou seu apoio e que muitas vezes você não depende de mim? Então. Se permita apaixonar, porque isso é muito mais intenso e é algo que vale a pena arriscar. Tenho certeza que você não gosta de cair em rotinas. Quando você se apaixona, há sempre uma coisa nova durante o dia. E você acaba se apaixonando ainda mais pelo mundo, sabia?
Eu adoraria ver seus olhos brilhando por você estar apaixonada por alguém. Se não puder ser por alguém, se apaixone por algo, sei lá, alguma canção. Acho que você não anda se permitindo muito a isso também. Por favor Annie, faça isso por mim. É só um conselho do seu apoio, acho que te fará bem.
Se ainda sentir medo, repique o envelope e o assopre pela janela. Polui um pouco o mundo, mas refresca um pouco a mente. Depois disso você pode se sentir culpada e ir atrás dos pedacinhos um por um pelo seu bairro. Além de ser um ótimo exercício, você terá uma grande oportunidade de esbarrar com alguém e...

Beijos,
Sophie.

P.S.: Acho melhor eu criar fobia por ‘quês’, ando repetindo-os demais. Conte só quantos têm nessa carta! Marquei-os em negrito. Amo você.
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