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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um discurso irracional sobre Esperança, o maior mal do mundo.



Havia tempos que não se sentia minimamente feliz. E não falava de sorrisos e andares alegres, mas depois de tanto tempo na obscuridade do sofrer, qualquer sensação, ou ao menos menção de sensações boas era o suficiente para alimentar seu coração faminto. A expressão fechada, séria, cética do mundo, descentre da bondade e da verdade. E não eram os outros que a magoavam, que a mentiam, nem mesmo era a coersão que sofria por suas roupas monocromáticas e sujas: era a raiva, o amargo gosto da raiva de si própria que a corroía internamente. Estava morta, isso era visível. Morta por fora, se você fosse sensível para analisar, e morta por dentro, como só ela mesmo sabia. Mas havia se suicidado.

Andava em direção ao trabalho naquela calorosa – odeio sol – tarde de domingo - e também os domingo;, dão lugar à uma segunda-feira maçante. Sim, trabalhava nos finais de semana. Possivelmente, fora sua própria escolha, esta. Era o dia que a empresa se encontrava mais vazia, o dia em que as pessoas menos ligavam para reclamar da companhia telefônica. E eu trabalho numa companhia telefônica.


Numa miséria de companhia telefônica. Miserável como seu salário.


Mas, o que ocorre é que o sol parecia mais frio, que o chão se mostrava mole sob a sola dos seus sapatos. Não sabia exatamente a motivação da decorrência de tais fatos, mas a desgraçada da sua vizinha feiticeira poderia dizer que algo estava para acontecer. Nós sempre sentimos quando algo está a um passo de se desenrolar. Ela acrescentaria ainda que seria um acontecimento bom e revigorante. Algo vai acontecer.

E suas palavras douradas escritas em fundo preto não foram em vão. Pela primeira vez, seu otimismo não se esvaiu com o vento, nem mesmo se apagou após o tempo, e ainda no caminho à miserável companhia telefônica de paredes descascadas e salários ordinários, ele... ela... aquilo, passou. Não sabia dizer se era homem ou mulher, tinha problemas em distinguir coisas tão subjetivas. Mas era uma forma, uma bela forma que absorvia em sua pele negra... branca... incolor toda parte boa da radioatividade solar. Era gentil mesmo sem falar, apaixonante até mesmo inerte, e sedutor mesmo que cada centímetro da sua pele estivesse coberta por panos multicolores. E o principal, era que mesmo com toda a exposição, era uma forma misteriosa e também sóbria, um convite à diálogos e aproximações gulosas.


Ela não sentiu nada à princípio, e provavelmente nem depois que ele/ela/aquilo a beijou. Sim, seu beijo era amargo e doce, uma mistura de tudo o que havia de ruim no mundo, um pecado, um desejo, uma direção errada, o caminho mais estreito, a porta do inferno. Por trás desse pano se via a imagem de deus (não podia afirmar qual), que sorria com certa malícia. Mas a textura da sua língua era instigante, e enquanto ele percorria sua extensão vermelha, os lábios dela buscaram por mais.


Abriu os olhos e viu. Enquanto o beijava, sugava-o, bebia-o e comia-o vorazmente. Até que ele se consumiu.


A atendente de telemarketing era morta. Suicidada. Mas acordou na manhã seguinte com uma centelha de esperança.

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Considerações (ou desculpas esfarrapadas)

Acontece que nem sempre os projetos pessoais se desenrolam de forma fluída. Meu projeto de livro, Letargia, mostrou-se mais um broto que nunca vingou. Espera que esse nunca seja limitado, e que o livro que sonhei por meses, quem sabe anos, se torne uma árvore frutífera daqui a algum tempo.

E foi visando em completar o espaço vazio deixado pelo "fracasso", que pensei em uma nova coluna. "Comportamento", é o seu nome, e não menos poética ou narrativa é do que meu projeto anterior; ao contrário, é visível que se pode espremer muito mais sentimento com esta. Me debruço aqui, toda semana, a tratar de facetas humanas. Não das mais visíveis e gerais, mas do que é escondido, dos desejos carnais mais fortes, dos pensamentos mais cruéis e singulares de cada um. Pois afinal, somos assim, um monte de matéria inconstante.

Com carinho,
aquele escritor desaparecido, mas singelo.
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Huirian Suzin disse...

Dà até pra sentir o beijo... medo.
muito bem descrito.