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domingo, 11 de agosto de 2013

Susto é pinico

‘’Num dia eles pegaram uma abóbora verde e cortaram olhos e boca nela.
A gente morava numa fazenda porque antigamente era assim. Você morava numa roça e o próximo vizinho ficava meio longe de você, não sabia o que acontecia na sua casa e nem você sabia o que acontecia na dele. Naquele tempo, quando era criança ainda, eu era mijona. Eu mijava na cama todo santo dia. Eu tinha uma madrasta daquelas de verdade. E ela tinha uma irmã cúmplice de suas maldades. Minha mãe me abandonou sei lá porquê, e então eu vivia com meu pai e essa madrasta aí. Meu pai trabalhava o dia todo, e eu ficava em casa com ela. Naquela época, não tinha disque denúncia, não tinha vizinho ou pessoa alguma que se preocupasse com o que acontecia na sua casa. E se você saísse da linha, os castigos eram duros. E então toda noite eu ouvia ela dizer:
- O urinol! Já pegou o urinol? – Esse é o nome que a gente dava pra pinico. Os banheiros antigamente ficavam do lado de fora da casa, por isso a pergunta todo dia. Era apenas um pinico, e eu tinha que lavar ele e colocar ele pra dentro de casa quando ficasse escuro, e colocar ele debaixo da cama.
- Já, já peguei! – Pra mim ele tava debaixo da minha cama, como eu tinha deixado.
- Não pegou não, tá lá fora, vai lá! – E lá ia eu pateta, criança ainda, pro frio e o escuro do mato. Me fizeram ir lá pro meio do mato. E lá fui eu procurar o urinol, ouvindo barulho de grilo, de rã, de sei lá mais que bichos. Quando eu tava longe de casa, eles apagaram a luz, e eu só vi algo coberto com um pano branco fazendo ‘’uuuuuuuu’’ e o urinol lá no chão, com uma cabeça assustadora olhando pra mim. Era a abóbora. E eu lá me tremendo de medo, gritando, chorando, e já não sabia se tava mijada ou se tava cagada. E eu tinha que pegar o urinol, porque se não voltasse com ele apanhava.
É, minha neta, judiavam de mim. Agora você vê, acredita que a desculpa deles é que faziam isso pra tentar fazer eu parar de mijar na cama? Onde já se viu dar um susto numa criança antes de dormir, aí é que eu mijava mais ainda mesmo, eu dormia e sonhava que tava mijando de tão nervosa que tava. Quem tava coberto se fazendo de fantasma era a irmã da minha madrasta. Essa, quando voltei pra casa, ainda me bateu bastante por ter voltado apavorada e mijada. Pelo menos eu peguei o urinou. Tá vendo, é por isso que eu tenho esses problemas no coração que nem médico entende. É de tanto susto que levei na infância.’’

Das histórias de domingo na casa da vovó.
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Huirian Suzin disse...

Divertido, muito bom.