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domingo, 18 de agosto de 2013

Cartas para alguém

 Cartas para alguém



“Índia, 18 de abril de 2014.

Saudações, Lisa!

Olá, minha amada! Como está? Já chegou à Austrália? Já viu algum Canguru? Pergunto-me se já sentiu minha falta. Sim, me pergunto. Assim como todas as perguntas iniciais são – ainda que para você – para mim, essa também é. Você sabe que sempre fui curioso. Minha curiosidade me leva a questionar, mesmo que minha única certeza seja a de que não receberei respostas. Isso me fez – e me faz – desperdiçar minha vida estudando religiões. Nunca saberei quais costumes seguir, ou qual Deus me salvará da morte e da vida, mas ainda assim pesquiso sobre cada um.
Como você bem sabe, isso que me trás aqui. Desbravar a antiga índia, e sua riquíssima cultura. Cultuar seus animais e me purificar com seus rituais. O que me faz nunca ter certeza é algo intangível, algo que não posso mudar, tal o que faz das minhas perguntas a ti perguntas a mim. Não posso mudar a palavra dada, Lisa. Prometemos que não enviaríamos cartas, e ainda que eu anseie para te ver quebrando a promessa, não a quebrarei eu. Tivemos nossos motivos, é verdade. Não poderíamos atravancar os sonhos um do outro, não é mesmo? Iríamos ambos para Terras de amores impossíveis, ainda que só para nós.
Eu sempre fui um homem de palavra. Você sabe disso e conhece o que vou contar, mas uma vez que a carta não chegará até você, não preciso me preocupar em ser repetitivo. Lembra do nosso quase casamento? Trai toda minha falta de fé por você. Trai também minha paixão por trajes aconchegantes, mas não pude trair meu compromisso com a verdade. Não fui capaz de responder sim ao padre. Eu não sabia se estaria contigo em todos os momentos, e graças a isso tomei a verdade como esposa e você como amante. E graças a isso, somos dois realizadores de sonhos, Lisa. Ou ao menos eu sou. Queria saber se você também o é...

Com Carinho, o covarde do teu marido.”

“Índia, 18 de junho de 2014

Amada Lisa,

Dois longos meses separam esta carta da outra. Longos e maravilhosos meses, embora este não seja um dos melhores dias. Não vale citar o que me causa tristeza. Talvez você pudesse argumentar que vale, mas no caso de não receber a carta, creio ser inviável e, nesse caso, voltemos um pouco aos dois meses passados. Já citei que foram maravilhosos, não é?  Tanto faz, na verdade. Aprendi que não é redundância quando é de propósito: ganha status de figura de linguagem.
Bem sabe que estudei inúmeras religiões, sempre as escolhendo por um motivo, com a hindu não foi diferente.  As divindades estão entre nós, amor! Em todas as outras culturas anteriormente estudadas os deuses estão em seus Céus, Montes Olimpos ou salões de Asgard, aqui não, minha querida, eles estão na rua. Ao contrario dos outros, que usam parábolas, malabarismos teóricos e metáforas, alguns dos deuses deste magnífico país simplesmente cagam e andam para nós, nas ruas, da forma mais literal possível.
Confesso que estou entrando nessa aventura de corpo e alma, minha querida. Agora cultuo a vaca, e não a carne em minha grelha. Quem poderia imaginar que eu não estaria com ela na saúde e na doença, não é mesmo?  Embora a parte da vestimenta seja simples, hoje este doti está me incomodando. Tenho um casamento mais tarde, mas minha vontade seria ir de bermuda e regata. Sei que você me apoiaria, mas como pode se nem mais me lê?

Atenciosamente, seu amante.”

Índia, 15 de Julho de 2014

Lisa,

Inicialmente a ideia era escrever trimestralmente. Seria o suficiente até mesmo para um livro, quanto mais para desanuviar minha mente. Provavelmente o livro nunca seria publicado, nem mesmo por uma editora de bairro. Não que você – ou eu – tenha algo contra, mas vou parar de divagar. Bom, não aguentei os três meses, mas achei que dois era uma quantia razoável.
28 dias depois, estou eu aqui. Tentei completar ao menos um mês, mas é impossível, de forma que escrevo essa carta torcendo para que escrever cartas não se torne, com o tempo, meu único oficio nesta terra abençoada, que tem tanto a oferecer, ainda que não possa te oferecer. Não pode me oferecer nem você e nem carne, é verdade, mas em que outro lugar eu poderia ver mulheres belíssimas de sari?
Acho eu cada vez mais tomo consciência de que estas cartas jamais chegarão à você e me permito falar coisas das quais não falaria. Confesso, além disso, que prefiro o clima daqui. Ainda que sempre tenha te dito o contrario, odeio o frio com todas minhas forças, e o calor indiano é apaixonante. Isso e as pessoas a cada esquina, cada uma com sua própria vertente religiosa. Tantos encantos a descobrir. Tantas Índias a conhecer. Fico por aqui, na esperança de me demorar ao menos quinze dias antes da próxima carta.

Aguardando sua quebra da promessa, Vitor.”

"Lisa,
Dois dias, foi tudo que aguentei antes de escrever esse bilhete.
Beijos, Vitor.
17/07/2014"


"Índia, 25 de Julho de 2014

Pela última vez, Lisa,

Esta é a ultima vez que escrevo uma carta endereçada a ti e não te envio. Considerando que já prometi que não te enviarei cartas, é a última vez que te – me? – escrevo. Cansei das mesmas perguntas, minha cara. Qual a necessidade delas, eu te pergunto?
Qual a necessidade de estar na Índia se tudo o que faço é escrever cartas e bilhetes a ti? E já começo essa carta me traindo: mesmo que eu cumpra a risca minhas palavras, as cartas continuaram a surgir mentalmente, enquanto tento em vão pesquisar a cultura deste local.
As favas com o Taj Mahal. Não quero saber de sua história, do romance por trás dele, do sonho abortado, não quero saber nem mesmo se qualquer uma dessas coisas é verídica ou, ao menos, faz algum sentido. Minha vida deixou de ser verídica e fazer sentido quando comecei a escrever as cartas. Ou isso.


Pela última vez, Vitor." 

“Índia, 01 de Agosto de 2014

A qualquer um que não a Lisa,

Nesta carta te trago apenas dúvidas. A primeira: a quem desejei enganar com todas estas cartas? Certamente não a você. Porque eu tentaria te enganar com cartas que eu não te envio? E porque te pergunto coisas se eu mesmo terei de responder? Porque ainda te escrevo a mim?
[...]
Por que tenho necessidade. Já havia descoberto quando comecei a escrever essa carta, e provavelmente as outras, mas agora, seis horas depois, admito isso para mim.
Não posso trair minha promessa, de não lhe enviar essas cartas, mas posso trair meus sonhos, mas precisamente meu sonho da Índia, de dominar sua religião. Posso enfim descobrir que meu sonho nunca foi descobri-la, mas sim te descobrir. Posso enfim prometer ama-la e respeita-la, na saúde ou na doença, na Índia ou na Austrália.
[...]
Por algum motivo, ainda me importo em terminar esse reinicio. Essas cartas não podem ser lidas por você, e nem há porque eu as reler, afinal, que existe aqui que não existe em minha mente? E por que diabos devemos guardar coisas que nos remetem a lembranças que não se fazem lembrar por si só?
Essas cartas são, no fim, uma experiência e uma forma qu’eu encontrei de organiza-la. Uma cicatriz que não carregarei comigo. Que será sepultada aqui. E, se desenterra-la, faça o favor de volta-la ao seu mausoléu, não depois de lê-la, mas sim quando carregar a cicatriz não for mais necessário.

PS: E, por favor, uma vez que não prometeu nada, mostre-as a minha amada.

Em um último adeus, alguém que esteve aqui.”

Esse mês, nós do céu literário decidimos abordar diferentes países como tema. Vejam aqui o país mágico de Daniel e a Veneza de Mara.

domingo, 7 de julho de 2013

Alma de capitão (.De capitão) pirata

 Alma de capitão (.De capitão) pirata 

“O problema de ser o último em qualquer coisa é eu aos poucos não restará mais ninguém.”


A paisagem era simples. Um pequeno casebre de madeira. Ficava numa praia isolada, de tudo e todos. De um lado apenas areia, do outro as rochas. Dentro da casa, havia objetos por sobre uma mesa. Uma concha, um crânio, uma espada, uma bússola, uma lâmpada, um jarro, alguns livros e alguns instrumentos musicais.. Eram objetos antigos. Com história e pequenos resquícios de alma de pirata. Hoje, as ondas banham a areia. Dóceis. Mas quando os piratas eram mais que resquícios de almas em objetos antigos, as ondas rebentavam nas rochas, furiosas.
É comum dizer que os piratas eram donos das ondas, mas não pode haver pior mentira. Sempre foram conquistadores, rei de seus barcos, por sobre águas selvagens, e estavam para as ondas muito mais como inimigos que às vezes se entendem do que amigos que as vezes se desentendem.
E assim como as ondas eram inimigas dos barcos, os piratas eram inimigos entre si. Anne, capitã do Concha divina era tida como Deusa em seu convés, e como puta no Convés de John, do Amantes das ondas – reza a lenda, tão mentirosa quanto a outra, que havia em seu navio um jarro de vinho, misturado a água salgada, que fazia com que as ondas se curvassem sob a vontade do capitão.
Já Salazar, o infernal, demarcava seu território com o som de seu terrível alaúde acompanhado pela voz de cem cantores escravizados, a corneta de seu imediato e a flauta de seu contra-mestre, em canções que narravam as atrocidades que nunca havia feito com Stewart, o estrategista, conhecido por anotar suas batalhas,primeiro a usar artifícios como lâmpadas e bússolas em alto mar.
Apesar de tudo, nem sempre a recíproca era verdadeira. Ainda que Anne quisesse todo o mar para si,  Joe a amava, tal qual amaria qualquer mulher com tino e coragem para comandar um vazio e assim como odiava qualquer homem que se atrevia a tentar domar as mesmas ondas que ele, e os caçava implacavelmente sempre precedido por seu apelido, “O Envenenado”. Apelido injusto, por sinal. Rezava a lenda que sua espada era envenenada, mas hoje se encontra no casebre, cega. Tão mortal e venenosa quanto qualquer outro dos itens.
E por ultimo Jack, o sem nariz. Apesar de não ter nariz, tinha faro para a desgraça.  E isso o fazia saber exatamente quem evitar ou o que, já que os inimigos de um homem do mar nem sempre são outros homens do mar. Sua tripulação e frota cresceram, ao longo dos anos. Ia recrutando náufragos e ex-tripulantes de outros barcos, sempre pautando suas decisões em pura intuição. O primeiro dos dominadores marítimos a cair foi Stewart.
Ele podia e tinha tudo o que um humano pode ter a seu favor, exceto o sobrenatural. Seu plano para a tomada da tripulação e dos conveses do Jack não contava com a súbita mudança de outras inimigas sempre presentes em disputas piratas: as ondas. Foram estas que deram fim a quase todas suas histórias e seus instrumentos, excetos os que se encontram sob a mesa.
Já as desgraças de Joe e Anne fora apenas assistidas por Jack, a distancia, como não poderia ser diferente, já que ele farejou o que aconteceria naquele local, sabe deus como. Foi retaliação, e não uma disputa que os levou ao óbito. Anne cansou de ser perseguida em seu território pelo envenenado, e ainda que com menor contingente e menos armamento, decidiu partir para a batalha.
A manteve a seu favor por um bom tempo, em que Joe simplesmente se recusou a dar ordens à tripulação de atacar a frota de sua amada, mas um dos marujos tomou sua espada e seu comando, fazendo com que a verdadeira batalha se iniciasse. A essa altura estavam ambos os capitães em pés de igualdade, e a batalha só findou quando as ondas passaram a recolher os restos dos navios, e os poucos marujos que restaram de ambas as tripulações eram acolhidos ou rejeitados no “Traidor amaldiçoado”, tendo bens como munição, armas, tesouros e outros como uma espada e uma concha confiscados por Jack, em troca de um esfregão e um balde, para limparem o convés.
E então, o ultimo embate entre os últimos piratas donos de um pedaço de mar já grande demais para eles, longe demais de qualquer cidade a ser saqueada. Um embate que, em verdade, ambos temiam vencer, mas apesar disso, piratas temem mais ainda perder seus navios que qualquer coisa, e por isso a guerra é necessária. Sim, guerra. Com direito a traições, muita pólvora e ondas tingidas de sangue. Ondas essas que, presentes em tantas batalhas entre os dois, sem outro vencedor que não elas, apenas assistiram, o fim de Salazar, ele e cada um dos membros do “Coral demoníaco” serem dizimados e terem seus instrumentos tomados pelos comandados do terrível Jack.
Jack se transformou então em Jack, o ultimo ainda que relutasse em aceitar a alcunha, na esperança de achar algum inimigo além das ondas. Ondas. Ainda que tivessem estraçalhado inúmeros navios, fossem terríveis em tempestades, são só isso. Apenas ondas, com sangue de pirata, mas sem alma de capitão.  Alma essa que só restava em Jack, motivo pelo qual nunca sofreu motim, mesmo decidindo por continuar a vaguear naquelas águas inférteis.
Por fim, ele decidiu que já não valia navegar se não pudesse exercer seu oficio, tomou um navio e rumou para costa, navegando sozinho e as poucas batalhas contra as ondas eram a parte mais tediosa da viagem. Não levou nenhum marujo consigo, mas todos os objetos recolhidos ao longo das desgraças que seus olhos tinham testemunhado.
Construiu, na praia, uma casa de madeira. Não madeira do navio, jamais ousaria, podia ter abandonado o mar, mas ainda era o Capitão Jack, o em nariz. O navio foi entregue as rochas, como desejavam as ondas. Jack manteve guarda em sua casa o resto da vida, aguardando que pudesse enfim se reagrupar no inferno com seus inimigos. Jack morreu há muito tempo, e hoje a maior parte de seus ossos, tais como outros tecidos não se encontram mais na casa, sobre a mesa. Sua única parte que resistiu, foi o crânio, tal quais os objetos de Anne, Joe, Stewart e Salazar. Todos mantidos intactos graças à história. Graças aos resquícios de alma de capitães piratas.

Mais um texto escrito para a iniciativa do céu literário, que conta com grupo e fanpage no facebook. Os temas foram guerra e inverno e contou com as participações de Huirian, Mara, Lucas e Daniel.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Visconde

Texto feito em parceria com o Lucas Rodrigues, ex autor da Decadência.



[HUMBERT]
Restou somente o sabugo, Juliete.
Fiquei assim jogado, desamparado por você que só sabe ir embora e me deixar no abandono na minha própria falta de serventia. Porque sou somente um sabugo, Juliete. Um Visconde sem valor e inteligência – sem nobreza, sem amor, sem céu: sem glória.
Restou-me, Juliete.
Restou o que você não quis abraçar com seus braços sufocantes. Desse nosso amor (amamos?) sobrou a espiga seca e putrefada, jogada em um beco qualquer, ao relento, ao tempo, sendo chutada pelos transeuntes que no fim fazem a mesma coisa que você: descartam. Pois há quem diga que o mundo é feio de movimento, eu digo que ele é feito de despedidas – abandonar a infância, a adolescência, os sonhos e a própria vida.
Mas dos meus lábios você não ouvirá nem o mais simples adeus – não sei deixá-la.
Meu adeus é também ficar.


[JULIETE]
Como eu poderia, Humbert? Como eu poderia não esgotá-lo até o sabugo? Ouça – é o vento que bate no teu reino, sacudindo teus milharais. Mas eles são seus? Acho que você é o Humbert errado. Acho... Ouça! – é de você que vem o vento que afaga meus cabelos. É de você! O vento que me afaga, que me refresca, que me esfria, que me arrepia. O que eu vou querer de um sabugo, Humbert? Mas ele é você? Acho que você é o Visconde errado.
Acho que está tudo errado, Humbert, está tudo errado com a gente, mas eu não sei dizer o quê! Não fui eu que nos esgotei, Humbert, acho que o espantalho não funcionou, o espantalho não espantou os corvos – eles nos devoraram, nos devoraram e diziam “nunca mais”. Eles estão errados ou nós não seremos nunca mais os mesmos de antes? Não seremos nunca mais as crianças que roubavam doces nos jantares de família e se escondiam na copa das árvores e liam O Pequeno Príncipe e treinavam ortografia com troncos de árvores e facas furtadas e que... e que... que mais Humbert? Que mais nos foi devorado?


[HUMBERT]
Nem liga Juliete.
Ignore o vento e a desesperança: só os corvos importam. Não os espanto; eu gosto quando eles devoram. Tenho-os como amigos, mesmo que eles machuquem mais do que você, mesmo que eles sejam somente tatuagens na minha pele que você não procura mais no cinza do nosso quarto cinza – na lama do nosso caos, do nosso desarrumado organizado pela nossa preferência e pelos dedos ágeis de Johnny.
É isso que dizem que é se sentir bela metade....? Ah, sinto-me assim desde que nasci, como se tivessem me arrancado algo para moldar você. Sou fruto, você é a semente. Floresca, Juliete! Cresça pelas gramíneas do meu milharal morto porque eu como espantalho sou mais inútil que escritor – um escritor que odeia palavras e um espantalho que sorri aos corvos.
Dê milho aos corvos ou pérolas aos porcos, não importa, o desperdício é o mesmo.
E o desperdício sou eu ainda tentar viver fora de você.


[JULIETE]
Não se preocupe, Humbert – eu não ligo. Há, por acaso, um belo mais belo que o belo do bico de um corvo a arrancar todas as suas palhas de espantalho? Deixe que o corvo lhe retalhe, ele puxa sua pele em câmera lenta, ele devora minhas entranhas em câmera rápida, ele na verdade somos nós, então por que usar a terceira pessoa? Poe quê? Oh, Humbert, consegue domar o meu sadismo? Devora-me. Pedacinho por pedacinho, devora-me e deixe só o sabugo. É só o sabugo que importa, é do sabugo que veio o Visconde, e é do sabugo que veio você, que é o Visconde errado e é o Humbert errado. E se fosse o certo eu nem lhe dirigiria o olhar. Mas eu dirijo, de soslaio, tão a troco de nada que nada que sigo minha vida e te deixo aí para ser devorado, porque meu espantalho não conseguiu te proteger.
Eu não vou dizer que não te salvo porque não posso. Eu não vou dizer que não te salvo porque não quero. Eu não sei por que não te salvo, mas eu não te salvo, Humbert.  


[HUMBERT]
Você se lembra de que existe algo seu que vive no meu limiar? Algo que me consome aos poucos me devora tal Caetano. Tal os corvos devoram meu corpo de espantalho que não sabe espantar. Scarecrow. O assustador de corvos é quem se assusta, na verdade. Não com o seu sadismo, não com a sua maneira de me deixar a mercê de meus próprios fantasmas – que no fundo são aqueles que viviam em você. Assusto-me com a crueldade em que permito mutilar-me. Marco-me para a eternidade com as chagas do Nosso Senhor Pecador de Nós Mesmos.
Sou santo em matar-me em nome do nosso amor que nunca existiu? Sou demônio por gostar de gostar sentir dor. Não. Vai. Passar. Dói, sempre vai doer. Porque os corvos no fundo não querem atacar o milharal – eles só querem o espantalho. Só querem rasgar a palha – e você sabe disso mais do que ninguém, Juliete.
Você também é corvo, assim como eu.
Junte-se assim nessa festa de autoflagelação e vamos esquecer que somos os sabugos largados ao chão, sem importância e utilidade. Já fomos milho, hoje não nos resta nem os bagaços. Já fomos nós, hoje somos somente você. Então dance comigo querida, dance enquanto seu mundo é caos, meu mundo é caos, mas o caos ainda é ordem! Dance nossa marcha funebre de quartos cinzas e batida constante enquanto o violão acompanha a voz rouca e a TV só está ligada para analisarmos a fotografia do nosso filme em preto-branco-e-eu-não-sei-dançar-com-você.
Nem o sabugo restou.


[JULIETE]
Corvos. Que importam os corvos? Que importamos nós? Eu sou um passarinho preto num jardim com florzinhas. Vamos ler a bíblia, Humbert? Talvez sejamos salvos – só assim.
Mas não quero deixar o sabugo. Deixar o sabugo é admitir que falhei. Porque o que quero de você está nas suas entranhas, está no fundo profundíssimo, daqueles que não se alcança sem antes retalhar cada pedaço do que o cobre, porque cada fragmento de tecido seria capaz de ocultar, então cada fragmento de tecido deve ser eliminado. Esse sabugo esgotado e exposto é você, Humbert? Ou sou eu? Não sei mais a diferença. Acho que cheguei (ou chegamos? Ou só você chegou) ao ponto em que nada fica muito distinto, como você não se distinguir de mim e não se distinguir de nós e não nos distinguirmos de corvos e não sabermos distinguir corvos de espantalhos. Quem devora? Quem é devorado? As vírgulas fugiram no primeiro bater de asas. A sanidade, a lógica, a cronologia, tudo, tudo. Nenhuma dimensão restou para contar estória (assim, com ‘e’, porque história com ‘h’ não interessa, história com ‘h’ nunca é verdade).
A verdade é a pior das mentiras, Humbert. E nosso amor é a pior das verdades.


[HUMBERT]
E nossas mentiras o mundo já engoliu. 


Feito para o Céu Literário.
O tema deste mês é milho (isso mesmo). Você pode conferir outros textos com o mesmo tema aqui e aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Céu Literário

Céu Literário

            Céu Literário é uma iniciativa que visa incentivar a escrita entre jovens e divulgar estes textos.          Primeiramente, é escolhido um tema mensal pelos blogueiros envolvidos, o que é feito em duas fases: Primeiro um tópico é criado no dia dez do mês para que sejam sugeridos temas. Após isso, no dia 20, esses temas são colocados em enquete aberta para todos os membros do céu literário. Enfim, dia primeiro, o mais votado é escolhido.
            Com o tema escolhido, resta escrever. Cada um pode escrever o que bem entender, nos mais diferentes formatos e gêneros, desde que tenha a ver com o tema central.  Os textos, depois de escritos e publicados, devem ser linkados num tópico que é criado todo dia primeiro, para que os outros escritores tenham facilidade em localiza-los e poder linka-los no final de seus próprios textos.
            Dessa forma, cada escritor ganha diversos links externos permanentes, e visitas de leitores dos mais diferentes blogs, além do grupo do céu literário funcionar como um lugar para os escritores se conhecerem, marcar promoções e etc.
            O mais importante a ser dito do Céu, é que ele é para todos que o quiserem. Sintam-se convidados a fazer parte desta iniciativa, mesmo que apenas curtindo nossa fanpage.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Carta sobre o silêncio endereçada àqueles que não sabem o que falar.




“O que quer o povo afinal? O povo é um caos sumptuoso. Quer cantar? Dançar? Trabalhar? Comer? Beber? Dormir? Copular? Sim, isso tudo, e mais? (...) São bifes do lombo em molho de natas? (...) Talvez, um inverno menos branco? (...) Porventura, um céu com amoras? Ou cavalos que mijem vinho? (...) Vou dizer-vos o que o que o povo quer? Meus amigos e minhas amigas... O Povo... Quer... O Povo... Quer... (pausa prolongada)... Eles não sabem. É isso mesmo: ELES-NÃO-SABEM.”
(Um Piano Para Cavalos Altos – Sandro William Junqueira)

As pessoas permanecem em silencio porque não sabe o que dizer.

As pessoas estão insatisfeitas. Em todos os lugares, em todas as classes sociais, em todas as idades, as pessoas estão insatisfeitas. Elas sentem que algo está errado. Elas olham para o mundo, para a sociedade, e veem que tem algo errado ali. Que algo tem que mudar. Que o mundo tem que mudar. Em algum momento da vida, elas vão perceber que obedecem a padrões, que devem estudar, que devem ter um bom emprego, que devem seguir a moda; vão perceber que precisam fazer isso para se alimentar, para alimentar suas famílias, seu animais de estimações, alimentar seus vícios, suas vaidades, seus medos... Perceber que não são livres. Que estão sempre com algo faminto dentro de si que deve ser alimentado. Que são escravos dos monstros insaciáveis que são elas mesmas.

Mas pergunte a essas pessoas que sabem que algo está errado: qual é o problema? Qual é o grande problema? O que faz com que o mundo seja desse jeito? Por que as coisas são assim?

Elas não sabem.

Tem uma coisa que faz parte do ser humano, que é a busca por respostas. E as respostas estão em todo lugar. Em tudo o que está explícito, há respostas. Na religião, o que está errado é o diabo. Na família, o que está errado é o comportamento do filho. Na escola, o que está errado são as notas. O trabalho, o chefe. Na sociedade, a corrupção. Na natureza, o aquecimento global. Esses são os problemas que todos enxergam, esses são os problemas que são apresentados às pessoas. E todas essas respostas são superficiais. Elas servem para deixar as pessoas ocupadas.

Não se enganem: há sempre um problema colocado à frente das pessoas para que elas se ocupem e não tenham tempo para procurar a resposta do “o que está errado?”

Para os religiosos, todos devem rezar para formar um mundo melhor, e eles estão fazendo sua parte. Para os ativistas políticos, todos devem lutar para o governo ser mais honesto, e eles estão fazendo sua parte. Para os ambientalistas, é preciso que todos cuidem do meio ambiente, e eles estão fazendo sua parte. Todos eles creem que estão fazendo a sua parte. Acontece que fazer a sua parte não existe. Captem isso: FAZER A SUA PARTE É UMA ILUSÃO!

A sociedade está fragmentada em grupos. E são muitos grupos. Religiões, tribos urbanas, gerações, classes sociais, preferências políticas... As pessoas estão divididas. Cada uma acredita em uma coisa. E então quando você pensa: “Vou fechar a torneira enquanto escovo os dentes. Todos devem fazer isso. Se cada um fizer isso, o mundo será mudado. Eu estou fazendo a minha parte.”, você está fazendo o que você acredita, mas não existe essa história de se cada um fizer isso, porque as pessoas não vão fazer. E, mesmo se fizerem, o mundo não vai mudar. E sabe por quê?

Porque as pessoas estão divididas. Porque não há uma única ideologia vigente em nossa sociedade ocidental capaz de unir todas as pessoas do mundo em prol de uma única causa. Nem mesmo o cristianismo é tão forte. Nenhum partido político convence a todos. Há sempre quem vai criticar isso.
Então, o que está errado? O que está errado no mundo? Que direito eu teria de dizer que o que está errado são as pessoas?

Não é. As pessoas continuam não sabendo o que está errado. As pessoas não tem culpa.

O povo é instável demais para fixar-se em algo, fragmentado demais para unir forças em prol de uma causa.

O povo está perdido.

E quem o encontrou foi o capitalismo, que dividiu o povo em pequenos grupos que não sabe o que quer, e deu a cada grupo uma causa fútil pela qual lutar. Sim, fútil. Todas as causas são fúteis.

As pessoas sabem disso. Elas sabem que não mudarão o mundo e se conformam com isso. Contanto que possam mudar de vida, tudo bem. Tudo bem.

Tudo bem?

Não.

Não é para todo mundo que está tudo bem. Há quem queira mudar o mudo. E para essas pessoas que querem mudar o mundo, também há ilusões, também há problemas que lhes são apresentados. E que são absorvidos por eles. Causas falsas pelas quais lutar.

Como o Mensalão, por exemplo. Ou as inumeráveis campanhas contra a Rede Globo. Ou as campanhas contra Marco Feliciano e Renan Calheiros. ou a PEC.

Se o governo fosse bobo, não estaria no poder. Aquelas pessoas que estão assistindo a novela, vendo jogo de futebol e agradecendo o Lula e a Dilma pelo Bolsa Família não preocupam a ninguém. Não preocupam ao governo. As pessoas que preocupam o governo são aquelas que querem lutar contra a alienação. E eles sabem que programas de TV e reportagens não resolverão isso. A única coisa que pode ser entregue a esse grupo de pessoas que querem mudar o mundo, é uma causa. Uma causa capaz de acender nessas pessoas o fogo da revolta e então consumir esse fogo por completo.

Um deputado racista e homofóbico seria perfeito para isso. Seria um dedo na ferida capaz de atrair todos os olhares e consumir todas as chamas revolucionárias até que elas parem de queimar. E então essa causa vai perder toda a força. Nenhuma dessas falsas causas termina em alarde, como a grande Revolução Francesa, ou a Revolução Russa, que se tornaram inesquecíveis. Não, essas falsas causas, depois de gastarem toda a energia do povo, acabarão por si mesmas, perderão a força, serão ridicularizadas, serão desmoralizadas, serão esquecidas. Esquecidas até mesmo pelos próprios adeptos.

E é assim que acaba. Foi assim com a SOPA. Foi assim com Renan Calheiros. Está sendo assim com Feliciano e com a PEC.

E no final não há solução. Porque, depois de consumir todo o seu fogo, as pessoas continuam sem saber o que é que está errado.


As pessoas permanecem em silêncio, porque não sabem o que falar.





Texto escrito para o Céu Literário. Outros textos sobre silêncio: Vitor Vallomboroso, Huirian,  Huirian,  Amanda,  Felipe, Mara e Dora
Esta Carta pertence à coluna Mais de Mil Cartas Antes de Dormir

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Limbo dos poetas - Silêncio em três atos

Silêncio em três atos



               Nesta quarta edição do limbo dos poetas, trazemos um poema de nossa querida Dora! 
Deseja ter sua arte publicada aqui? Nos envie seu texto, prosa, poesia ou prosa potética no e-mail adecadenciadoanjo@hotmail.com e, se possuir blog, envie junto para que possamos linka-lo!




Enterre as letras, Manuel.
Enterre os poemas, os dizeres.
Maria não te ama mais, meu velho.
Maria não te escuta mais!

Afogue-se em teu vinho, cumpadre.
Beba o difunto, beba à amiga dor!
Mas não te esqueças das palavras,
Formadoras das terríveis ilusões.

Maria uma vez amou os adjetivos,
Àqueles que compunham teus poemas.
Amou quiçá teus erros de escrita, de ignorante.

Mas hoje ela odeia tua prosopopeia,
Teus dizeres apaixonados, teus anseios!
Hoje Maria quer teu silêncio, cumpradre Manuel.


“Avista aquele homem ali, José?”
“Aquele caído na sarjeta?”
“Este mesmo, José.
Gostaria de saber qual é seu problema?”

Manuel engoliu mais um gole da pinga,
Banhada a lágrimas e saudade.
Em suas mãos, um papel sujo e manchado,
Manchado com sua dor e sua pieguisse.

“Uma vez, há muito tempo, ele amou.
Amou palavras, romance e Maria.
E então veio o fim, seguido de um ponto final.”

Manuel sequer ouvia, sentia ou vivia.
O papel borrado fundira-se à sua pele,

Lembrando-o dia após dia das odiadas palavras.



Anos a fio passou-se desde o início.
Manuel permaneceu sofrendo, calado.
Pois houve um dia, há muito tempo atrás,
Que ele falou e – adivinhe? – escreveu!

Desde aqueles dias, as palavras eram silêncio.
Eram ouvidas ao vento, intermináveis.
Nunca quietas, nunca caladas!
Eram os vampiros da vida de Manuel.

Pois um demônio não esquece sua presa.
Afinal, há muito tempo, Manuel o amou.
Amou as palavras e sua sonoridade.

E somente por isso, elas o atormentavam.
E assim seria até sua morte – quiçá depois.
Maria estaria nos poemas e em seu coração,
Para o terrível sempre.



Texto escrito para o Céu Litérário. Outros atos sobre o silêncio, de Vitor Vallombroso, Huirian, Huirian, Amanda,Felipe e Mara.



terça-feira, 30 de abril de 2013



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          Texto inaugural do mês de maio no céu literário, sobre o silêncio. Vejam uma excelente poesia do Huirian aqui, uma prosa do mesmo autor aqui, uma poesia não menos excelente, do Felipe aqui, leiam sobre o Vale do Silencio aqui, sobre as cores dele aqui e sobre o Silencio de Dora aqui e podem nos procurar aqui.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnavaliar

Carnavaliar



Tirem as máscaras de tinta e verdade
Ponham as de arrogância e saudade
Do que jamais puderam ser

Nada mais de confete pro ar
Nem serpentina. Deixem o céu lagrimar.
Toda a dor que são obrigados a ter

Marchinhas e samba-enredos não tem mais lugar
O Momo e a Da bateria não podem mais reinar
Apenas servir ao sofrer

Foi-se a alegria do cantar e encantar
Calem a arte e a felicidade
Volta-se ao não ser

Parem de comemorar, a alegria não tem lugar
Esperem mais um ano, para carnavaliar
Enquanto padecem de viver

Outras carnavaliações aqui, aqui, aqui e aqui.

Este foi um texto escrito para a iniciativa do céu literário, quem quiser saber mais sobre pode acessar o grupo ou o blog do projeto.