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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Das Musas Que Afogo em Vinho Tinto



Mergulha em depressão,
Musa minha tresloucada
Faz-se em sofreguidão
Menina minha desamparada.


Afoga-se em mares já percorridos
Espera dos meus lábios não, mas ouve sim.
Sim, não quero mais seu amor em lirismo desmedido.
Não, só quero de você o desfastio desfalecido.



Porque afogo-me quanto mais subo em sua alma, musa minha
Mergulho, mas não sei nadar nesse seu amor que fere sem querer.
Não sei se confesso, mas ouvirá meus lábios dizer:
Se é Erato, só te quero Euterpe – de você não quero mais que prazer.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Dos Mesmos Mergulhos da Mente Que Sempre Sucumbe ao Amor

Dos Mesmos Mergulhos da Mente Que Sempre Sucumbe ao Amor





Salve-se querida e não olhe nos meus olhos. E não deixe que esse sentimento que carrego acabe com sua beleza distópica. Porque beleza fere e eu salvo. Porque eu salvo, mas também destruo. Obedeça-me e não olhe para o que já sabe amar. Sucumba. Reconstrua-se nessa nossa falta de olhar – mergulhe e mergulhe e mergulhe e mergulhe... Afunde-se! Deixe-se levar por e para mim, sempre. Permaneça imersa: uma vez mais. Mesmo sem. Mesmo com. Mesmo, porque por mim você tem amor e por você eu tenho duas vezes mais! Mas não desabroche, querida; não divida-se. Deixe que eu a guie por caminhos já percorridos – por mares já navegados: por afogamentos já realizados. E envolva-se despida de você mesma em minhas águas escuras, deixe-se levar. Morra se preciso for! Mas salve-se! Mergulhe em mim e toque fundo; toque minh'alma que você não vê, mas sente. Sinta-se em mim, dentro de você, rasgando seus pulmões, queimando a carne, o tempo, o mundo. E sinta todos os sabores que a morte pode oferecer. Porque no final Hades tem gosto de amor.

Mas só no fim.

Porque o fim é o começo e mesmo sem saber o que sou você joga-se de encontro as minhas águas turvas. Você não pode enxergar, mas ama. Ama seu menino amado: seu alado. Sou seu, mas não me rendo, pois nessa distopia do jogo da sua beleza contra a minha escuridão (pois não pode enxergar!) são seus olhos que se rendem. E fecham-se. E não podem enxergar, mas veem. Veem que o que a inunda não é puro, não é verdadeiro, não é real. O que a enche é amor.

Porque eu posso salvar sua vida: mas você só vai (me) partir.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Visconde

Texto feito em parceria com o Lucas Rodrigues, ex autor da Decadência.



[HUMBERT]
Restou somente o sabugo, Juliete.
Fiquei assim jogado, desamparado por você que só sabe ir embora e me deixar no abandono na minha própria falta de serventia. Porque sou somente um sabugo, Juliete. Um Visconde sem valor e inteligência – sem nobreza, sem amor, sem céu: sem glória.
Restou-me, Juliete.
Restou o que você não quis abraçar com seus braços sufocantes. Desse nosso amor (amamos?) sobrou a espiga seca e putrefada, jogada em um beco qualquer, ao relento, ao tempo, sendo chutada pelos transeuntes que no fim fazem a mesma coisa que você: descartam. Pois há quem diga que o mundo é feio de movimento, eu digo que ele é feito de despedidas – abandonar a infância, a adolescência, os sonhos e a própria vida.
Mas dos meus lábios você não ouvirá nem o mais simples adeus – não sei deixá-la.
Meu adeus é também ficar.


[JULIETE]
Como eu poderia, Humbert? Como eu poderia não esgotá-lo até o sabugo? Ouça – é o vento que bate no teu reino, sacudindo teus milharais. Mas eles são seus? Acho que você é o Humbert errado. Acho... Ouça! – é de você que vem o vento que afaga meus cabelos. É de você! O vento que me afaga, que me refresca, que me esfria, que me arrepia. O que eu vou querer de um sabugo, Humbert? Mas ele é você? Acho que você é o Visconde errado.
Acho que está tudo errado, Humbert, está tudo errado com a gente, mas eu não sei dizer o quê! Não fui eu que nos esgotei, Humbert, acho que o espantalho não funcionou, o espantalho não espantou os corvos – eles nos devoraram, nos devoraram e diziam “nunca mais”. Eles estão errados ou nós não seremos nunca mais os mesmos de antes? Não seremos nunca mais as crianças que roubavam doces nos jantares de família e se escondiam na copa das árvores e liam O Pequeno Príncipe e treinavam ortografia com troncos de árvores e facas furtadas e que... e que... que mais Humbert? Que mais nos foi devorado?


[HUMBERT]
Nem liga Juliete.
Ignore o vento e a desesperança: só os corvos importam. Não os espanto; eu gosto quando eles devoram. Tenho-os como amigos, mesmo que eles machuquem mais do que você, mesmo que eles sejam somente tatuagens na minha pele que você não procura mais no cinza do nosso quarto cinza – na lama do nosso caos, do nosso desarrumado organizado pela nossa preferência e pelos dedos ágeis de Johnny.
É isso que dizem que é se sentir bela metade....? Ah, sinto-me assim desde que nasci, como se tivessem me arrancado algo para moldar você. Sou fruto, você é a semente. Floresca, Juliete! Cresça pelas gramíneas do meu milharal morto porque eu como espantalho sou mais inútil que escritor – um escritor que odeia palavras e um espantalho que sorri aos corvos.
Dê milho aos corvos ou pérolas aos porcos, não importa, o desperdício é o mesmo.
E o desperdício sou eu ainda tentar viver fora de você.


[JULIETE]
Não se preocupe, Humbert – eu não ligo. Há, por acaso, um belo mais belo que o belo do bico de um corvo a arrancar todas as suas palhas de espantalho? Deixe que o corvo lhe retalhe, ele puxa sua pele em câmera lenta, ele devora minhas entranhas em câmera rápida, ele na verdade somos nós, então por que usar a terceira pessoa? Poe quê? Oh, Humbert, consegue domar o meu sadismo? Devora-me. Pedacinho por pedacinho, devora-me e deixe só o sabugo. É só o sabugo que importa, é do sabugo que veio o Visconde, e é do sabugo que veio você, que é o Visconde errado e é o Humbert errado. E se fosse o certo eu nem lhe dirigiria o olhar. Mas eu dirijo, de soslaio, tão a troco de nada que nada que sigo minha vida e te deixo aí para ser devorado, porque meu espantalho não conseguiu te proteger.
Eu não vou dizer que não te salvo porque não posso. Eu não vou dizer que não te salvo porque não quero. Eu não sei por que não te salvo, mas eu não te salvo, Humbert.  


[HUMBERT]
Você se lembra de que existe algo seu que vive no meu limiar? Algo que me consome aos poucos me devora tal Caetano. Tal os corvos devoram meu corpo de espantalho que não sabe espantar. Scarecrow. O assustador de corvos é quem se assusta, na verdade. Não com o seu sadismo, não com a sua maneira de me deixar a mercê de meus próprios fantasmas – que no fundo são aqueles que viviam em você. Assusto-me com a crueldade em que permito mutilar-me. Marco-me para a eternidade com as chagas do Nosso Senhor Pecador de Nós Mesmos.
Sou santo em matar-me em nome do nosso amor que nunca existiu? Sou demônio por gostar de gostar sentir dor. Não. Vai. Passar. Dói, sempre vai doer. Porque os corvos no fundo não querem atacar o milharal – eles só querem o espantalho. Só querem rasgar a palha – e você sabe disso mais do que ninguém, Juliete.
Você também é corvo, assim como eu.
Junte-se assim nessa festa de autoflagelação e vamos esquecer que somos os sabugos largados ao chão, sem importância e utilidade. Já fomos milho, hoje não nos resta nem os bagaços. Já fomos nós, hoje somos somente você. Então dance comigo querida, dance enquanto seu mundo é caos, meu mundo é caos, mas o caos ainda é ordem! Dance nossa marcha funebre de quartos cinzas e batida constante enquanto o violão acompanha a voz rouca e a TV só está ligada para analisarmos a fotografia do nosso filme em preto-branco-e-eu-não-sei-dançar-com-você.
Nem o sabugo restou.


[JULIETE]
Corvos. Que importam os corvos? Que importamos nós? Eu sou um passarinho preto num jardim com florzinhas. Vamos ler a bíblia, Humbert? Talvez sejamos salvos – só assim.
Mas não quero deixar o sabugo. Deixar o sabugo é admitir que falhei. Porque o que quero de você está nas suas entranhas, está no fundo profundíssimo, daqueles que não se alcança sem antes retalhar cada pedaço do que o cobre, porque cada fragmento de tecido seria capaz de ocultar, então cada fragmento de tecido deve ser eliminado. Esse sabugo esgotado e exposto é você, Humbert? Ou sou eu? Não sei mais a diferença. Acho que cheguei (ou chegamos? Ou só você chegou) ao ponto em que nada fica muito distinto, como você não se distinguir de mim e não se distinguir de nós e não nos distinguirmos de corvos e não sabermos distinguir corvos de espantalhos. Quem devora? Quem é devorado? As vírgulas fugiram no primeiro bater de asas. A sanidade, a lógica, a cronologia, tudo, tudo. Nenhuma dimensão restou para contar estória (assim, com ‘e’, porque história com ‘h’ não interessa, história com ‘h’ nunca é verdade).
A verdade é a pior das mentiras, Humbert. E nosso amor é a pior das verdades.


[HUMBERT]
E nossas mentiras o mundo já engoliu. 


Feito para o Céu Literário.
O tema deste mês é milho (isso mesmo). Você pode conferir outros textos com o mesmo tema aqui e aqui.

sábado, 20 de abril de 2013

Antropologia dos Tempos Modernos: Hipsters



Nós vamos fazer uma festa com a crème de la crème hipster vestindo animal print e tintas neon. E não, você e seus filmes quase cult, livros empoeirados demais e calças bag não estão convidados. Mas se quiser penetrar sinta-se a vontade, na verdade pode até fazer isso. Não nos importamos para você e suas roupas de fast fashion, seus conceitos, filosofias e ideais. Na verdade só ligamos para o que nos cerca – talvez animal print esteja out, certo?

Vamos dançar em cima da mesa do modo mais educado que conseguirmos, e sim, isso é possível. Algumas as menininhas vão estar chapadas demais dentro de seus vestidinhos vintage de cintura marcada e sapato meia-pata para reparar que os rapazes de coturno, camiseta mal recortada e barba saliente estão as carregando para um lugar qualquer onde possam perder a virgindade pela quinta vez na noite.  Isso sem falar nos beijos tripos entre qualquer sexo, cor e naturalidade. Eu particularmente adoro francesas, porque elas fazem qualquer coisa com a boca, certa vez uma dessas francezinhas conseguiu dar um nó no cabo de uma cereja só com a língua, mesmo que isso seja pra lá de mainstream.

As Doc Marten full color vão contrastar com a luz escura da pista de dança. E aquele indie-chiclete que você ouve não vai tocar, talvez Frank Ocean e Madonna, nada de Lady GaGa, pelo amor de Deus.  Conhece alguma coisa de Dance Punk? Mas quem é você, aliás e por que estou aqui perdendo meu tempo te explicando coisas que você nem tem noção do que seja? Não, não vou admitir que lá no final de noite todos vibrem com Born This Way, fiquemos só com o sadomaso musical, afinal Aranea Peel é o novo Marilyn Manson!

Vamos abominar quem estiver com vestido de bandagem, mas será bem aceito de estiver com uma peça de Betsey. Vivemos em um modelo global, nosso mundo somos nós mesmos e tudo que conseguimos pagar com o suor do trabalho dos nossos pais. Mas não somos aqueles riquinhos chatos que estão chapados demais no Spring Break e ficam distribuindo aqueles colares ridículos só para ver alguns peitos – uns gostosos, até. Somos os construtores do que você vai ouvir daqui a cinco anos, vestir a uns dez, mas nunca vai viver. Criamos o seu tendecionismo com as nossas escolhas e por favor, Zooey Deschanel não nos representa.

[...]

Não somos os certinhos engravatados do Upper East Side, nos damos melhor com os artistas do Brooklyn e os visitantes frequentes da Augusta. Eu pelo menos tenho a classe de usar o paletó antigo com meu avô, calça de couro skinny , botas de combate, anéis de caveira, cabeça raspada e uma camisa XG, mas essa última é exceção. Oito anos atrás eu usava a sua Thug Nine que agora pega ônibus lotado ou entra pela frente sem pagar, dependendo do contexto.

E sim, eu li Kafka com cinco anos, enquanto você vivia pros Três Porquinhos ou Cinderela, se fosse um enrustido como meu amigo M.K. que prefere não se identificar. Não, eu nunca fiquei por ele, principalmente porque ele faz o meu tipo, simples. Até tentei, mas realmente prefiro as ruivas bonitinhas de cinta-liga, cabelos curtos e muito delineador, mas que no dia seguinte mais parecem de qualquer girl band asiática que você nem ouviu falar. Somos mutantes de nós mesmos; não temos identidade ou rótulos. Mas somos rotuláveis e identificáveis. Sociológicos. Antropológicos. Morfológicos. Tipográficos – sempre em Helvetica.

Lemos crítica de arte e criamos nossas próprias resenhas, visitamos galerias e instituições beneficentes para colocar a foto no instagram que você aos poucos está destruindo. Nadamos em lagos termal no inverno e fugimos das suas praias lotadas. Mas você não precisa saber de nada disso porque nem ao menos é um de nós. E não, ter visto os Sonhadores não te torna especial – e você não pode pegar personagens para você, portanto o Theo nunca será seu.

Você pode até comprar a Piauí, mas duvido que entenda alguma coisa. Por sinal, ler escondido a Vogue da sua prima não o torna especialista em tendência alguma, aliás, a Vogue nem é tendência para ninguém, que Anna Wintour me perdoe. Só a Vogue ucraniana e olhe lá.

Somos apaixonados pelo nosso estilo de vida que pode ser caricaturado, pisado e ignorado. Nós nem ligamos para o seu ignorar, até achamos melhor que seja assim: cada um no seu lugar. Leia Proust quantas vezes quiser e se diga o mais inteligente da escolinha, mas lembre-se: discuti com meu professor da oitava série por causa de um tal tempo perdido...

Mas voltando ao assunto principal: você acha animal print out?



  Lucas RodriguesNascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Não é um hipster com óculos sem lente. Muito menos usa calça skinny de couro – ele prefere os jeans largos mesmo. Mas gosta de camisas XG e acha animal print out.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Do vinho ainda mais amargo




Um movimento artístico nascido em um Cabaré batizado de “Cabaré Voltaire”, criado por desertores da Grande Guerra na cidade de Zurique, Suíça no ano de 1915. Dadaísmo, vindo do termo francês para designar cavalo de madeira – dada.

O dadaísmo é uma corrente artística de vanguarda de conteúdo anarquista que visava o rompimento com a lógica das obras de arte. De caráter antirracional, combinando ironia, pessimismo, irreverência e até certa ingenuidade o movimento começou a alcançar outras cidades dentro e fora da Europa como Colônia, Barcelona, Berlim, Hanôver, Nova York e Paris.

O manifesto do movimento foi escrito por Tristan Tzara que só reforçava a falta de lógica no movimento – o dadaísmo queria criar uma camada de confusão, desafiar a lógica e o tradicionalismo do mundo formal, combater a arte dos acadêmicos. A contradição também se faz presente no movimento, afinal “o verdadeiro Dadaísta é anti-Dada. Todas essas questões só reforçam a quebra do tradicionalismo lógico do dadaísmo.

A maioria das obras artísticas de Marcel Duchamp trazia uma das marcas do movimento: inserir objetos do cotidiano dentro do movimento artístico. Com esse estilismo pode ser citada a famosa “A Fonte” um urinol de porcelana branco onde em um canto pode-se ler “R. MUTT 1917”. Também como obras do artista podem ser citadas “Escorredor de Garrafas” e “Roda de Bicicleta”. Marcel Duchamp batizou esse estilo artístico de “ready-made”.

(clique para uma melhor visualização)

A colagem também fez parte das artes visuais do dadaísmo, mantendo sempre a falta de sentido, irreverência e libertação defendidos pelo movimento. Obras famosas também foram usadas no movimento, como La Gioconda que recebe bigodes – a irreverência e a falta de sentido fazendo-se presentes.

                Foi na literatura que o dadaísmo alcançou o máximo de liberdade e espontaneidade. No último manifesto divulgado por Tzara ele cria uma “receita” para se fazer um poema dadaísta; bastava recortar palavras de um artigo de jornal, misturá-las em um saco, em seguida copiar as palavras para um papel e pronto – nascerá ali um poema de extrema sensibilidade e parecido com o autor, mesmo que incompreendido.

                Nos EUA, na década de 50 surgiu o neo-dada, evocando a estética dadaísta idealizada em Zurique. Robert Rauschenberg, importante nome do neo-dadaísmo tem em sua estética a reunião de objetos, que juntos perdem seus sentidos primários. Em suas obras observa-se uma justaposição de elementos que retornam ao dadaísmo e a arte no meio da guerra – o caos; o nada, afinal dadá é tudo e nada, é confusão e monotonia.

(clique para uma melhor visualização)

                Uma das vanguardas negativistas que mais me agrada é o dadaísmo pelo desregramento. Ser dadaísta antes de tudo é ser ilógico, mas usar a razão. O movimento é feito de contradições e preocupa-se sim com o fator da sociedade, mesmo que debochando amplamente dela. Para que a arte se o mundo faz guerra? Para que sentido onde não se precisa – nesse caso no mundo? O que por muitos foi julgado como infantil não era mais nada do que uma crítica à sociedade. Afinal, a guerra em si tem lógica?
Lucas RodriguesNascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O mundo de Francis Bacon – quando a via crucis é a própria vida.





Antes de começar a coluna quero avisar: não sou estudante em específico de Artes Visuais, História da Arte ou similares, sou somente um amante. Se algum estudante ler a coluna e se sentir ofendido com o conteúdo dela e quiser criticar sinta-se livre, tentarei reparar os erros. E, como todo amante acha que entende do seu objeto de amor (no caso uma fixação) e resolve ler e pesquisar sempre o que o agrada, recentemente comprei o livro “Tudo Sobre Arte”de Stephen Farthing e Richard Cork da Editora Sextante. Em uma leitura rápida me deparei com Francis Bacon, o pintor e uma de suas obras: “Três estudos para uma crucificação”. Fiquei fascinado.

(cliquem para visualizar melhor)

Criei a coluna para criar discussão, fazer da arte não só objeto de estudo de estímulo visual, mas também sociológico, histórico e filosófico. Porque as artes visuais, assim como a literatura, tem essa abrangência, mas poucos param para fazer ligações entre quadros/esculturas/instalações e temas que problematizam muitas vezes a realidade de muitos.

Não quero fazer uma análise, mas acabarei fazendo sem nem perceber. Primeiro: a tela é chocante. Corpos retorcidos, cores quentes que transmitem violência e mutilação – algo que agrada esse aqui que vos escreve. Fui pesquisar além do livro sobre a vida do pintor, que é parente colateral de outro Francis Bacon, o filósofo.

A tela de Bacon assume um tom mais do que assustador quando conhecemos o homem por detrás da dela. Homossexual assumido, expulso de casa pelo pai – um oficial do exército e treinador de cavalos (animal esse que Bacon era extremamente alérgico) – quando revelou sua sexualidade. A tela “Três Estudos para uma crucificação”, de 1962, pode narrar toda a dor do filho diante do genitor que o maltrata. A figura de rosto maldoso no canto da tela, o homem que olha com certo asco para o corpo mutilado do centro, pode ser o pai de Bacon. Teorias que fazem com que toda a obra seja repensada. Seria Bacon o corpo mutilado? Seria ele a figura central que aos olhos do pai é somente um monte de carne morta? Especulações.

É verídico que muitos pais fazem isso com seus filhos quando descobrem a sexualidade que por anos eles são obrigados a reprimir. Não vou me posicionar sobre questões sexuais aqui, mas sim expor esse fato, que pais maltratam filhos por algo simples, que é a aceitação de como eles são. Não precisa gostar, mas respeito sim, todos devemos. E não só com gays, mas com negros e pessoas que têm doutrinas espirituais diferentes da nossa - respeito é o alicerce de qualquer relação social.

No quadro, o sangue é natural – afinal humanos não são feitos disso? E há sangue! As paredes vermelhas ao fundo intensificam ainda mais o horror dos corpos expostos como se fossem somente pedaços abatidos de um animal. Nossos pedaços abatidos em um lugar qualquer, expostos em sua totalidade e fraqueza para quem quiser cuspir em nossos restos. A mortalidade em sua máxima de violência e asco. Morreremos assim, sentido a culpa de sermos o que sermos (deformados!) enquanto o mundo que também é feio nos rotula, julga e depois nos vira o rosto? Bacon nos apresenta a delicadeza de nossa vida – e de como ela pode nos ser tirada com facilidade.

O termo crucificação remete ao mártir-mor do nosso mundo moderno: Jesus Cristo. O que foi crucificado e renasceu. O que também não foi perdoado pelos seus. Mesmo sendo ateu convicto, Bacon utiliza temas cristãos em suas telas: uma simples contradição. Porque a arte é feita de contradições, é transformar o horror das deformações e mutilações em beleza. Em óleo com areia sobre tela, dividido em três. Mas antes da crucificação tem a via crucis, o caminho da cruz. Só por usar o termo para dar nome ao seu quadro Bacon evoca sua própria via crucis (mesmo não alegando isso). Sua tortura pessoal; sua vida. As chicotadas que sofria do pai para “aprender a ser homem”, mas Bacon sempre foi homem. Porque ser homem é saber aguentar as consequências e viver conforme suas próprias doutrinas. E sua arte permanece até hoje para provar que o homem que foi Francis Bacon sobre carregar sua cruz – caindo três vezes mais se preciso fosse para sobreviver.


Lucas Rodrigues Nascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

sábado, 10 de novembro de 2012

O Bambolear das Rosas Brancas



Para alguém que eu não conheço, mas me faz escrever.

Não a dou coragem porque eu mesmo não a tenho entre meus dedos, pequena Rosa. Mas se soubesse como carregá-la, ah, então ela seria sua. Não preciso de nobres sentimentos, os melancólicos me caem bem, como uma luva de pelica nas mãos de um criminoso, não sei se me conhece, mas só fiz esse porque deu vontade – e eu não contrario as vontades, por isso saco dos meus jeans mais um cigarro.

Então me ouça, Rosa, mas não precisa prestar atenção, longe disso. Somente ouça como se me conhecesse um pouquinho, mesmo eu sendo um mero desconhecido em um amontoado de nomes. Eu verdadeiramente não tenho nada para dizer, todos sabem disso. Oh, só queria dizer que a admiro de longe, que idealizo-a em minha mente alucinada e faço-a mais frágil que Carrie, mais solitária que Juliete e mais inconstante do que Anne. Não dói contar verdades, Rosa, então deixa-me contar somente uma para você: faz-me sorrir.

E sei que talvez sua alma esteja repleta de mágoas, mas não importo-me (não no sentido ruim, longe disso!). Importa-me somente te fazer sorrir, como se compusesse uma canção de duas notas, tão serena quanto à alma que arrumei para você em minha mente. E foste criada com nome de flor não por acaso, sei que gosta de rosas brancas, embora não saiba o motivo, na minha mente elas combinam com você. Então nesse curto e mal rascunhado desejo não reprimido resolvi nomeá-la Rosa. Como sua pele é pálida (insira aqui um talvez) secretamente chamo-a de Rosa Branca. Mas não lhe arrancarei os espinhos, você ainda fere, mesmo eu sabendo que não é proposital. São chagas demais para não ocasionar ao mundo algumas feridas. “Tudo que não te mata vai deixar uma marca”, ouvi em uma estrofe e resolvi guardar, estranhamente ela cabe aqui.

Sua porcelana parece-me intacta, mas isso não quer dizer que saiba fingir. Acho que é só uma força que desconhece, de qualquer modo. E eu verdadeiramente não sei nada de você, não crie divagações em sua mente. Oh, perdoe-me por fumar, nem se incomoda-se com a fumaça, já apago esse, não precisa tossir. Desculpe pela falta de tato, estou acostumado com os meus e não sei agradar visitas. Se quiser pode sentar-se, Carrie trouxe umas almofadas novas, Charlote em breve estará aqui também. Mas se não quiser ficar aqui pode ir para o jardim, só peço-a que se for usar o balanço não deixe Carrie saber, ela está lá em cima, treinando exaustivamente, talvez surpreenda-se com você aqui. Ou não, ela sabe que admiro-a por tudo e nada. Não sei explicar, só sei que quero toda hora repetir essa palavra para seus ouvidos que nunca ouviram minha voz: admiro.

Aqui também temos caixinhas de música (sem as bailarinas, Carrie as levou, eu deixei), elas ainda funcionam, mas nenhuma delas toca Für Elise, só uma, mas Theo prometeu-a a Carrie. E sim, eu falo muito de Carrie, é que eu não consigo desgrudar-me dela um segundo. Coisa de irmão-mais-velho-e-boboca. Entenda. Daqui a pouco Juliete ligará, se sabe falar algo em francês pode atender ao telefone, não me importo. Não se sinta acanhada, ande, pode fuçar na memória da casa, tirar alguns livros das estantes, levar algum para casa, se quiser. Recomendo as poesias da segunda geração do romantismo, mas nem sei se combina contigo, Rosa.

Acomode-se no sofá, sei que ele é um bocado antigo, mas é até confortável deitar-se nele. Eve prometeu-me um novo, mas não quero que ela gaste dinheiro comigo, de qualquer maneira. Oh, quem é Eve? Minha vizinha do lado, de vestidos compridos e espírito solar.

Não falei de Johnny propositalmente. Embora cada pó dessa casa carregue um pedaço dele quero esquecê-lo. Não que ele seja um erro, tampouco é um acerto. Ele não é uma memorabília, mas enfeita-se como tal. E não acho digno mesmo lembrar-se dele em cada acorde de um rock clássico ou um riso inocente! É cruel, Rosa! Porque ele se foi e me deixou aqui, na poeira, eternamente renegado a viver com um fantasma que carrega o nome dele. E pode dizer que eu tenho outros, mas ele foi o primeiro – e hoje nem é tão importante assim. Hoje nada é tão importante assim, somente essa vontade de (a)prender ainda mais esse admirar.

Não sei o que admiro, só sei que gosto. E quando gosto tenho a mania de tornar-me obsessivo, tal qual estou agora. E poderia ficar aqui falando como pintei-a em minha mente ébria: muita brancura e suavidade, muito clamor por querer viver além da vida. Muito bambolear – desses de criança mesmo, bem irregulares, com os pés fincados ao chão e a cintura remexendo-se em sucesso algum. O que falta de ritmo em você sobra em poesia, rimas e palavras perdidas. E sim, todas as palavras para mim são perdidas até que encontrem em alguém sua morada ideal. Qual palavra mora em você? Gostaria de saber.

Ainda é dia? As cortinas fechadas não me deixam ver nada, desculpe a pergunta. Eu gosto do sol quando não é quente, e você? E deixe-me imaginá-la esticada em um jardim qualquer enquanto o sol ilumina seu rosto protegido por óculos em forma de coração. Heart-Shaped Glasses e você já quebrou algum? Não óculos, mas corações.  Músculo involuntário que bombeia sangue para o corpo, certo? Não gosto desses termos técnicos, prefiro máquina de amor, simples e duro tal qual o sentimento que ele carrega.

Acho que aqui acaba esse pequeno devaneio, Rosa. Essa abstração você nem saberá que é sua, mas saiba que fiz só por querer. Minha vida é minha lama e nela eu ainda vivo, como se não precisasse de mais nada para ser feliz. Dê-me algumas sarjetas e a sujeira que ninguém quer ver que faço dela minha felicidade. Oh, você está ai? Pode ir, se quiser, a solidão me acompanha. Carrie ainda volta. Juliete também. Os outros ainda aparecem, sei que sim. Menos Johnny.  Você está mesmo ai? Acho que não.

Talvez um dia eu aprenda como colocar coragem em uma caixinha e quero que saiba de uma coisa: dar-te-ia somente para você.

Lucas Rodrigues Nascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[ESPECIAL DE DIA DAS BRUXAS] Dance for your daddy




Dance pequena, na ponta dos pés. Dance sobre o mundo que desmoronou ao seu deleite. Dance, porque dançando você é completa - na ponta dos pés é quase minha. Dance minha pequena criação.

Dance sobre a morte que lhe habita. Dance para escurecer ainda mais o breu do seu olhar de menina malvada. Dance com suas facas grudadas em minha pele. Dance em minha pele.

Dance filha minha.

Baile assim do seu jeito, com seu corpo moldando-se ao meu, fazendo de mim sua ideal morada antes do amanhecer. Encontre-me de braços abertos a esperá-la em um beco escuro enquanto ainda não é dia. E junto adiemos os dias! Dance comigo por todas as noites da nossa vida (des)vivida, embala-me, usa-me. 

Despedace-me. E morra por esse bailar que a mantém viva.

Curve os lábios me um fio de voz frouxo e rouco: não mais que uma confissão. “Amo”. Ama o que menina? Ama a quem? Ama seu pai, amante e amigo? Ou ama aquele que a ensinou a matar? Mate em meu nome três vezes se preciso for! Suje as calçadas com sangue tão imundo quanto o nosso!

Mas permaneça viva para que na noite seguinte eu possa contemplar o seu bailar.

Quando romper o dia separe seus brotados seios desnudos de minhas costas e desenlace-nos. Faça da normalidade o fato anormal, você longe de mim, daquele que a fez menina e mulher. Aquele que fez da sua dança nosso acoite, crueldade mórbida nas noites quentes.

E quente também é o seu sangue, afinal não é ele também o meu? Esquente-me com seus pés a roçar o sexo meu enquanto ri com seus olhos de ressaca marítima. Oh! No mar dos seus olhos eu mergulho e juro que se soubesse morrer morreria por eles! Morreria neles! Afogado e enganado pela menininha que espicha pelas meias quatro oitavos – minha menina dançante.

Dance para mim bailarina da morte.

Faça das poças de sangue seu ideal tablado. Dance em carmesim! Em vermelho vinho que bebo do corpo seu. Faça-me ébrio do néctar do seu corpo – do sexo que é somente meu. Dance e viva, pequena. Viva porque a morte é sua fiel amiga, afinal são pelos passos dela que você segue o seu bailar; seu bailado tem aroma de término.

Dance para o seu pai filha.

E grite e corra para meus braços. Injete-se em minhas veias saltada como a heroína da minha vida, mas também seja meu torniquete, enquanto a mim cabe ser a sua salvação. Mas nunca a salvarei de mim, porque eu também sou você. Somos almas unas no mesmo desespero de não saberem morrer, mas que vivem pelas doses homeopáticas de suicídio. Transforma-me em música e deixe que eu seja sua escala dissonante. Morra por mim mais três vezes, mesmo que eu não morra nenhuma por você.

Em meu nome torne-se Jesus, enquanto para você serei somente Judas. Talvez você possa ser Madalena: mas falta santidade em você? Então seja somente minha Maria, minha Virgem Desvirginada, de pés descalços e sorriso jocoso, aquele que se deleita com a dor de um tapa em carne já trêmula. Seu sorriso mais bonito! O que faz-me o ser mais extasiado do Universo é esse seu sorrir que pede por mais dor, por mais chagas em pele já dolorida. Peça mais, querida. Peça minha bailarina, faça dos seus gritos sua música: torne-me seu maestro!

Dance em nome do Espírito Santo, mas nunca proclame o amém. Baile sobre seu próprio corpo morto – no fim é isso que restará. Você morta e eu a desvirginar-te três vezes mais e mais.

Mas não dance mais, pequena: dê início à contradança.
Sobre o Autor:
Lucas Rodrigues Nascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

sábado, 27 de outubro de 2012

Pela tua pele crua



Flutua pela pele tua*
O deleite dos lábios meus,
Teu gosto de menina crua
Revigorada pelo gozo ressentido
Fez de mim seu corrompido.

Corrompe assim, sem saber.
E meus trejeitos de homem imoral
É que fazem tua pele doer.

Teu (des)gosto em meus dedos; magistral.

Estrela do meu dia,  açoite do meu prazer.


Fere sem querer ferir.

Destrói quando quer (re)construir.

E foi teu tesouro que descolori
Quando o aleluia de ti roubei.
Entoei cantiga de iludir,
Quando nos teus seios fui rei.

Rei de Terra-De-Ninguém,
Porque a do Nunca não nos cabia.
Você não era virginal: só mais uma alguém,
Que fez do sexo meu imperfeita moradia.

E no raiar dum incólume dia

A pele tua doeu.

Não pelo meu desamor,
Mas sim pela apatia.
Seu sabor então pereceu:
O magistral apodreceu em (des)alegria.


Alegre, a noite pelo mundo correu

Substituindo o fatídico dia.

A lua enfim amanheceu
E a tua pele crua a mim não mais pertencia.

*Citaçõese rimas adaptadas da música "Crua" do Otto, que deu o tom desse poema e que ultimamente tem me inspirado muito. Obrigado por compartilhar-se com aqueles que o escutam.

Sobre o Autor:
Lucas Rodrigues Nascido no inverno de 92, cursa Letras, mas pretende cursar em breve História da Arte. Ama metal como ama artes plásticas, cinema, preto&branco, livros manifestações culturais populares e musicas regionais. Escuta um pouco de tudo - assim como escreve. Só não sabe se descrever.

sábado, 20 de outubro de 2012

Espectro



Se soubesse voar, voaria. Proibiria seus pés de menina roçar na grama verde-fosca que circundava sua casa. A grama nunca era brilhante. Nunca. Assim como a menina nunca seria mulher – por mais que crescesse, mais que quisesse ir além do que era em suas pernas tortas e machucados maculando a pele era sempre menina. Menina Virgínia. Virgem Menina: ela era. De falta de asas para voar, nela sobravam pés. Então corria. Arfante pela grama sem brilho como se precisasse somente dum impulso para que de suas costas nascessem asas como nascem flores do chão. Se soubesse mais um pouco do que sabia naquele momento Virginia voaria. Se soubesse, mas nunca saberia. O nunca sempre caberia em sua essência de menina.

Virgínia era celeste.

Diante do mundo calava-se, afinal palavras sempre foram desnecessárias. Se tinha sentimentos por que precisava curvar seus lábios em palavras que não a cabiam? Não gostava da fala, porque sabia que no vão dos seus lábios as idéias perder-se-iam da forma como foram concebidas. Trancafiava-se em seus pensamentos e lá ficava, habitando sua própria superficialidade, conectando tudo que não tinha conexão. Ligando-se. Desligando o mundo que habitava em seu espectro de respiração contra o espelho da penteadeira do quarto a meia-luz. No escuro ela não sabia quem era. Na luminosidade sentia-se fora de si.

Nos meios termos ela encontrava-se sem nem ao menos saber que estava perdida.

Voaria, se soubesse. Se soubesse! Virgem Virgínia de pés descalços proibia-se de ser quem era. Queria ser outra. Queria ser mulher-perfeita para um homem-qualquer, filha educada para um pai que nem existia, irmã mais velha para a meia-irmã que nascera morte. Vivia entre possibilidades e falta de escolhas a Virgínia para sempre menina. Nunca seria mais do que era, e disso sabia. Sabia tanto que quase chorava com a certeza entalada em seu espírito que só queria ir além do que era.

Os pés descalços calçaram-se com saltos de menina-moça. Os vestidos rodados e sujos pela poeira das estrelas que ainda não alcançara foram trocados pela provocação de decotes e saias curtas. De borboleta para libélula. De menina para mulher. De alguém que não sabe o que é para alguém que não sabe o que quer. Virgínia não queria-se. Virginia só queria amor! (mas amor ela nunca teria).

E mesmo sem saber voar, voou. Mesmo sem asas alcançou o além do céu que almejava. Encontrou nas nuvens a dor que a maculou. Fez de sua pureza putrefação, porque seu sonho tornou-se pecado e seu pecado fez-se desatenção. E desatenta Virgínia matava-se aos poucos, e erram esses pequenos suicídios a elevavam. Para o céu de tempestades e coisas que não deveriam caber no espírito de uma menina! Para o céu de malcriações e beliscões em sua pele já crescida – mas você cresceu, por que Virgínia? Para os beijos de rapazes que não sentiam amor. Para abraços de meninos mal crescidos. Para carícias que doíam em sua pele crua. Sua pele era crua de si mesma, mas era bela. E voou pela beleza que adquiriu, voou porque voar era o seu objetivo. Alcançou os anjos, mas de lá caiu. Caída Virgínia. Desamada Virgína. Enganada Virgínia. De olhos de maresia e salpicados da falta de saber Virgínia renegou-se. Proibiu-se de se proibir.

Nos meios termos ela não encontrava-se mais, mesmo sabendo que estivesse perdida.

Virgínia estava morta: nascia assim Valquíria.

sábado, 22 de setembro de 2012

Da mente que sempre sucumbe ao amor



Ela mergulhou no amor.

Sem saber o que era o sentimento jogou-se de cabeça no infinito do olhar que resiste até o último segundo do adeus. Imergiu. Os olhos se fecharam com força e quando abriram-se para-lá-do-mundo encontraram a escuridão que não vivia na claridade daquele olhar que aprendera a chamar de seu. Mas toda luz precisa do negrume, não é? Então assim viu-se sozinha com o amor a rodeá-la, sentindo-o em cada pequeno pedaço do seu corpo sucumbido a ele e por ele. Pelos desejos, vontades e caprichos de ser amada, pela estranha sensação de não pertencer-se. Era dele, a mergulhadora de amores. Era dele, como de mais ninguém seria.

Oh, mas não tinha face o que sentia! Tinha somente claridade, escuridão e vontade. Sim, vontade de ir mais fundo e desvendá-lo para todo o sempre, de tê-lo contra seus olhos de cor tão desimportante. Se o olhar dela tivesse importância poderia ser ciano como um dia fora o mar em que aprendeu a nadar. Nadava no mar e afogava-se em amor, pois o amor troçava de todo seu corpo, brincando com o limiar de sua vida e morte.

Contra o pulmão faltava-lhe ar e sobrava desatenção.

E desatenta buscava o fundo com ânsia, enquanto o amor jogava-lhe para a superfície. Não queria os começos, bastavam-lhe os meios e os fins com suas reviravoltas e inconstâncias, se queria buscava-os com todo afinco mergulhando cada vez mais para a escuridão dum amor de olhos claros. Quando deu por si estava às cegas tateando um fim que nunca chegaria, trôpega, como se em seus poros o amor resolvesse infiltrar-se e embevecê-la em insanidade e desejos inacessíveis.

Assim cada vez mais tresloucada ela procurava o fim inexistente, mas retornava aos inícios e gracejos de um amor desbaratado pelos próprios amantes. O fim era o começo que também era o próprio término. Um ciclo de amor e afogamentos onde respirar é desnecessário, precisa-se somente sentir o torpor da escuridão de olhos claros rasgando a pele e invadindo camada por camada da mente daquela que causou a fúria na Vênus renascida de rancor e beleza. O amor sucumbiu com a mente de Psiquê.

(...)
Psiquê mergulhou em Eros.

Sem saber o que ele era jogou-se de cabeça no infinito do olhar que resiste até o último segundo do adeus. Emergiu. Os olhos abriram-se e deu-se então o Caos – a alma sempre dobrar-se-ia ao amor. 

sábado, 8 de setembro de 2012

Em tons bucólicos de Daniel



         Brincava com o mundo nas mãos, iludindo o pensamento que poderia controlá-lo ao seu modo.


         O grande orbe girava em seus dedos calejados, carregando toda uma vida dividia entre  livros e o trabalho pesado com o ausente pai no casebre campestre; naqueles tempos, o maior tesouro da família. Riu com orgulho. Antigamente enchia o peito com ansiosa vontade de ser feliz, dobrar o mundo aos seus pés, com o talento natural que somente as crianças têm de sonhar despudoradamente.

         Dominava o globo à sua maneira, sua mente invertia polos, juntava continentes, retomando o mundo a Pangeia, para dominá-lo como verdadeiro megalomaníaco que sempre quis ser. Uma mentira de criança nas mãos dum adulto, nostalgias da infância bem vivida.

         Com o mundo entre os dedos, sentia-se mais do que realizado. Ria com orgulho do seu feito, enquanto o filho mais moço devorava com inexatidão um livrinho infanto-juvenil qualquer. Um best-seler sem conteúdo, vazio demais para a prole de um sonhador com o mundo em seu enlace.

         Mas o conteúdo do livro poderia ser qualquer um, bastava que o menino estivesse ao alcance do seu olhar, trazendo a sua mente insensata recordações da infância entre as plantações, carregando uma coleção de livros antigos. De “Reinações de Narizinho” à "Morangos Mofados", nada fugia ao seu olhar devorador.

         Talvez, isso viria do fato de um dia querer conquistar o inatingível. Seu império deveria ter um começo. Se conseguisse dominar o conhecimento daquelas páginas envelhecidas, certamente dominaria o mundo e todas as suas nunces! Acreditava nisso fielmente; assim continuava lendo, enquanto o sol castigava-lhe a mente infantil.

         Os dedos sujos de terra úmida abriam os livros com rapidez, acreditando que decorando aquelas páginas teria o mundo aos seus pés. Em sua biblioteca iluminada pelo sol, o homem lembrava do utópico sonho, que veladamente ainda almejava realizar (ou talvez não, nessas horas, não sabe-se de muitas coisas), só para sentir ainda mais o ocre do saudosismo entre lábios tão maculados.

         Jurava que sentia a umidade da terra em suas unhas. Acompanhada com aroma dos livros mofados e mato crescente, tão nostálgico que o fazia fechar os olhos com força, esquecendo do mundo que controlava num toque sutil. Entre a nostalgia e o resto do mundo,  preferiu sorrir para suas ilusórias (mas tão reais) recordações, como um bom pai que vive a sorrir para seus filhos.

         Assim, sorriu como há muito não permitia-se, nadando confuso na própria mente, mentindo que um dia teve sim o mundo em seus domínios! Oh!, como saberia ser ilusório e iludido o pretendente a dono-do-mundo! Um homem sério que renovou nos olhos o brilho do seu mundo – que só resumia-se a livros mofados e palavras rebuscadas.

         Naquele tempo a saudade não existia, pois sabia viver somente o ato em seu tempo normal. Correr pelo gramado, pisar nas formigas-de-fogo, colher a horta, ser criança e ler avidamente, era só isso que cabia em suas ações, nada mais do que simplesmente viver de modo infantil e sonhador, como seu filho agora fazia (mesmo que de um modo diferente).

         Com os olhos pregados no livro que lia, o filho seguia os passos do pai, pronto para crescer iludido entre seus reprimidos desejos infantis! Fantasiando que aqueles seres mitológicos e distorcidos existiam na realidade dos seus pés correndo pela casa fincada no meio dum asfalto quente e impessoal. Não havia nada de bucólico naquela cidade grande, talvez só as recordações infantis assolando a mente crescida de um ex-menino.

         Gostava de pensar que poderia ser um eterno “ex”. De ex-dono do mundo até ex-sonhador, mas nunca (nem eu seus mais utópicos devaneios) cogitou ser um ex-menino. O som agradava-o tanto! Talvez seja um eufemismo descarado para não sentir o peso do tempo enrugando-lhe a pele que outrora fora esticada e lisa. Na verdade, ele não chegava a ser idoso, mesmo tendo passado a linha dos trinta e três, não sabia se queria envelhecer mais.

         Em seu tempo de criança nunca imaginou-se velho. Seu pensamento levava-o somente aos vinte e dois anos, copos de whisky nunca outrora provados e a dominação mundial. Dentro de suas páginas amareladas tornou-se um verdadeiro Napoleão, só faltava-lhe os belos quadros e as realizações históricas.

         Os outros moleques desordeiros riam do seu devaneio utópico. “O mundo é grande demais para você, Daniel”, comentavam enquanto esvaziavam pneus dos carros visitantes distantes que até ali chegavam. Quando ouvia essa ele deixava-se abater, afinal, o planeta era realmente uma imensa esfera e ele ainda um menino devorador de livros. “Mas se eu não puder ter o mundo, o que terei?” O pensamento divagava nessas horas e nunca chegava a uma conclusão.

         Com fios perdidos de pensamento, Daniel cresceu. Da infância trouxe sonhos perdidos e palavras encontradas, a terra entre os dedos e a vontade de sentir o whisky descendo-lhe pela garganta. Fez dezessete e furtivamente do whisky provou. Gostou do sabor e da queimação. Como quem realizava um sonho tomou várias doses depois dessa e a dominação mundial virou somente uma alienação infantil.

         O filho acabou a leitura e saiu da biblioteca, fazendo sua mente parar. Viu os próprios passos refletidos no filho, um andar apresado, mas ainda assim calmo. Sozinho em sua habitual estranheza o homem permitiu-se gargalhar alto, achando tão incomum que só agora tivesse reparado que o próprio filho era um espelho seu! Um verdadeiro filho de alguém que um dia quis dominar o indominável.

         Como quem não quer mais o mundo deixou o globo cair no chão e quebrar-se em mil e um pedaços. Ganhando uma beleza até então desconhecida pelos olhos semi-cansados de um devaneador bucólico composto em vários tons de nostalgia.

         Agora ele não precisava mais brincar com o globo nas mãos para iludir o pensamento. Tinha um Universo inteiro que já poderia chamar de seu.


         (um universo de passos apressados, livros infanto-juvenis e queimação)
          

sábado, 25 de agosto de 2012

De Johnny a Humbert





O escritor ainda escreve e o menino ainda não bebe.

Os dedos digitam rápidos na máquina de escrever, relatando o passado ao lado daquele amigo que por anos foi seu companheiro de alma, mas agora só o visita periodicamente, atrapalhando suas memórias a fluírem para o papel envelhecido.

- Sente-se, Johnny, já não está alto o bastante para a idade? - Argumentou o mais velho, que entre aquelas paredes era chamado de Humbert, diferente do nome em que era estampado nos livros sujos que uma editora pequena publicava.

- E você, não trabalha demais para a idade? - Perguntou o menino-quase-homem, que com seus dezesseis anos já sabia discordar daquele que tinha visto muitas coisas para deixá-las presas em sua memória.
- Escrever não é só um trabalho, John, é uma maneira de vida.

- Você às vezes é literário demais, já lhe disseram isso? - Comentou com a voz perdida que sempre usava para irritar o amigo que teimava em ter as letras como suas principais companheiras.

- Já. Desde o tempo em que essa casa velha era somente uma casa. - Riu da própria frase, vendo o amigo cair nas próprias memórias e não recordar daquele casarão antigo em toda sua beleza. Johnny tinha conhecido aquela casa já daquela forma, com as paredes descascando, os vidros quebrados e um pequeno leitor devorando livros como a morte devora almas.

 - Eu não me lembro dessa casa nova, somente lembro-me de você lendo compulsivamente os livros que um dia foram do seu avô em um quarto com goteiras e infiltrações. - Despejou o menino suas memórias para o homem literário demais, que ouvia atentamente sem conseguir digitar uma letra sobre o papel que esperava ansioso suas memórias serem ali gravadas.

- E eu me lembro de você muito mais novo do que eu, largando o carrinho de rolimã para ouvir vinis antigos comigo.

Johnny poderia tentar modificar em sua mente aquela cena, mas seria errado demais não recordar com perfeição as cenas que ele e Humbert viveram entre os muros envelhecidos daquela casa arruinada que serviu de palco para as aventuras de um pequeno leitor e um pequeno menino.

O barulho da máquina de escrever voltou a assombrar o ambiente e o garoto Johnny não ousaria quebrar aquele som de palavras sendo escritas, criando uma história tão decadente quanto o passado do escritor que só parava para fumar seu cigarro de canela e observar o melhor amigo, agora mais um visitante, a pisar no mármore sujo da casa que um dia teve sua glória.

- Ouça John, nunca seja tão idiota quanto eu para vender a única coisa que te faz feliz a qualquer um que oferecer uns poucos centavos. - Começou a falar o escritor, oferecendo o cigarro para o menino que curioso o pegou em seus dedos, mas não tragou. - Eu antes escrevia para sentir-me vivo; importante, me destacar na multidão que sempre quis me apunhalar e me chamar de estranho, menos você, é claro.

- Eu também fui esquecido e renegado, Humbert. Mas você e o violão conseguiram me salvar, mesmo que agora eu não me recorde de um mísero acorde de “Strawberry Fields Forever”, o hino mais estranho que um menino de nove anos poderia ter. - Falou o garoto, envolvendo um cigarro pela primeira vez entre seus lábios vermelhos de dezesseis anos.

- Você teve a música, mas foi mais idiota ou esperto do que eu e a abandonou. Eu continuei entre versos, prosa e metáforas. Minha salvação me desgraçou, John. Minha virtude se tornou um vício mais maldito do que esse cigarro que dividimos! Escrever não é simplesmente despejar memórias imutáveis que nunca aconteceram em um papel amarelado. É uma benção que um dia te colocará no fundo do seu próprio poço, onde o único caminho é para baixo, pois ir contra ela seria a verdadeira insanidade. - Quando acabou de falar, Humbert arfava, os dedos tremiam e os lábios curvavam-se para o cigarro que tinha acabado de furtar dos lábios de um menino desacostumado com o fumo.

Johnny permaneceu calado, analisando as falas que poderiam sair dos seus lábios, mas a única coisa que conseguiu fazer foi roubar o cigarro do mais velho e voltar a fumar com a tosse atrapalhando-o a conquistar um novo vício.

 - Se você não tivesse sido um ávido leitor, não teria esse pecado fantasiado de virtude. - Comentou o ex-músico com o gosto do cigarro entre seus dentes brancos.

- Não pense em como as coisas deveriam ter sido, John. Sem as palavras eu não seria nada, nem esse maltrapilho que sou hoje. Foram elas que me trouxeram até aqui e isso eu não posso negar.

- Eu nunca te pediria isso, Humbert.

- Você não, mas talvez o resto do mundo.

O silêncio voltou para ser novamente quebrado pelo som das palavras sendo escritas.

E quando anoiteceu, Johnny voltou para distância que os separavam, deixando um escritor com todas as suas máculas e um passado que sempre o perseguiria.

Pois entre os muros daquela casa velha, a única coisa que ficaria de pé seriam as memórias eternizadas em palavras. De Johnny e Humbert.