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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[ESPECIAL DE DIA DAS BRUXAS] Sleep well, my little prince





Em homenagem ao Halloween, nós da Decadência resolvemos desafiar nós mesmos preparar um especial para vocês. A proposta foi escrever, em dois dias, um conto macabro para homenagear a data. E o que esses contos possuem em comum? Todos os titulos são canções de ninar. Lucas, eu e João Victor aceitamos o desafio e fizemos os contos. Particularmente, é meu primeiro conto de terror. 
Espero que gostem.





Parte 1 – silent night (noite silenciosa)

Tac. Tac.
Federico cochilava sentado em sua cama quando o barulho de cacos atingindo a janela de seu quarto fez com que abrisse os olhos. Seus óculos estavam tortos no rosto e o livro que estava lendo pendia amassado ao seu lado na cama. Ele concertou os óculos e tentou desamassar o livro da melhor forma possível, enquanto o som de cacos batendo na janela retornava:
Tac. Tac. Tac.
Geralmente, quando ouvia esse som, era sua namorada, Christine, que lhe fazia uma visita noturna. Federico tinha noção do quanto estava desarrumado. Tentou ajeitar os cabelos na frente do espelho e tirar a expressão de cansaço do rosto antes de abrir a janela.
Mas não havia ninguém lá.
Ele se inclinou sobre o parapeito, tentando enxergar melhor o chão ao longe, mas ela não estava parada esperando, como deveria; olhou para os lados, porém a rua parecia deserta.
– Chris? – disse ele para a noite.
E um sussurro fraco, quase inaudível na noite, respondeu:
– Estou aqui.
Federico sorriu e passou a perna sobre o parapeito, pulando da janela para a sacada. O vento frio agitava seus cabelos, desfazendo a precária arrumação anterior, e ele olhava para o chão quatro metros abaixo de si, procurando uma maneira de descer. Talvez pudesse alcançar a janela do térreo se ficasse pendurado na sacada.
Ele se virou de frente para a janela do quarto, se posicionando para descer, e deparou-se com o rosto de Christine a centímetros do seu.
– Federico! – ela o segurou pelo colarinho da blusa bem a tempo, porque o susto o havia desestabilizado e Federico quase perdeu o equilíbrio.
– Como você... – balbuciou, enquanto voltava a se endireitar.
Ela riu.
– Você é tão previsível...
Federico acariciou os longos cabelos ondulados da namorada, enquanto o vento forte fazia alguns fios grudarem em seus lábios cor de vinho. Quando ela ergueu a mão para acariciá-lo também, ele viu.
– Que marcas são essas? – perguntou, apontando para o pulso dela. Horríveis cicatrizes vermelhas brilhavam, circulando seu antebraço como pulseiras.
– Não estou vendo marca nenhuma – alegou ela, segurando-o pelo queixo e virando seu rosto para que ele olhasse nos olhos dela. Foi nesse momento que ele notou que o vento forte não vinha da rua, mas de dentro do quarto, jogando os cabelos de Christine para frente,sobre seu rosto.
– O que está acontecendo, Christine? O que você veio fazer aqui, me assustar?
Ela pareceu não se alterar com o tom grosseiro do namorado.
– Vim te colocar para dormir, meu amor. – E então beijou-o. Seus lábios pareciam ácidos, líquidos. Era como se Federico estivesse tomando um copo de vinho. – Durma bem, meu principezinho.
E suas mãos macias em seu colarinho o empurraram para a noite gelada e para o chão distante.






Parte 2 - nighttime blessing (noite abençoada)

Tac. Tac.
Federico acordou sobressaltado de seu cochilo, o peito arfando, os óculos tortos no rosto, o livro que estava lendo pendia miseravelmente amassado. Ele tentou desamassar o livro da melhor maneira que pode, enquanto ouvia novamente o barulho de cascalho atingindo a janela.
Tac. Tac. Tac.
Ele permaneceu na cama.
Foi só um sonho. Um sonho. Apenas um sonho. Ele ficava repetindo para si mesmo, mas ainda assim não conseguia levantar os pés da cama para abrir a janela.
– Christine? – sussurrou, certo de que se estivesse fazendo papel de otário ninguém presenciaria. – Você está aqui? Está no quarto?
Toc. Toc. Toc.
Agora o som vinha da porta fechada. Alguém batia. Talvez fossem apenas seus pais, ou talvez fosse Christine, mas como ela teria conseguido chegar até lá?
Federico ponderou se deveria ficar em silêncio, fingindo dormir, antes de perguntar:
– Quem é?
– Christine – sussurrou uma macia voz feminina do outro lado da porta. – Me deixe entrar antes que alguém acorde e me veja aqui.
Federico levantou-se trêmulo da cama. Foi só um sonho.
– Como você chegou aqui? – perguntou através da porta, segurando a maçaneta.
– Depois eu te explico, me deixa entrar!
Ele permaneceu em silêncio, respirando fundo e tentando perder o medo. Ela não poderia atirá-lo da janela dali, poderia? Ele só teve um sonho ruim.
– Federico, o que está acontecendo, por que você não me deixa entrar? Se seus pais me pegam aqui...
Ele não teve coragem de abrir a porta.
– Vá embora, Christine – respondeu. – Eu vejo você amanhã, vai pra casa agora.
Houve um breve silêncio do outro lado, e um suspiro.
– Eu não posso ir embora – ela revelou.
– E por que não?
– Porque eu estou amarrada e muito machucada. Eu não consigo andar, Nem me mexer.
– O quê? – Lembrando-se das marcas dos pulsos, Federico abriu a porta imediatamente, mas ela não estava no corredor. – Christine? – chamou, encarando o breu à sua frente, repleto de pânico.
­– Estou aqui – disse uma voz vinda de dentro do quarto.
Ele se virou tão bruscamente quanto bateu a porta.
Christine estava sentada na sua cadeira do computador, girando e girando, com os pulsos amarrados para trás e o corpo coberto de sangue. Ele podia ver os machucados das algemas em seus pulsos, tal qual os do sonho. Cortes profundos haviam retalhado sua testa e bochechas e a cabeça dela pendia para trás, com os cabelos jogados sobre o espaldar, com olhos e boca muito abertos.
Federico cobriu a boca com a mão para não gritar.
Sangue escorria pelo chão, manchava de vermelho o tapete azul e ameaçava chegar até seus pés. Ele recuou até encostar na porta atrás de si. E Christine girava e girava...
No espelho do guarda roupa encarava-o o reflexo dela, com o rosto arrancado, as órbitas podres... No monitor do computador, outro reflexo tinha a boca cordada de orelha a orelha, com o nariz e os olhos enfiados nela... No reflexo do brilhante sangue do chão, ela tinha as mãos costuradas no rosto... E no copo d’água do criado mudo ela se afogava...
Mordendo as costas da mão com toda a força para não gritar, ele se virou para fugir, mas, ao abrir a porta, Christine o esperava sorridente no corredor. Ele não sabia se fechava a porta, se preferia a Christine sorridente ante à garota amarrada em sua cadeira.
– O que você quer? – perguntou com a voz abafada, porque a própria mão tapava a boca. Sangrava, de tanto ele morder.
– Te colocar pra dormir.
Federico a deixou entrar temendo que, se fechasse a porta novamente para ela, a figura agonizante na cadeira voltasse a aparecer.
Ela sorriu.
– Não se preocupe, você vai acordar.
Trêmulo, ele tirou a mão da boca e se caminhou para as mãos estendidas dela. Christine o guiou para a cama e ele se deitou em seus braços, quase se esquecendo do terror que causara, sentindo o cheiro que ela emanava, cheiro de rosas, morangos e sangue... sangue...



parte 3 - sleep well, my little prince (durma bem, meu principezinho)

Como prometido, Federico acordou. Um cheiro forte invadia suas narinas, mas não era mais sangue: era cheiro de podridão.
Foi só um sonho, repetiu para si mesmo, mas não quis abrir os olhos. Tateou ao seu redor. Estivera deitado no chão.
– Christine? – chamou. E então mais alto. – Christine!
Mas não houve resposta.
Inevitavelmente, seus olhos se abriram. Mas foi como se não o tivessem feito: a escuridão engolia o local. Tateou novamente pelo chão, e suas mãos encontraram uma substância viscosa. Elas tremeram no caminho até o seu nariz, mas Federico não saberia dizer se aquilo fedia miseravelmente porque todo o resto fedia, ou se a substância fazia parte da fonte do odor.
– Christine! – tentou ele novamente. – Christine!
E desmaiou.
Despertou com o som de uma porta abrindo e a claridade que vinha por trás dela quase o cegou. Demorou alguns segundos para seus olhos se acostumarem e virem uma silhueta cortada contra a luz.
– Christine? – sussurrou. E foi tudo o que conseguiu dizer.
A figura entrou e fechou a porta atrás de si, trazendo a escuridão de volta.
– Por que não ligou a luz, bobinho? – perguntou a voz dela, vinda de algum canto à sua frente. Em seguida, alguns passos e o clique de um interruptor sendo ligado.
Federico teve que proteger os olhos contra a luz insuportável que atingiu o local. Demorou alguns minutos até que pudesse se acostumar com a claridade e abrir os olhos devagar.
Christine estava lá, de pé à sua frente, com seu jeans e sua camiseta. Olhava-o de cima, mas com ternura.
Ele olhou ao redor. Uma dezenas de corpos estava jogada na sala branca. O sangue, a carne podre, os olhares que ela sequer teve a decência de fechar e que agora decompunham-se sem dignidade. Havia cadáveres de onde os rostos haviam sido arrancados, outros onde as mãos foram costuradas  aos rostos. Um deles tinha a boca cortada de orelha a orelha e nariz e olhos enfiados nela; outro estava amarrado numa cadeira da mesma forma que Christine estivera em sua visão.
– Onde eu estou? – perguntou a ela.
– No meu circo.
Ela puxou sua cabeça para trás, pelo cabelo, pegou um pequeno canivete no bolso de traz do jeans e o enfiou no ouvido de Federico, girando e girando como uma broca. O fedor o deixava tonto e a dor ia chegando ao seu cérebro. Ele tentou empurrar a mão dela, mas só conseguia tremer de dor.
Grite, disse ele a si mesmo. Grite, essa dor é insuportável.
Grite, grite...
E um sussurro chegou ao seu ouvido ainda bom antes que ele apagasse:
– Shhh... Durma bem, meu principezinho.



parte 4 - all day, all night (todo o dia, toda a noite)


Tac. Tac. Tac.
Federico acordou com o som de cascalho batendo na janela do quarto. Seu óculos estava torto dobre o rosto, o livro que lia pendia amassado ao seu lado...




Sobre a Autora:
Érica Prado Érica Prado tem 16 anos, pretende cursar história, ouve metal e reclamações o tempo todo. Gosta de coisas fáceis tipo miojo e, portanto, não gosta da vida. Não, você não pode simplesmente gostar dos dois.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

KaaryDias. disse...

genial! *-*

Isaquiel Erbson disse...

Ficando solteiro em: 3... 2 ..
Eu gosto de historias de terror, mas o que me fez gostar de ler esse texto não foi só isso... Pois antes de viajar na perfeita descrição eu já tinha gostado da escolha do título! Parabéns ;]