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sábado, 24 de novembro de 2012

Tudo que não é


Começarei o texto com uma confissão. Ia escrever, agora mesmo, um belo poema de amor. Todo cheio de cores e sons, metáforas e hipérboles apaixonadas. Mas a caneta fugiu da minha mão, rolou pelo papel, recusando-se a escrever tanta mentira. E eu entendo a pobre infeliz. Suas irmãs canetas e bisavós penas passaram vidas inteiras escrevendo as vis besteiras não do amor, mas dos amantes. Sim, sim, são os amantes que estragam o amor.

O amor é bonito, não importam o que digam os céticos. E verdadeiro, um dos poucos sentimentos que realmente existem. Mas os que amam, ah! Os que amam deturpam o amor, amor este tão indefeso contra as falácias egocêntricas dos amantes.

Incrível como todos querem ganhar (e enganar) quando o assunto é amor. Seu caso é sempre o mais profundo, o mais apaixonado e o mais trágico. Até a tristeza decorrente de um amor fracassado é concorrida. Quando mais triste é um término, mais amor houve.

Mas não vou perder-me nas besteiras dos românticos. Devemos perdoá-los, são apenas jovens demais.

Acho que agora sei do que se trata esse texto: de ilusões. O amor está tão cheio delas...

Como são engraçadas as ilusões! No fundo sabemos que não passam de fumaça, do ópio que turva a visão da verdade, mas mesmo assim mergulhamos nelas. Sentimos-nos bem. Vejam só, nos sentimos bem na ilusão!

Sorrimos para o inventado, materializamos os sonhos e nos deitamos neles. Estranho pensar numa vida real. É como tirar as estrelas do céu, deixá-lo puro, cru. E quem dirá que é errado colorir o livro da vida com cores imaginárias?

Talvez a felicidade seja de mentira. E por que não seria? Nunca encontrei sua fórmula matemática. Há vantagens na mentira. Ela é mutável, útil, confortável.

O Homem, em sua arrogante racionalidade, finge viver em completa sanidade, mas entrega-se aos desvarios da ilusão na escuridão de seu quarto. Toda mente é povoada por cenas de sonhos jamais concretizados.

Gosto de fingir. De brincar de faz de conta. Mas não fujo da realidade, simplesmente crio a minha. Não existe alguma que seja verdadeira. Creio que esse seja o segredo da vida, pelo menos é o da minha. Não há qualquer padrão, nenhuma regra. Estamos livres para sonhar e viver sonhando.
Por isso declarei guerra à certeza, destruí toda realidade que existia em mim. Das ilusões existentes, a mais terrível é a verdade.

 
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Érica Prado disse...

"Sorrimos para o inventado, materializamos os sonhos e nos deitamos neles. Estranho pensar numa vida real. É como tirar as estrelas do céu, deixá-lo puro, cru. E quem dirá que é errado colorir o livro da vida com cores imaginárias?"

Me identificando em 3, 2, 1...
Demorei para comentar, mas estou aqui.
Achei... encantador. Traz a mesma melancolia de seus textos, sempre apresentando soluções fora do mundo "real", meio autista rs, e muito verdadeiro. Porque, afinal, o que é a verdade? O que realmente importa?

"É como tirar as estrelas do céu, deixá-lo puro, cru."

A vida real é assim, tão crua. E se temos a capacidade de pintá-la com estrelas, por que não? Que tem de errado? E onde está o errado?

Ai amei